Mundo ficciónIniciar sesiónFico parada no meio da sala, completamente imóvel, enquanto pessoas entram e saem como se aquela casa já não me pertencesse mais.
Homens e mulheres vestidos de forma impecável carregam minhas malas, caixas cuidadosamente lacradas, sacolas com coisas que eu sequer lembrava de ter separado. Alguns seguem ordens em voz baixa, outros apenas agem com uma eficiência quase militar. Tudo acontece rápido demais. Rápido demais para alguém que, até poucos dias atrás, levava a própria bolsa no ombro e decidia sozinha o que entrava ou não na sua casa. Mordo o lábio inferior, tentando processar a cena. É real. Cada mala atravessando a porta parece selar ainda mais a decisão que tomei — mesmo sem perceber quando exatamente isso aconteceu. Meu coração b**e acelerado, não de medo puro, mas de choque. De deslocamento. Como se eu tivesse sido retirada da minha própria vida e encaixada em outra, luxuosa demais para parecer confortável. — Senhorita Molleti? Viro-me ao ouvir a voz feminina. À minha frente está uma mulher alta, muito bem vestida, postura impecável, cabelos presos em um coque elegante. Ela exala autoridade silenciosa, mas seu olhar é educado, quase acolhedor. — Sim — respondo, automaticamente. Ela sorri de forma contida. — Meu nome é Bianca. O senhor De Luca pediu que eu viesse recebê-la. Engulo em seco. — Matteo não está? — pergunto, sem conseguir esconder completamente a decepção que me atravessa. — Infelizmente, não — ela responde. — Surgiram reuniões inesperadas. Ele lamentou não poder vir pessoalmente, mas pediu para que a senhora se acomode na casa como desejar. A palavra senhora ecoa de um jeito estranho dentro de mim. — Ele disse que, assim que retornar, conversará com você com calma sobre o casamento. Casamento. Ouvir aquilo da boca de outra pessoa torna tudo ainda mais concreto. Assinto em silêncio, sentindo um nó se formar na garganta. Bianca faz um gesto discreto com a mão, indicando o corredor. — Seus pertences serão organizados no quarto que ele reservou para você. Se precisar de qualquer coisa, basta avisar. Observo mais uma mala ser levada escada acima. Respiro fundo, tentando recuperar o controle. Estou na casa de Matteo De Luca. Cercada por pessoas que obedecem ordens que não foram dadas por mim. Sozinha… mas não exatamente desamparada. A sensação é estranha. Uma mistura de nervosismo, expectativa e uma pontada de medo silencioso. Afinal, esta casa não é apenas luxuosa. Ela é um território que não me pertence — ainda. Entro no quarto devagar, como se ele pudesse reagir à minha presença. A porta se fecha atrás de mim com um clique suave, e por alguns segundos fico apenas parada, observando. O espaço é amplo, elegante, impecável demais para parecer habitado por impulsos. Tudo está exatamente onde deveria estar. A cama perfeitamente alinhada. As almofadas simétricas. As cortinas caem em dobras calculadas. Matteo está em cada detalhe. Caminho alguns passos, passando os dedos pela superfície fria de um móvel, e não consigo evitar o pensamento: ele controla tudo. Não de forma espalhafatosa, mas precisa. Nada aqui parece deixado ao acaso. É o tipo de organização que não busca conforto — busca domínio. Abro a porta do closet. E prendo a respiração. O espaço é grande, silencioso, quase reverente. As roupas estão organizadas por cores, tecidos, ocasiões. Os ternos alinhados milimetricamente. As camisas perfeitamente passadas. As gravatas… dobradas com uma precisão quase obsessiva, cada uma no seu lugar, como se obedecessem a uma hierarquia invisível. É bonito. E um pouco assustador. Caminho até a bancada onde ficam os perfumes. Há muitos. Frascos diferentes, alguns discretos, outros imponentes. Todos parecem escolhidos com o mesmo critério rigoroso que rege o resto da casa. Estendo a mão quase sem pensar e pego um deles. Abro a tampa e aproximo do nariz. O cheiro me envolve imediatamente. É marcante. Amadeirado. Fresco e profundo ao mesmo tempo. Tem algo quente ali, algo que se fixa na pele — exatamente como ele. Fecho os olhos por um segundo, inspirando com mais calma do que deveria. Consigo imaginá-lo perto demais. Consigo imaginá-lo… assim. — Gostou desse? Dou um pulo. Meu coração dispara de forma quase dolorosa enquanto me viro bruscamente. Matteo está parado à entrada do closet. Impecável como sempre. O paletó ainda sobre os ombros, a gravata levemente afrouxada, como se tivesse acabado de sair de algo importante — ou perigoso. Seus olhos verdes estão presos em mim, atentos, divertidos de um jeito contido. — Eu… — minha voz falha por um segundo. — Não ouvi você chegar. — Percebi — ele diz, dando