Capítulo 33 — Na cozinha emprestada.
Quando o forno apresentou aquele defeito inesperado, Ludovica teve apenas um pensamento. As duas grandes encomendas precisariam ser canceladas. E, junto com elas, talvez fosse embora a credibilidade que haviam conquistado com tanto esforço.
Afinal, faltava apenas um dia para a entrega. Quem confiaria novamente em uma confeitaria que não cumpria os prazos?
Mas universo tinha preparado um caminho que nenhum deles imaginava. Graças à generosidade de Umberto Zanobi, eles não precisariam desistir.
Logo ao amanhecer, Nay chegou trazendo a chave do imóvel.
Na tarde anterior, Umberto já havia entrado em contato com Vito e solicitado que providenciasse a liberação da antiga cozinha industrial para que Ludovica e Tommaso pudessem utilizá-la.
Assim que chegaram ao local, Ludovica, Tommaso, Constantine e o doutor Antônio permaneceram alguns segundos completamente imóveis.
Nenhum deles esperava encontrar algo daquela dimensão.
Era uma cozinha ampla. Perfeitamente organizada.
As bancadas de inox refletiam a luz que entrava pelas grandes janelas. Os fornos industriais ocupavam uma parede inteira. As batedeiras profissionais estavam impecavelmente alinhadas. Geladeiras, câmaras frias, prateleiras organizadas...
Tudo transmitia profissionalismo. Ludovica caminhou lentamente pelo ambiente.Passou delicadamente a mão sobre uma das bancadas de inox e sorriu.
Então, quase num sussurro, disse:
— Eu nunca imaginei cozinhar num lugar desse.
Tommaso apenas observava tudo ao redor. Seu sorriso dizia muito mais do que qualquer palavra. Constantine percebeu que os olhos da tia estavam marejados. Aproximou-se dela e segurou delicadamente sua mão.
— Tia... hoje essa cozinha é apenas emprestada. Mas eu acredito que um dia nós vamos entrar na nossa própria cozinha.
Ludovica não conseguiu responder.
Limitou-se a abraçar a sobrinha com força.
Naquele instante, Nay aproximou-se dos três.
— Antes de eu ir embora, preciso deixar um recado do senhor Umberto.
Todos voltaram a atenção para ela.
— Ele pediu para dizer que vocês não se preocupem com mais nada. Apenas façam aquilo que sabem fazer de melhor e entreguem essas encomendas. O restante será resolvido no tempo certo.
As palavras trouxeram ainda mais tranquilidade.
Não havia mais tempo para receios.
Era hora de trabalhar.
E foi exatamente isso que fizeram.
Durante todo o dia, a cozinha permaneceu em intensa atividade.
Massas eram preparadas.
Recheios ganhavam sabor.
Coberturas eram cuidadosamente finalizadas.
Enquanto Constantine organizava os ingredientes, Tommaso auxiliava em tudo o que fosse necessário.
Ludovica conduzia cada etapa da produção com o carinho de quem colocava amor em cada receita.
O ritmo era tão intenso que quase não havia tempo para descansar.
Nem mesmo para beber água.
Percebendo isso, o doutor Antônio saiu discretamente por alguns minutos.
Quando retornou, trouxe o almoço para todos.
— Hoje ninguém vai perder tempo procurando restaurante — disse ele, colocando as embalagens sobre uma bancada. — Vocês precisam guardar energia para terminar esse trabalho.
Todos agradeceram.
Foi uma refeição rápida, deu tempo até para umas risadas.
Pouco depois, voltaram imediatamente ao trabalho.
Quando o relógio marcou às 17:00
As cinquenta tortas.
E os cinquenta bolos confeitados.
Estavam perfeitamente alinhados sobre as bancadas.
O silêncio tomou conta da cozinha.
Todos observavam aquela produção com os olhos marejados.
Ludovica respirou profundamente.
Depois sorriu.
— Quem diria...
Olhou para o marido.
Depois para Constantine.
E, por fim, para o doutor Antônio.
— A gente saiu da roça sem saber o que seria da nossa vida...
Sua voz embargou.
— E hoje nos foi permitido preparar tudo isso.
Apesar do trabalho exaustivo, havia um sentimento diferente naquele ambiente.
As encomendas estavam prontas.
Agora, restava apenas aguardar a chegada das empresas que fariam a retirada dos pedidos.
Depois de alguns minutos de descanso, os quatro se acomodaram em volta de uma pequena mesa improvisada na cozinha.
O cansaço era evidente.
Mas, curiosamente, ninguém reclamava.
Pelo contrário.
As lembranças do dia começaram a arrancar gargalhadas.
Tommaso foi o primeiro a brincar.
— Doutor Antônio, o senhor realmente nasceu para cuidar de gente... porque de confeitaria...
Todos começaram a rir.
O médico levou a mão ao peito, fingindo indignação.
— Ah, não exagerem!
Constantine entrou na brincadeira.
— Exagero? Toda vez que a tia pedia uma coisa, o senhor aparecia com outra completamente diferente.
Ludovica riu alto.
— Eu pedi manteiga...
— ...e eu trouxe o doce de leite! — completou Antônio, antes mesmo que ela terminasse a frase.
As gargalhadas aumentaram.
Tommaso aproveitou a oportunidade.
— Depois foi a vez do chantilly.
O doutor Antônio balançou a cabeça, já prevendo o restante.
— Eu sei... eu sei...
Constantine mal conseguia falar de tanto rir.
— O senhor apareceu com um pote enorme de brigadeiro!
Antônio levantou as duas mãos, rendendo-se.
— Está bem! Está bem! Eu admito! Hoje descobri que confeitaria é quase uma outra profissão.
Ludovica enxugou discretamente as lágrimas provocadas pelas risadas.
— Mas uma coisa ninguém pode negar...
Ela olhou para Antônio com carinho.
— O senhor não acertava os ingredientes... mas acertava sempre o momento de ajudar.
O ambiente silenciou por alguns segundos.
O doutor Antônio sorriu, emocionado.
— Acho que essa foi a melhor receita que consegui fazer hoje.
Todos voltaram a rir.
O verdadeiro alívio chegou quando finalmente voltaram para casa.
Depois de um dia inteiro de trabalho intenso, puderam, enfim, descansar.
Constantine caminhou até a janela da pequena casa e permaneceu alguns instantes observando o céu do entardecer.
Pensava em tudo o que havia acontecido nos últimos meses.
Era impressionante como a vida podia mudar.
Na fazenda, seus dias eram sempre os mesmos.
Ela acordava cedo para ordenhar as vacas, limpava o estábulo, ajudava nos afazeres da propriedade, caminhava até o rio com as crianças e vivia cercada pelas plantações.
Naquela época, jamais imaginaria que um dia aprenderia sobre confeitaria, atenderia clientes, organizaria grandes encomendas e pisaria em uma cozinha industrial.
Sorriu discretamente.
A mudança não aconteceu de uma só vez.
Aconteceu aos poucos.
Como uma casa construída tijolo por tijolo.
Cada dificuldade enfrentada.
Cada amizade conquistada.
Cada porta que se abriu.
Cada pessoa que apareceu em seu caminho.
Tudo havia contribuído para que chegassem até ali.
Ela respirou fundo.
Talvez ainda estivessem longe de realizar todos os seus sonhos.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não enxergava apenas o caminho que havia deixado para trás.
Agora conseguia ver, com esperança, o caminho que estava sendo construído diante dela.