Mundo de ficçãoIniciar sessãoA fumaça começou a desaparecer lentamente.
Constantine permaneceu em silêncio, observando a cozinha completamente desorganizada. As formas estavam espalhadas pelo chão. O óleo havia estragado praticamente toda a produção. Ludovica permanecia sentada, chorando baixinho. Tommaso retirava os últimos pedaços do forno, tentando salvar alguma coisa, mas era inútil. Nenhum daqueles bolos poderia ser entregue. O relógio marcava o fim da tarde. A entrega estava marcada para a manhã seguinte. O silêncio só foi interrompido pelo som do telefone. O aparelho tocou uma vez. Duas. Três. Constantine caminhou lentamente até ele. Respirou fundo antes de atender. — Alô? Do outro lado da linha, uma voz educada perguntou: — Boa tarde. Falo com a senhora Ludovica? Estamos ligando para confirmar o horário da entrega das encomendas de amanhã. Constantine fechou os olhos por um breve instante. O silêncio tomou conta da sala. Depois da proposta feita pelo doutor Antônio, ninguém falou por alguns instantes. Ludovica e Tommaso trocaram um olhar discreto. A oferta era generosa demais. Boa demais. E justamente por isso despertava receio. Tommaso foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Doutor Antônio, nós somos muito gratos pela sua disposição em nos ajudar. Mas o senhor sabe que nós não temos condições de assumir um compromisso desse tamanho agora. Ludovica concordou com um leve movimento de cabeça. — Se Deus continuar nos abençoando como tem feito, talvez daqui a dois anos consigamos começar a pagar alguma coisa. Mesmo que seja aos poucos... Mas agora, sinceramente, nós não podemos prometer nada. O doutor Antônio apenas os ouviu, sem interrompê-los. Constantine então aproximou-se dos tios. Seu olhar transmitia tranquilidade. — Tia... tio... eu conheço o doutor Antônio há pouco tempo, mas tudo o que ele fez por mim mostrou que é um homem de bom coração. Eu acredito que podemos confiar nele. Os dois permaneceram calados. Era evidente que desejavam aceitar. Mas também era evidente o medo de assumir uma dívida que talvez demorassem anos para quitar. Ludovica respirou fundo. Segurou delicadamente a mão da sobrinha e falou com carinho: — Minha filha... venha aqui um instante. Os quatro se dirigiram até a pequena sala. Sentaram-se lado a lado. Ludovica olhou primeiro para Tommaso e, em seguida, para Constantine. — Nós já conversamos sobre isso antes, não foi? Tommaso apenas confirmou com um gesto. Então Ludovica voltou seu olhar para a sobrinha. — Eu só vou tomar qualquer decisão depois de conversar com o senhor Umberto. Constantine arregalou discretamente os olhos. — Com... o senhor Umberto? — Sim. A resposta veio naturalmente. — Desde que conhecemos aquele homem, ele sempre nos transmitiu segurança. Nunca nos prometeu nada que não pudesse cumprir. Sempre falou conosco com respeito e nunca nos tratou como pessoas inferiores. Tommaso completou: — Existem pessoas que a gente conhece há muitos anos e nunca aprende a confiar. Outras bastam poucos encontros para transmitir paz. O senhor Humberto é uma dessas pessoas. Constantine permaneceu em silêncio. Ela jamais imaginou que os tios depositassem tanta confiança naquele homem. Ainda mais sem saber que, na verdade, ele era o proprietário das terras onde viveram por tantos anos. Seu coração apertou. Por um instante, imaginou qual seria a reação dos dois quando descobrissem toda a verdade. Mas afastou aquele pensamento. Ainda não era o momento. Ela apenas sorriu discretamente. — Está bem, tia... então vamos conversar com ele. Depois da conversa com os tios, Constantine permaneceu pensativa durante boa parte da noite. A decisão de procurar Humberto Zanobi não saía de sua mente. Embora ainda existisse certo desconforto entre eles, ela sabia que, se Ludovica e Tommaso haviam depositado tanta confiança naquele homem, o mínimo que poderia fazer era respeitar a decisão