Mundo de ficçãoIniciar sessãoNay amava as tortas de Ludovica. Isso era um fato indiscutível.
Mas, além disso, ela havia assumido uma missão pessoal: encontrar mais clientes para sua amiga. Sempre que tinha a oportunidade de apresentar o trabalho de Ludovica para alguém, fazia isso com entusiasmo. E quando chegava sua vez de contribuir com o café da manhã da equipe na Zanobi Corporation, a escolha era sempre a mesma. Uma torta, ou duas. Dependendo da quantidade de colegas famintos. Com o passar das semanas, os funcionários começaram a aguardar ansiosamente os dias em que Nay era responsável pelo lanche. As tortas desapareceriam em poucos minutos. E os elogios surgiam na mesma velocidade. Naquela manhã, porém, a rotina estava um pouco diferente. Humberto Zanobi permanecia fechado em sua sala desde cedo. Reuniões, relatórios, telefonemas, assinaturas. O trabalho parecia não ter fim. Quando o relógio já se aproximava do meio da manhã, Nay percebeu que ele sequer havia saído para tomar café. — Esse homem vai acabar desmaiando de tanto trabalhar — murmurou para si mesma. Sem pensar duas vezes, preparou uma bandeja. Uma enorme xícara de café. Daquelas capazes de despertar até os mortos. E uma fatia generosa de torta. Generosa talvez fosse pouco. Era praticamente uma montanha de torta. Satisfeita com o resultado, caminhou até a sala da presidência. Bateu à porta. — Entre. Quando a porta se abriu, Humberto ergueu os olhos dos documentos. Por alguns segundos, encarou a bandeja. Os olhos brilharam quando apreciou aquela imagem divina. Um raro sorriso surgiu em seu rosto. — O que é isso? — Uma intervenção. — Uma intervenção? — Sim. Ela colocou a bandeja sobre a mesa. — O senhor está trabalhando há horas sem sair daqui. — Estou bem ocupado hoje. — E continuará ocupado depois de comer. Humberto soltou uma pequena risada. — Você sempre foi mandona assim? — Apenas quando necessário, senhor. Ele pegou a xícara. — Obrigado, Nay. — Pode agradecer depois de provar a torta. Humberto cortou um pequeno pedaço. Experimentou. E voltou imediatamente sua atenção para o prato. Uma garfada, outra e mais outra. — Humm...que delícia — disse ele com as bochechas estufadas. Aquilo não passou despercebido por Nay. Ela conhecia aquele olhar. Era o olhar de alguém que havia gostado. Muito. Mas jamais admitiria tão facilmente. — Boa? — perguntou ela. — Bastante. — Eu sabia. — Qual buffet fez? A pergunta veio naturalmente. Nay abriu um sorriso orgulhoso. — Uma amiga. —Incrível. Ela trabalha com encomendas? — Trabalha. — Entendo. Humberto pegou mais um pedaço. E depois outro. Enquanto isso, Nay lutava para não sorrir feito uma criança. ***** O restante da manhã transcorreu sem grandes acontecimentos. Os relatórios continuaram chegando. As ligações não diminuíram. E Humberto Zanobi voltou a mergulhar completamente em seus compromissos. A enorme xícara de café ficou vazia. A pilha de documentos diminuiu. E a generosa fatia de torta desapareceu pouco a pouco. Somente perto do final da tarde ele conseguiu deixar sua sala por alguns minutos. Precisava espairecer. Esticar as pernas. Respirar um pouco longe de tudo aquilo. Com uma xícara de café nas mãos, caminhou pelos corredores da empresa em direção à cafeteria. Cumprimentou alguns funcionários pelo caminho. Respondeu a algumas perguntas rápidas. E aproveitou aqueles poucos minutos de tranquilidade. Ao retornar, passou pela recepção. Nay estava organizando alguns documentos quando percebeu sua aproximação. — Senhor Zanobi. — Nay. Ela ergueu os olhos. — Sim? — Ao final do expediente, passe na minha sala. Por um instante, ela ficou apreensiva. Tentou lembrar se havia esquecido alguma tarefa importante. — Aconteceu alguma coisa? — Não. A resposta veio tranquila. — Preciso conversar com você sobre o coffee break da reunião que acontecerá daqui a dois dias. A tensão desapareceu imediatamente. — Ah, claro. — Tem disponibilidade? — Com certeza. — Ótimo. Humberto assentiu educadamente. — Então nos falamos mais tarde. — Estarei lá. No final do expediente, como havia prometido, Nay bateu à porta da sala da presidência. — Entre. Humberto continuava trabalhando. Alguns documentos estavam espalhados sobre a mesa, mas agora seu semblante parecia menos carregado do que pela manhã. — O senhor queria falar comigo? — Sim, Nay. Sente-se. Ela acomodou-se na cadeira à sua frente. Humberto fechou uma pasta e apoiou os braços sobre a mesa. — Sobre o coffee break da reunião daqui a dois dias. — Certo. — Quero que você faça uma encomenda maior do que havíamos planejado inicialmente. Nay pegou seu bloco de anotações. — Quantas pessoas teremos? — Bastante gente. Uma equipe corporativa de uma empresa parceira estará conosco durante todo o dia. Será uma reunião extensa. Ela assentiu. — Entendi. — Quero que você encomende cinquenta tortas e cinquenta bolos decorados e confeitados. Por um instante, Nay arregalou os olhos. — Cinquenta? — Algum problema? — Não, senhor. Só estou imaginando a reação da pessoa quando eu der a notícia. Humberto esboçou um leve sorriso. — Então imagino que ela ficará satisfeita. — Muito satisfeita. — Ótimo. Ele fez uma breve pausa. — Eles conseguem entregar no prazo? — Com certeza. — Com quanto tempo de antecedência? — Um dia é mais do que suficiente. Na verdade, um dia é o mínimo que costumam pedir. — Perfeito. Humberto assentiu satisfeito. — Então está resolvido. — Vou entrar em contato ainda hoje. — Faça isso. Ele voltou a organizar alguns documentos. Mas antes que Nay se levantasse, acrescentou: — Daqui a dois dias nossa reunião será abrilhantada pelos produtos dessa profissional. O sorriso de Nay aumentou. — O senhor estará ajudando uma pessoa muito especial. — É um buffet pequeno? — Na verdade, não. — Não? — É apenas uma amiga. Uma amiga muito talentosa que produz tudo artesanalmente. Humberto pareceu genuinamente surpreso. — Sozinha? — Com ajuda da família. — Impressionante. — Também acho. — Eles fazem entrega? — Fazem, senhor. — Ótimo. Ele fechou a última pasta. — Então estamos combinados. — Sim, senhor. Nay levantou-se da cadeira já imaginando a alegria de Ludovica quando recebesse aquela notícia. Cinquenta tortas. Cinquenta bolos. Era mais do que uma encomenda. Era uma oportunidade.






