Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala de reuniões da Ferraz Urbanismo nunca parecera tão pequena. Augusto estava na cabeceira, os dedos tamborilando contra o mogno com uma ansiedade que ele tentava esconder sob uma camada de arrogância. Lívia estava ao lado dele, os lábios apertados, o rosto pálido. Eles não esperavam que a "esposa descartável" aparecesse como a principal consultora da Aurora Capital.
A porta se abriu. Helena entrou acompanhada por um assistente da Aurora que carregava uma pasta pesada. Ela vestia um conjunto azul-marinho de corte impecável. Não havia traços da mulher que se escondia em casa. O cabelo, agora cortado com precisão, conferia-lhe um ar de autoridade que ela nunca tinha deixado transparecer. Ela não olhou para Augusto. O olhar dela estava fixo no tablet à sua frente. — Sr. Ferraz — Helena disse, a voz equilibrada, sem nenhum resquício de afeto ou mágoa. — Temos muito o que cobrir. A auditoria identificou discrepâncias sérias na gestão do Cais Norte. Augusto tentou rir, um som seco que não convenceu ninguém na sala. — Auditoria? Helena, isso é ridículo. Você sabe como funcionam nossos projetos. Sabe que esses números são apenas uma margem de segurança. Helena parou o que estava fazendo e levantou o olhar. Era um olhar gélido, o olhar de alguém que conhecia todos os esqueletos naquele armário. — Eu sabia como eles funcionavam porque eu os corrigia, Augusto. O que a auditoria está apontando não são margens de segurança. São crimes financeiros. Lívia, — ela voltou-se para a secretária, que encolheu-se na cadeira — você assinou o aditivo de ontem usando o token digital do meu perfil. Você entende que isso é falsidade ideológica? O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. Lívia abriu a boca, mas não saiu som algum. Augusto interveio, batendo com a palma da mão na mesa. — Chega! Isso é uma vingança barata porque o casamento não deu certo? Você não vai destruir a empresa que nós dois construímos! Helena deu um sorriso mínimo, de quem assiste a um teatro previsível. — Nós dois, não, Augusto. Você construiu a fachada. Eu construí a fundação. E agora, como representante da Aurora, estou decidindo se a fundação ainda sustenta o peso da sua gestão. Ela empurrou a pasta sobre a mesa. Dentro, não estavam apenas papéis, mas as evidências de todas as vezes que ela salvara a Ferraz da ruína. Relatórios de 2024, projeções de risco de 2025, e a prova incontestável de que o terreno do Cais Norte estava, de fato, contaminado desde o início. — Vocês não têm como cobrir o prejuízo desse embargo — Helena continuou, a voz cortante. — A Aurora vai retirar a garantia de crédito. E, juridicamente, Augusto, você está exposto. Pessoalmente. Augusto sentiu o suor frio. Ele olhou para Helena, tentando encontrar a mulher que ele dominara por cinco anos, mas não a encontrou. A mulher à sua frente era uma profissional implacável. — O que você quer? — ele sussurrou, a voz carregada de ódio e medo. — Eu não quero nada de você — ela respondeu, levantando-se. — Eu estou aqui apenas para garantir que a empresa não caia sobre os funcionários que trabalharam honestamente. Quanto a você e à Lívia... bem, a lei deve cuidar disso. Helena virou-se para sair. Augusto, num ímpeto, levantou-se e segurou o braço dela. O toque dele, que antes era de posse, agora não passava de um gesto de desespero. — Helena, a gente pode conversar. Podemos resolver isso lá fora, de forma privada. Você ainda é minha esposa. Helena olhou para o braço dele, depois para os olhos dele, com uma frieza que o fez soltar imediatamente. — Não confunda as coisas, Augusto. O casamento acabou no momento em que você achou que poderia roubar meu trabalho e minha dignidade. Hoje, aqui, eu sou apenas a sua pior pesadelo corporativo. Ela saiu da sala, deixando os dois imersos no pânico. No corredor, um homem a aguardava. Era Dante, o braço direito da família Valença. Ele não parecia um segurança, mas um parceiro. Ele a observou com um brilho de admiração nos olhos, entregando-lhe uma pasta com novos documentos. — A reunião foi como esperava? — ele perguntou, caminhando ao lado dela em direção ao elevador. — Foi melhor — ela respondeu, sentindo o peso do sobrenome Duarte Ferraz finalmente sair de suas costas. — Eles não têm saída. Dante sorriu, um gesto genuíno que a aqueceu de uma forma que Augusto nunca conseguira. — E agora? — Agora, a verdadeira limpeza começa. Dante apertou o botão do elevador. Ele não tentou conduzi-la, não tentou decidir o caminho. Ele apenas caminhou ao lado dela, respeitando seu passo. Helena percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, estava acompanhada por alguém que via sua força como um trunfo, não como uma ameaça. Mas o dia estava longe de terminar, e uma nova mensagem no celular a fez parar no meio do lobby: um aviso de que os investidores da Aurora estavam exigindo uma reunião de emergência sobre o seu futuro na empresa. O jogo estava longe de acabar.