dos dois. Já passava das oito horas da noite quando pegou o celular. Respirou fundo. Procurou o contato de Nay e enviou uma mensagem. "Nay, boa noite. Será que você poderia me ajudar? Eu preciso conversar com o senhor Humberto. Na verdade, eu, meus tios e o doutor Antônio gostaríamos de falar com ele. Você acha que existe alguma possibilidade de encaixar um horário na agenda dele amanhã?" A resposta demorou apenas alguns minutos. "Claro! Aconteceu alguma coisa?" Constantine sorriu discretamente ao perceber a preocupação da amiga. Não queria explicar tudo por mensagem. Mesmo assim, resumiu a situação. "Recebemos muitas encomendas depois daquela reunião da empresa. Graças a Deus, está tudo dando muito certo. Mas hoje tivemos um problema sério com o forno e surgiu uma proposta de ajuda. Antes de tomarmos qualquer decisão, meus tios querem ouvir a opinião do senhor Humberto." Do outro lado da tela, Nay permaneceu alguns segundos sem responder. Ela releu a mensagem duas vezes. Depois abriu a agenda de Umberto. Passou os olhos pelos compromissos da manhã. Reuniões, assinaturas,Videoconferências. Então encontrou um espaço livre às dez horas. Sorriu. "Consegui!" "Amanhã, às dez horas da manhã. Pode trazer seus tios. Eu mesma vou avisar o senhor Humberto para que ele reserve esse horário para vocês." Constantine respirou aliviada. Seus dedos correram rapidamente sobre a tela. "Muito obrigada, Nay. Você não imagina o quanto isso significa para nós." Nay respondeu com um emoji sorrindo e escreveu: "Não agradeça agora. Tenho a impressão de que amanhã será um dia importante para todos vocês." Na manhã seguinte, Constantine, Ludovica, Tommaso e o doutor Antônio chegaram à Zanobi Corporation alguns minutos antes do horário marcado. Nay os recebeu com um sorriso acolhedor. — Bom dia! O senhor Humberto está finalizando uma reunião. Peço apenas que aguardem mais alguns minutos. Os quatro agradeceram e sentaram-se na confortável recepção da empresa. O ambiente era sofisticado. O movimento de funcionários era constante, mas tudo acontecia de maneira organizada, quase silenciosa. Ludovica mantinha as mãos entrelaçadas sobre o colo. Tommaso olhava discretamente para os lados, admirado com a imponência daquele lugar. Constantine percebeu o nervosismo dos tios e segurou delicadamente a mão da tia, transmitindo-lhe confiança. Cerca de trinta minutos depois, Nay aproximou-se novamente. — O senhor Umberto já pode recebê-los. Os quatro caminharam até a ampla sala da presidência. Assim que entraram, Umberto levantou-se imediatamente. Com um sorriso discreto e elegante, cumprimentou um por um. Primeiro apertou a mão do doutor Antônio. Depois cumprimentou Tommaso. Em seguida, Ludovica. Por último, Constantine. — Sejam bem-vindos. Ela retribuiu o cumprimento com um leve sorriso. Depois que todos se acomodaram, Umberto sentou-se à cabeceira da mesa. Entrelaçou as mãos sobre o tampo de madeira e olhou, principalmente, para Ludovica e Tommaso. — Confesso que fiquei bastante curioso com a visita de vocês. Fez uma breve pausa. — Em que posso ajudá-los? Os dois se entre olharam. Ludovica tentou iniciar a conversa. — Senhor Umberto... nós... As palavras simplesmente não saíam. Tommaso respirou fundo, como se buscasse organizar os pensamentos, mas também não conseguiu continuar. Umberto percebeu imediatamente o constrangimento. Sorriu com gentileza. — Acho que estamos tornando esta conversa séria demais. Levantou-se da cadeira e caminhou até o interfone. — Nay, por gentileza, peça para trazer um café para nós. E, se possível, algumas fatias daquela torta maravilhosa que vocês serviram na última reunião. Do outro lado da linha, Nay respondeu prontamente. — Claro, senhor. Umberto voltou a sentar-se. Agora com um semblante mais leve, olhou novamente para os visitantes. — Pronto. Negócios importantes sempre ficam melhores acompanhados de um bom café.






