Capítulo 25 — Recomeço.
A manhã havia começado movimentada no açougue.
Constantine já estava se acostumando à rotina.
Atender clientes, organizar pedidos, limpar os balcões, separar as mercadorias.
O trabalho era cansativo, mas começava a se tornar um costume.
Naquele momento, Tião estava ocupado nos fundos do estabelecimento quando uma mulher entrou carregando uma bolsa de trabalho e algumas pastas.
Parecia apressada.
Como alguém que estava resolvendo várias tarefas ao mesmo tempo.
— Bom dia — cumprimentou Constantine.
— Bom dia.
A mulher começou a fazer seu pedido enquanto observava distraidamente a vitrine de carnes.
Mas, em determinado momento, voltou a olhar para Constantine.
Depois disfarçou ao perceber que estava sendo notada.
E mais uma vez a encarou.
Como se algo estivesse incomodando sua memória.
— Desculpe a pergunta...
Constantine ergueu os olhos.
— Sim?
— Nós nos conhecemos?
A jovem sorriu.
— Acho que não.
— Estranho.
A mulher franziu a testa.
— Tenho a impressão de já ter visto você em algum lugar.
Constantine pensou por alguns segundos.
Até que uma lembrança surgiu.
— A senhora trabalha na Zanobi Corporation?
Os olhos da mulher se arregalaram.
— Sim!
Então apontou para ela.
— Agora eu lembrei!
Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Você foi até lá há algum tempo.
Constantine não conseguiu evitar uma pequena risada.
— Fui.
— Meu Deus.
A mulher balançou a cabeça.
— Claro que era você.
Por um instante, ambas se lembraram do episódio.
O dia havia sido difícil.
Humilhante para Constantine, constrangedor para todos que estavam presentes no momento.
— Como você está? — perguntou a mulher.
A pergunta havia sido genuinamente sincera.
— Melhor do que naquele dia.
— Ainda bem.
— E você?
— Sobrevivendo.
As duas riram.
— Meu nome é Nay.
— Constantine.
— Eu sei.
A conversa continuou por alguns minutos.
Nay contou que era mãe solo, que criava a filha praticamente sozinha e que morava ali mesmo no bairro.
— Sério?
— Sim.
— Então somos vizinhas.
— Parece que sim.
Aquilo fez ambas sorrirem.
Era curioso.
Quando o pedido ficou pronto, Nay pegou as sacolas.
Mas antes de sair, parou por um instante e se virou novamente para Constantine.
— Ah, quase me esqueci... no próximo sábado vai acontecer um evento aqui na localidade, com todos os moradores participando.
Constantine a olhou com atenção.
— Evento?
— Sim. Vai ter feira de artesanato, festival de bolos, alguns profissionais oferecendo serviços e vários estandes, atendendo diferentes necessidades da população.
Ela sorriu com simpatia.
— Seria bom que você fosse. Assim conhece melhor a comunidade, o pessoal daqui e ainda pode contribuir de alguma forma.
Constantine pareceu interessada.
— Parece ótimo.
— Então vá. Tenho certeza de que vai gostar.
Quando descobriu que os tios da jovem estavam tentando se adaptar à nova vida na cidade, Nay pareceu ter uma ideia.
— Mas nós não temos um negócio.
— Não precisa ter — Disse Nay sorrindo.
— Muita gente começa lá.
Ela então explicou que a feira reunia moradores de diversos segmentos.
Havia artesãos,produtores rurais, costureiras.
Pessoas que vendiam doces, bolos e salgados.
— E os estandes são compartilhados.
— Compartilhados?
— Sim. Às vezes quatro ou cinco pessoas dividem o mesmo espaço. Um ajuda o outro.
Os olhos de Constantine brilharam.
Uma lembrança surgiu imediatamente.
— Minha tia faz tortas.
— Tortas?
— As melhores que eu já provei.
— Então está resolvido.
— Não é tão simples assim.
— Por que não?
— Porque ela vai dizer não vai querer ir.
— Então nós convencemos ela.
Constantine sorriu.
— Nós?
— Claro. Não posso perder a oportunidade de provar essa torta.
