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Capítulo 9 — O peso do silêncio

Augusto caminhava pelas ruas do centro financeiro, um lugar que, até quarenta e oito horas atrás, ele dominava como um rei. Agora, cada rosto que passava parecia carregar um julgamento silencioso. Ele não estava acostumado a ser um homem comum, a ter que olhar para os dois lados antes de atravessar a rua ou a esperar o sinal abrir como qualquer outro pedestre. A humilhação de ter sido escoltado para fora de seu próprio prédio ainda queimava em sua pele como uma queimadura de segundo grau.

Ele entrou em um café pequeno e sem luxo, buscando um lugar onde não fosse reconhecido. O celular, que ele mantinha desligado para evitar as notificações constantes dos advogados da Aurora Capital, vibrou na mesa. Era um número bloqueado. Ele sabia que era uma questão de tempo até que a imprensa começasse a farejar a queda da Ferraz Urbanismo. As notícias de que a empresa estava sob investigação por fraude financeira começavam a circular em blogs de negócios e colunas de bastidores.

— O café está servido — disse o atendente, sem olhar para ele.

Augusto tomou um gole. Estava amargo, queimado. Ele fechou os olhos, a imagem de Helena surgindo inevitavelmente em sua mente. Durante cinco anos, ele a convenceu de que ela não era ninguém sem ele. Ele a manipulou para que ela acreditasse que seu intelecto era apenas uma ferramenta a ser usada para o benefício dele. Ele construiu uma narrativa onde ele era o sol e ela, a lua, brilhando apenas pelo reflexo da luz dele.

Mas, ao abrir os olhos e olhar para o próprio reflexo no vidro da vitrine, ele viu um homem que não tinha construído nada. Ele era uma fraude.

Enquanto isso, a quilômetros dali, no escritório provisório que Helena montara, o clima era de reconstrução. Helena estava debruçada sobre os papéis da fundação que ela nomeara como Instituto Aurora. Não era apenas um nome em homenagem à empresa que a apoiara; era sobre o amanhecer, sobre a luz que volta depois de uma longa noite. Ela estava revisando os estatutos, garantindo que o instituto fosse autônomo, desenhado para mentorar mulheres que, como ela, tinham sido silenciadas em ambientes corporativos dominados por egos inflados.

Dante entrou com dois cafés, desta vez, quentes e trazidos de um lugar que Helena costumava frequentar antes de casar com Augusto. Ela sorriu ao sentir o aroma familiar.

— Você tem boa memória — ela comentou, deixando os papéis de lado.

— Algumas coisas valem a pena ser guardadas — Dante respondeu, sentando-se na cadeira oposta. Ele não invadiu o espaço dela. Ele simplesmente estava ali, uma presença constante que não pedia nada, mas oferecia tudo em termos de apoio.

— Augusto está entrando em colapso — Helena disse, a voz calma. — Ele não sabe como ser nada além de um "chefe". Ele nunca aprendeu a ser humano.

— O colapso dele é o resultado de uma vida baseada em mentiras, Helena. Você não pode se sentir culpada pela gravidade das escolhas dele.

— Eu não me sinto culpada — ela corrigiu, olhando pela janela. — Eu sinto... um luto. Não por ele. Mas pela mulher que eu fui. A mulher que deixou tudo isso acontecer porque achava que o amor precisava de sacrifício constante. Eu olho para esses cinco anos e vejo um desperdício de tempo e de inteligência.

Dante inclinou-se para a frente, seus olhos fixos nos dela com uma intensidade que fazia o coração de Helena acelerar, mas não de medo, e sim de uma estranha esperança. — A Helena de cinco anos atrás precisava passar por isso para se tornar a mulher que está sentada aqui agora. Você não foi desperdiçada, você foi forjada. O que você vai fazer com a sua vida a partir de amanhã é o que realmente define quem você é.

Helena sentiu um conforto profundo com aquelas palavras. Ela pegou o celular e viu uma mensagem de Sofia: “O Ministério Público acaba de confirmar o recebimento da denúncia formal. O processo entra em fase de instrução amanhã. Ele não terá saída.”

Helena suspirou. A vingança, ela descobriu, não era sobre ver Augusto na sarjeta; era sobre ver a verdade ser revelada.

Naquela noite, Augusto tentou uma última cartada. Ele apareceu na casa da avó de Helena. O portão de ferro, que ele sempre desprezara como "antiquado", parecia agora um muro intransponível. Ele não podia entrar. Ele ficou ali, sob a luz dos postes, parecendo um mendigo de terno caro, até que Beatriz apareceu na varanda.

— Helena não está — a velha senhora disse, sem abrir o portão. — E, mesmo que estivesse, ela não teria nada para falar com você que não pudesse ser dito por um advogado.

— Eu só queria que ela soubesse que... que eu não planejei que chegasse a esse ponto — Augusto gaguejou, sua voz falhando.

Beatriz soltou uma risada seca que ecoou pela rua silenciosa. — Você não planejou que ela descobrisse, Augusto. Essa é a única diferença. Você planejou o crime, apenas não previu a inteligência da vítima. Agora, saia daqui antes que eu chame a segurança.

Augusto ficou ali por mais alguns minutos, o silêncio da noite sendo o seu único companheiro. Ele percebeu, talvez pela primeira vez, que a porta não estava apenas fechada; ela tinha sido trancada por dentro. Ele tinha jogado o seu trunfo fora, e agora, o jogo estava perdido.

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