dois passos para dentro. O olhar dele desce rapidamente até o frasco em minha mão. — Esse é um dos meus preferidos. Sinto o calor subir pelo meu rosto. — É… marcante — digo, tentando recuperar a compostura. — Combina com você. O canto da boca dele se ergue levemente. — Bom saber. Ele se aproxima um pouco mais, o suficiente para que eu ainda sinta o perfume em meus dedos… misturado agora com a presença real dele. Matteo estende a mão e fecha o frasco com calma, seus dedos roçando de leve nos meus ao pegá-lo. O toque é breve. Mas intenso demais para ser ignorado. — Vejo que já está explorando a casa — comenta. — Estava apenas… observando — respondo, sincera. — Você é muito organizado. Ele inclina a cabeça, como se aceitasse aquilo como um fato óbvio. — Organização evita falhas. O olhar dele sobe novamente até o meu, firme, profundo. — E falhas custam caro. Engulo em seco. O silêncio que se instala no closet é denso, carregado de coisas não ditas. Matteo é o primeiro a se afastar, caminhando até uma das poltronas próximas à janela do quarto. Ele afrouxa a gravata de vez e tira o paletó, colocando-o com cuidado sobre o encosto, como se até esse gesto tivesse um método. — Precisamos conversar — diz, enfim. Assinto e o sigo até a área mais ampla do quarto. Sento-me na beirada da cama, sentindo o tecido macio sob os dedos. Matteo permanece em pé por alguns segundos, observando a cidade lá fora antes de voltar sua atenção para mim. — Sobre o casamento — completa. Meu estômago se contrai levemente. — Eu imaginei — respondo. Ele se vira e se apoia na cômoda, cruzando os braços. A postura é relaxada, mas a aura de controle não o abandona nem por um instante. — Quero que saiba de algo desde já — começa. — Essa decisão também é sua. Ergo o olhar, surpresa. — Eu posso escolher? — Dentro do que é possível — ele responde com honestidade. — O tipo de cerimônia, por exemplo. Pode ser algo pequeno. Reservado. Apenas o essencial. A ideia faz meu peito aliviar por um segundo. — Ou — ele continua, o olhar ficando mais intenso — pode ser algo grandioso. Há algo na forma como ele diz grandioso que muda o ar do quarto. — Pessoas importantes. Influentes. Um evento que não passe despercebido. Levanto-me lentamente, ficando de frente para ele. — E você prefere qual? — pergunto. Matteo não hesita. — Grandioso. A resposta vem firme, sem rodeios. — Não por vaidade — acrescenta. — Mas por mensagem. — Mensagem para quem? — questiono. Ele se aproxima alguns passos, diminuindo a distância entre nós. Não invade meu espaço, mas me obriga a erguer o queixo para manter o olhar nele. — Para todos que precisam entender que você está sob minha proteção — diz em tom baixo. — Que é minha esposa. E que isso não é negociável. Um arrepio percorre minha espinha. — Você será apresentada ao mundo como minha — continua. — E o mundo precisa ver isso. Engulo em seco. — E se eu quiser algo pequeno? — pergunto, testando os limites. Ele me observa por alguns segundos, avaliando. — Eu respeitarei — diz, por fim. — Mas não posso prometer que será o melhor para sua segurança. Essa palavra volta a pesar. — Você fala de proteção como se fosse uma moeda — digo. — Porque é — ele responde. — No meu mundo, visibilidade protege tanto quanto o anonimato. Depende de quem está olhando. Caminha até a janela e aponta discretamente para a cidade iluminada. — Um casamento grandioso cria alianças silenciosas. Gera respeito. Inibe intenções. Viro-me para a cama novamente, tentando organizar meus pensamentos. — Nunca pensei em casamento assim — confesso. — Para mim, sempre foi algo… íntimo. Ele se aproxima outra vez, a voz um pouco mais baixa. — Para mim, sempre foi estratégico. Nossos olhares se encontram. — Mas isso não significa que será frio — acrescenta. — Apenas… diferente. — Diferente como? — pergunto. Matteo inclina a cabeça, pensativo. — Você terá escolha em como se apresentar. No vestido. No que quer mostrar ao mundo. Eu cuidarei do resto. Respiro fundo. — E depois disso? — questiono. — Depois do casamento? O olhar dele se fixa no meu com intensidade. — Depois disso, Elena… você será oficialmente parte da minha vida. A forma como ele diz minha vida faz meu coração bater mais rápido. — Pense com calma — conclui. — Mas saiba que, seja pequeno ou grandioso… quando acontecer, será definitivo. E naquele quarto que agora divide nossas vidas, cercada pelo controle dele e pela liberdade limitada que me oferece, percebo que não estou apenas escolhendo o tamanho de uma cerimônia. Estou escolhendo a forma como o mundo passará a me enxergar. E como Matteo De Luca passará a me ter ao seu lado.






