Mundo de ficçãoIniciar sessãoAugusto acordou no dia seguinte sentindo um estranho vazio na cobertura. O silêncio, que antes era uma paz que ele apreciava, agora parecia um aviso. A xícara de café que Lívia trouxe à mesa estava fria. Ele a bebeu mesmo assim, observando o lugar onde a aliança de Helena estivera.
— Ela não atendeu nenhuma das minhas chamadas — Lívia comentou, sentando-se à mesa sem o convite silencioso que Helena sempre fazia. — Provavelmente está em algum hotel barato, arrependida. Dê 24 horas, Augusto. Ela volta correndo quando o limite do cartão começar a apertar. Augusto soltou um suspiro, tentando convencer a si mesmo de que Lívia estava certa. Mas uma pulga atrás da orelha o incomodava. Helena nunca fora de agir por impulso. O descarte, a saída silenciosa, a forma como ela o olhou antes de ir embora... não era o comportamento de alguém que esperava um pedido de desculpas. No escritório, a realidade bateu com a força de um martelo. — Senhor Ferraz, temos um problema com a Aurora Capital — o diretor financeiro entrou sem bater, o rosto pálido. — O fundo notificou que vai antecipar a auditoria de governança do Cais Norte. Eles exigem a assinatura original da responsável pelo relatório de viabilidade. Augusto sentiu uma gota de suor frio escorrer pelas costas. A responsável pelo relatório, no papel, era Helena. — Ligue para ela — ordenou Augusto. — Já tentamos. Ela não atende. E, pior, a assessoria jurídica da Aurora informou que, a partir de hoje, qualquer aditivo contratual sem a presença da Helena será considerado nulo. Eles alegam... que houve uma discrepância na assinatura digital usada ontem. Lívia, que ouvia tudo perto da porta, palideceu. Foi ela quem usou o token de Helena para validar aquele documento na noite da traição. Ela pensou que ninguém perceberia um "ajuste técnico" de rotina. — Isso é impossível — Augusto levantou-se, batendo a mão na mesa. — Lívia, como você validou aquilo? — Eu... eu usei o sistema. Como sempre fazemos! A Helena sempre deixou o acesso liberado para que eu pudesse adiantar as coisas — a voz de Lívia falhou. — Augusto, isso não pode ser um problema real. É só um procedimento padrão. — Não é padrão quando a Aurora está envolvida! — ele gritou. Augusto caminhou até a janela, olhando para a cidade lá embaixo. Ele precisava de Helena. Precisava que ela fosse até lá, assinasse o que fosse necessário e mantivesse a farsa de pé. Ele pegou o celular e, num gesto que considerava o auge da sua generosidade, digitou uma mensagem curta: “Helena, pare com esse teatro. Volte para a empresa agora. A Aurora está criando problemas e preciso que você resolva. Não torne isso algo que teremos de resolver legalmente.” Ele enviou. Cinco minutos depois, a resposta chegou. Não foi uma ligação, nem um pedido de desculpas. Foi uma notificação formal de um escritório de advocacia: “A Sra. Helena Duarte Ferraz não atua mais na Ferraz Urbanismo. Qualquer tentativa de contato deve ser feita através de via judicial. A Sra. Ferraz não reconhece qualquer documento assinado em seu nome após a data de ontem.” Augusto sentiu o celular tremer na mão. A ameaça, que antes parecia um blefe, agora tinha o peso de um processo criminal. — Ela está nos processando — sussurrou ele, olhando para Lívia. — Ela não tem coragem! — Lívia tentou retomar o controle, mas seus olhos mostravam o pânico. — Ela viveu na sua sombra por cinco anos, Augusto. Ela não sabe nem como abrir um processo. Deve estar sendo mal orientada por alguém. Augusto não respondeu. Ele lembrou-se do momento em que jogou o relatório dela no lixo. A confiança com que ela falou sobre o embargo ambiental. E se ela estivesse certa? E se ela tivesse guardado as provas? Ele percebeu, com um aperto no peito, que não conhecia a mulher com quem dividiu a cama por meia década. Ele conhecia o acessório que ele mesmo tinha moldado, mas não a pessoa por baixo da pele. Naquela tarde, uma equipe da Aurora Capital entrou na construtora. Não pediram licença. Vieram com pastas, computadores e uma autoridade que fez a equipe de Augusto se sentir como estagiária. — Onde está a Sra. Helena? — o representante da Aurora perguntou, ignorando completamente Augusto. — Temos uma reunião marcada com a nova diretora de projetos. Augusto sentiu o chão sumir. — Nova diretora? De que projetos? O representante da Aurora sorriu, um sorriso frio e burocrático. — A Sra. Helena Duarte. Ela assumiu a consultoria estratégica da Aurora esta manhã. E, pelo que vimos, o seu projeto do Cais Norte é o primeiro item da lista de auditoria dela. Boa sorte, Sr. Ferraz. Você vai precisar. Augusto assistiu, paralisado, enquanto a equipe da Aurora ignorava seu escritório e seguia para a sala de reuniões principal. Ele estava perdendo o controle da sua empresa, e a mulher que ele achava ter descartado era quem segurava o controle remoto da sua queda.






