Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jardim da mansão Morozov não trazia conforto; era um labirinto de cercas vivas sob o céu cinzento da Rússia, projetado para esconder segredos, não para revelar belezas. O ar frio cortava meu rosto, mas o gelo que eu sentia nas veias era pior.
Ao meu lado, Lorenzo Moretti caminhava com uma elegância letal. O braço dele, firme como uma viga de aço sob o meu toque, era a única coisa que me impedia de desabar. Meu coração b**e errado. Cada batida empurra o ar para fora dos meus pulmões e eu preciso escolher entre respirar... ou não desabar na frente dele. Eu sentia o olhar do meu pai queimando minhas costas da varanda. A mensagem era clara: seja perfeita ou morra.
Paramos perto de uma rotunda de pedra, longe o suficiente para que o vento abafasse nossas vozes.
— Primeiro: me chame de Lorenzo. Estaremos dividindo a cama em quinze dias — a voz dele veio direta, sem o verniz da etiqueta. — Segundo: o que fizeram com você? Você exala dor, Anya.
Tentei manter a máscara de porcelana que levei anos para esculpir, mas a dor interrompeu minha fala por um segundo antes de eu conseguir estabilizar a voz. — Não é nada... apenas o cansaço dos preparativos.
Ele soltou um suspiro pesado, um som que vibrou no ar gélido. Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço. Eu não recuei. Presas que correm são caçadas, e eu já estava cansada de ser a caça.
— Casamentos na máfia são para sempre. Você tem ciência disso? — Os olhos dele, escuros como café forte, prenderam os meus.
— Claro — forcei um sorriso amargo que repuxou minha costela. — Uma sentença de prisão perpétua, selada com ouro e sangue.
— Podemos nunca nos amar — ele continuou, a voz baixando um tom —, mas precisamos de uma boa convivência. E para isso, você precisa ser honesta. Eu sinto o cheiro de pomada médica daqui. Eu vi como você estremeceu quando toquei suas costas. Me diga o que está acontecendo.
Apertei os dedos sobre a seda do vestido, sentindo o espartilho me esmagar. Meus olhos ardiam, mas eu não podia chorar.
— Ouvi dizer que você é um sádico — respondi, minha voz saindo áspera pela falta de ar. — Que sente prazer no sofrimento alheio. Se for verdade, estou apenas trocando uma cela por outra.
Lorenzo se aproximou tanto que pude sentir o calor que emanava dele. Ele estendeu a mão e meu corpo travou, esperando o golpe. Mas seus dedos apenas tocaram meu queixo, forçando-me a encará-lo.
— O meu sadismo é reservado para inimigos e traidores — ele disse, a voz como um trovão distante. — Eu protejo o que é meu. E a partir do momento em que assinei aquele contrato, você passou a me pertencer. E ninguém encosta no que é meu... e continua respirando.
Aquelas palavras não eram uma promessa; eram uma decisão.
— Eu tenho medo... — sussurrei, a voz finalmente falhando. — Se você me rejeitar agora, se me devolver como uma mercadoria com defeito... meu pai vai me matar. Ele me quebrou por tentar fugir. Se souber que eu contei, ele vai terminar o serviço.
— Então foi aquele filho da puta... — Lorenzo passou a mão pelo cabelo, a fúria contida em cada linha do seu rosto. — Eu não devolvo o que já é meu, Anya.
Ele se afastou um passo, mas o olhar ainda estava em chamas.
— Nossos pais esperam lá dentro um acordo selado. Eles esperam que o contrato seja cumprido.
— E o que eles terão? — perguntei, prendendo a respiração.
Lorenzo voltou a se aproximar, traçando a linha da minha mandíbula com uma posse que me fez estremecer.
— Eles terão o casamento. Eu estou comprando o seu segredo, Anya. E agora, você me deve muito mais do que apenas um herdeiro. Você me deve a verdade absoluta.
Ele virou as costas e caminhou de volta para a mansão, sem esperar por mim. Enquanto ele se afastava... eu entendi. Eu não tinha sido salva. Eu tinha sido escolhida. E, no mundo de Lorenzo Moretti, ser escolhida por ele era só outra forma de não ter escolha nenhuma.







