Mundo de ficçãoIniciar sessãoO escritório de Augusto Ferraz, que antes transpirava poder e sucesso, agora cheirava a desespero. As luzes estavam todas acesas, mas o ambiente parecia mergulhado em uma sombra permanente. Papéis estavam espalhados pelo chão, restos de tentativas inúteis de reconstruir um cronograma de pagamentos que não fazia mais sentido. Augusto observava a cidade pela vidraça, o reflexo de seu rosto mostrando olheiras profundas e uma linha de tensão que ele não conseguia disfarçar.
Lívia não estava mais ali. O RH, sob a nova supervisão do conselho indicado pela Aurora Capital, tinha feito questão de escoltá-la para fora do prédio antes mesmo do almoço. Augusto estava, pela primeira vez em cinco anos, completamente sozinho. Seu celular tocou. Ele atendeu na esperança de ser algum investidor disposto a renegociar, mas a voz do outro lado era a de seu advogado criminalista, um homem que ele pagava caro para nunca ter que atender. — Augusto, o Ministério Público acaba de abrir um inquérito preliminar. Eles têm documentos sobre o Cais Norte. Não me pergunte como, mas alguém entregou os registros internos das suas contas privadas. O telefone escorregou da mão de Augusto e caiu sobre a mesa. Helena. Ela não apenas tinha saído; ela tinha aberto a caixa de Pandora. Ele se sentou na poltrona de couro, a mesma onde Lívia costumava sentar, e sentiu o estofado frio. Como ele pôde ser tão burro? Durante cinco anos, ele tratou Helena como um acessório decorativo, alguém que cuidava da casa e dos números para que ele pudesse ser o rosto da empresa. Ele nunca a viu como uma estrategista. Ele nunca a viu como a pessoa que detinha a chave do seu próprio cofre. Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos. Era Dante, acompanhado por um representante da empresa de segurança contratada pela Aurora para zelar pelos ativos físicos. Augusto se levantou, tentando recuperar a pose. — O que vocês estão fazendo aqui? Esta é uma sala privada! — A sala é da Ferraz Urbanismo, Augusto — Dante respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — E, neste momento, a auditoria da Aurora determinou a mudança de todos os acessos administrativos. Você não é mais o representante legal da empresa. — Vocês não podem me tirar daqui! Eu fundei esta empresa! — Você pegou dinheiro emprestado e usou o nome de outra pessoa para assinar garantias — Dante deu um passo à frente, e a autoridade que emanava dele era opressiva. — A empresa que você "fundou" era uma fachada. O império que você ostentava era construído sobre o trabalho invisível de uma mulher que você teve a audácia de chamar de "básica". Augusto sentiu uma raiva primitiva subir pela garganta. Ele tentou partir para cima de Dante, mas dois seguranças bloquearam seu caminho com uma eficiência cirúrgica. Ele era um homem derrotado, e o pior era saber que a derrota tinha o perfume do perfume de Helena, que ainda pairava no ar como um fantasma. Enquanto era conduzido para fora da sala, Augusto olhou para a mesa principal. Lá, sobre o mogno, estava a aliança de casamento de Helena, que ele tinha deixado de lado no dia em que ela partiu. Ele a pegou. O ouro pesava pouco, mas o significado era uma sentença. Ele tinha trocado a única pessoa que o amava pela conveniência de um ego que nunca se saciava. E agora, o ego estava morrendo de fome em meio às ruínas. Enquanto isso, três andares abaixo, Helena terminava de assinar o protocolo de transição. Ela estava em um escritório improvisado, cercada por caixas. O trabalho era imenso, mas pela primeira vez, o esforço trazia uma satisfação que não vinha de um elogio de Augusto. Vinha da certeza de que ela estava reconstruindo sua dignidade, tijolo por tijolo. Dante entrou na sala. Ele parou na porta, observando-a por um momento. Helena não levantou os olhos imediatamente, mas ela sentiu a presença dele. Ele era diferente de todos os homens com quem ela trabalhara nos últimos anos. Ele não exigia atenção, não exigia confirmação. — Ele foi escoltado para fora do prédio — Dante disse, suavemente. — O pessoal da Aurora já trocou as senhas. Helena finalmente levantou o olhar. — E como ele reagiu? — Como alguém que sempre viveu de aparências e, de repente, percebeu que não tem nada por trás delas. Helena assentiu, voltando a olhar para o monitor. — Ele vai tentar alguma coisa, Dante. Ele não vai aceitar isso passivamente. — Ele não terá a quem recorrer — Dante garantiu. — As provas que você entregou ao Ministério Público são sólidas demais para serem contestadas por qualquer artifício jurídico que ele ainda possa comprar. Helena soltou um suspiro que ela não sabia que estava prendendo. — Você acha que eu fiz a coisa certa? Dante caminhou até a mesa dela e colocou uma pasta ali. — Você não fez a coisa certa por ele, Helena. Você fez a coisa certa por você mesma, pelos seus valores e por todas as pessoas que ele enganou. A pergunta não é se você fez certo, é se você finalmente se sente livre. Helena olhou para a pasta. Era o projeto de uma fundação, algo que ela tinha rascunhado anos atrás, quando ainda tinha sonhos próprios, antes de serem enterrados sob as necessidades de Augusto. Era um projeto para apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade profissional. — Eu me sinto... eu me sinto como se estivesse acordando de um pesadelo — ela respondeu. — Então acorde de vez — ele disse, com um sorriso raro que iluminou o rosto sério. — O mundo fora desses corredores está esperando por alguém que finalmente sabe do que é capaz. Helena sentiu um calor no peito. Não era o amor apaixonado de um romance de cinema; era algo muito mais estável, algo que ela nunca experimentara. Era a sensação de ser vista. De ser reconhecida pela sua inteligência, pela sua coragem e pela sua força. E, pela primeira vez em muito tempo, o futuro não parecia uma página em branco que Augusto preencheria por ela. Parecia uma tela, onde ela, e somente ela, seguraria o pincel.






