Mundo ficciónIniciar sesiónO lobby do edifício corporativo era de um mármore frio que parecia refletir a instabilidade do momento. Helena mal tinha pisado fora da sala de reuniões quando seu celular disparou. Eram os investidores da Aurora. Eles não pediam; eles convocavam. Helena respirou fundo. O ambiente que antes a fazia sentir-se pequena quando acompanhava Augusto agora parecia o palco onde ela finalmente exercia o papel de protagonista.
Enquanto caminhava para o elevador privativo, ela passou por Augusto, que estava encostado na parede, o rosto transtornado. Ele tentou impedi-la novamente, mas Dante, que mantinha uma distância profissional, deu um passo à frente, bloqueando o caminho com uma cortesia ameaçadora. — Deixe a Sra. Helena passar, Augusto. Ela está em horário de trabalho — a voz de Dante era calma, mas o recado era claro. Augusto rosnou, frustrado. — Você não vai conseguir isso, Helena! A Ferraz tem contratos, tem parceiros que dependem de mim. Eles não vão deixar você derrubar tudo só por causa de um capricho de divórcio. Helena parou por um segundo, voltando-se para ele com uma expressão de pena que machucou mais do que qualquer xingamento. — Augusto, entenda de uma vez: não é um capricho. É matemática. A sua gestão é insustentável. Eu não estou derrubando nada; estou apenas deixando que a gravidade das suas escolhas faça o trabalho. O elevador fechou, deixando Augusto sozinho no corredor, a imagem do homem poderoso que ele acreditava ser começando a esfarelar. No andar da presidência da Aurora, o clima era outro. Havia uma expectativa silenciosa. Os investidores não queriam saber de dramas pessoais, queriam números e uma solução para o imbróglio da garantia. Helena entrou na sala com a postura de quem conhecia cada detalhe do contrato. Ela não precisou de notas. Ela dominava o assunto porque, durante quatro dos cinco anos de casamento, ela tinha sido a mão invisível que redigira aqueles termos. — Sra. Duarte — um dos sócios, um homem de meia-idade com um olhar crítico, começou. — O Cais Norte é um investimento estratégico para nós. Não podemos arcar com um embargo ambiental. Se a Ferraz falhar, a responsabilidade legal recai sobre quem assinou a garantia. Helena assentiu, mantendo a calma. — Exatamente. E é por isso que apresento a vocês hoje uma proposta de intervenção direta. A Ferraz não precisa falir, mas precisa ser saneada. O aditivo assinado ontem por Lívia Sampaio não é apenas irregular; ele é nulo. Tenho provas de que o token foi utilizado sem autorização da titular da conta. Ela projetou na tela os registros que Sofia, sua advogada, tinha levantado. Era o golpe final. A demonstração clara de má-fé por parte da secretária e a conivência negligente de Augusto. Os sócios trocaram olhares. A confiança deles em Augusto, que já estava abalada, agora desmoronava sob o peso da fraude comprovada. — E qual a sua sugestão? — o sócio perguntou. — Nomeação de um conselho gestor temporário — Helena respondeu, firme. — Augusto Ferraz será afastado do comando executivo durante a auditoria total. Lívia Sampaio deve ser demitida imediatamente e responderá por fraude. Eu assumirei a consultoria de crise para garantir que o projeto seja adequado às normas ambientais. Era uma cartada ousada. Ela estava tomando o comando da empresa que o ex-marido acreditava ser o seu legado inquestionável. Ao sair da sala de reuniões, horas depois, com a aprovação preliminar do conselho, Helena sentiu um peso sair de seus ombros. Mas a vitória ainda tinha um sabor amargo. Ela sabia que, para o mundo exterior, ela seria vista como a "esposa vingativa". Dante a esperava na saída. Ele tinha em mãos um café e um documento. — Você foi brilhante — ele disse, entregando-lhe o café. — O conselho ficou impressionado. Você não apenas salvou o projeto, você se posicionou como a única pessoa capaz de dar a volta por cima. — Eu não quero reconhecimento, Dante. Eu só quero que isso pare — Helena confessou, o tom um pouco menos formal. — Por cinco anos, eu escondi minha capacidade para que ele brilhasse. Agora, cada conquista parece um lembrete do tempo que perdi sendo invisível. — Esse tempo não foi perdido. Foi um aprendizado — Dante respondeu, seu olhar carregado de uma honestidade que a desarmava. — Você precisava entender o que não queria para poder construir o que realmente importa. Helena olhou para ele, notando, pela primeira vez, a forma como ele a observava. Não era como Augusto, que queria vê-la refletida em sua própria glória. Dante parecia vê-la como um par, alguém que possuía força própria. No entanto, o celular de Helena vibrou novamente. Uma chamada de um número desconhecido. Quando ela atendeu, a voz do outro lado não era de Augusto. Era de um investigador que ela contratara semanas atrás, antes mesmo de saber da traição, movida por uma intuição que ela sempre tentou abafar. — Sra. Duarte, tenho as informações que pediu sobre os negócios paralelos do Sr. Ferraz. Não é apenas o Cais Norte. Tem algo maior acontecendo, algo relacionado a fundos que não aparecem nas planilhas oficiais. E parece que a Lívia não é a única beneficiária disso. Helena sentiu um calafrio. Se houvesse mais — se Augusto estivesse envolvido em algo que ia além da ganância corporativa e entrava no terreno do crime financeiro — a situação dela era muito mais perigosa do que ela imaginava. Ela não estava apenas lutando por uma empresa; estava no meio de um vespeiro que poderia arrastá-la junto se ela não fosse extremamente cuidadosa. — Mande tudo para o meu e-mail seguro — ela disse, mantendo a voz estável. — E não conte a ninguém sobre isso. Ela encerrou a ligação e olhou para a cidade de São Paulo, que brilhava sob a noite que caía. O sucesso do dia tinha sido apenas o prelúdio. O verdadeiro desafio estava apenas começando, e as perguntas que agora ocupavam sua mente eram muito maiores do que o divórcio. O que mais Augusto estava escondendo dela durante todos esses anos? E até onde ele seria capaz de ir para impedir que ela descobrisse?