Como previsto, Ludovica recusou a ideia assim que ouviu a proposta.
— Eu não vou vender nada em feira nenhuma.
— Vai sim — respondeu Constantine.
— Não vou.
— Vai.
— Não vou.
Nai observava a discussão tentando não rir.
— Dona Ludovica, qual é o pior que pode acontecer?
— Ninguém comprar nada.
— Então voltamos para casa com tortas deliciosas.
Ludovica tentou permanecer séria.
Mas acabou sorrindo, perdendo a batalha.
No dia da feira, o bairro parecia outro.
Barracas coloridas ocupavam a praça principal.
Música tocava ao longe.
Famílias caminhavam entre os corredores.
Crianças corriam de um lado para o outro.
E, para surpresa de Ludovica, sua mesa foi uma das mais movimentadas.
As primeiras tortas venderam rapidamente.
Depois vieram os elogios, os pedidos, e as encomendas.
Muitas encomendas.
Ao final da tarde, Ludovica segurava um pequeno caderno onde havia anotado nomes, endereços e datas de entrega.
Ela olhava para aquelas páginas como se não acreditasse.
— Eu vou precisar fazer tudo isso?
— Vai — respondeu Constantine sorrindo.
— Meu Deus.
— Problema bom.
Ao redor delas, novas amizades também começavam a surgir.
As senhoras que vendiam flores passaram a cumprimentá-las como velhas conhecidas.
O produtor de hortaliças ofereceu ajuda para conseguir ingredientes mais baratos.
Outros expositores compartilharam experiências e conselhos.
Pela primeira vez desde que deixaram a fazenda, os três sentiram que estavam encontrando seu lugar naquele novo mundo.
E enquanto observava a tia sorrindo para mais um cliente, Constantine percebeu que talvez a mudança não tivesse sido apenas uma despedida.
Talvez tivesse sido um recomeço.
Uma semana se passou e numa tarde a conversa na cozinha seguia tranquila.
O aroma das tortas recém-assadas preenchia todos os cômodos da pequena casa.
Ludovica trabalhava concentrada em mais uma encomenda enquanto Constantine ajudava com algumas embalagens.
Foi então que alguém bateu à porta.
— Eu atendo! — anunciou Constantine.
Ludovica sequer ergueu os olhos.
Continuou trabalhando.
Nos últimos dias, era comum a chegada de clientes para buscar encomendas ou fazer novos pedidos.
Poucos minutos depois, ouviu a voz da sobrinha vindo da sala.
— Tia!
— O que foi?
— Venha aqui um instante.
Ludovica limpou as mãos no avental e caminhou até a sala.
Ao chegar, encontrou Constantine acompanhada por um senhor elegante e bem-apresentado.
Apesar das roupas simples para os padrões dele, era impossível esconder a educação refinada e os modos gentis.
— Tia, quero apresentar o doutor Antônio. Lembra dele?
O médico sorriu educadamente.
Ludovica abriu um largo sorriso.
— Ah, que bom rever o senhor.
O homem pareceu surpreso.
— Obrigada
— Entre, fique a vontade.Constantine já falou muito sobre o senhor.
— Espero que apenas coisas boas.
— Somente as melhores.
Os três riram.
— É um prazer conhecê-la de perto, dona Ludovica.
— O prazer é nosso.
Ela apontou para a mesa.
— Mas ninguém entra nesta casa sem tomar um café.
— Eu não gostaria de incomodar.
— Então já começou errado.
A resposta arrancou mais risadas.
Poucos minutos depois, todos estavam sentados à mesa.
O café havia acabado de ser passado.
O bolo ainda estava morno.
E a conversa fluía com uma naturalidade inesperada.
Falaram sobre a cidade.
Sobre as mudanças recentes.
Sobre as encomendas das tortas.
Sobre a feira do bairro.
Antônio ouvia tudo com atenção.
Sorria ao perceber o entusiasmo de Ludovica e o brilho nos olhos de Constantine ao falar daquela nova fase.
Por alguns instantes, esquecendo-se completamente seus próprios compromissos.