Mundo de ficçãoIniciar sessãoA manhã na Villa Vitale nasceu sob uma névoa espessa, escondendo as colinas da Toscana e reforçando a sensação de que eu estava em um mundo à parte. Um mundo onde as regras de civilização não se aplicavam.
Após uma noite de sono interrompida por pesadelos onde mãos cobertas de couro me sufocavam e me acariciavam ao mesmo tempo, acordei com uma resolução clara: se eu quisesse sobreviver a Lorenzo Vitale, eu precisava me tornar indispensável para Mia. No Rio, eu aprendi que o escudo mais forte contra um homem violento é o que ele mais ama. E Lorenzo, por mais gélido que fosse, tinha um ponto fraco de oito anos de idade. Encontrei Mia na sala de café da manhã. Ela encarava um prato de frutas como se fosse um enigma insolúvel. Lorenzo não estava lá, mas eu sentia sua presença. Olhei para o canto superior do teto e vi a pequena lente preta da câmera, quase invisível entre os ornamentos de gesso. Ele estava me assistindo. Talvez estivesse tomando seu café em algum escritório blindado, avaliando cada movimento meu. — Bom dia, Mia — eu disse, forçando um tom suave. — Sabe, no Brasil, a gente costuma dizer que quem não come não consegue ver os golfinhos saltando no mar. Mia levantou os olhos. Um brilho de curiosidade rompeu a névoa de tristeza. — Tem golfinhos no mar? — sua voz era um fio. — Muitos. E eles gostam de crianças que são fortes. Que tal se depois do café a gente fizesse algo diferente? Vi que tem um piano na sala de música. Você sabe tocar? Ela negou com a cabeça. — Minha mãe tocava. O papai nunca mais abriu aquela porta. A dor na voz dela me atingiu em cheio. Mia não era apenas uma peça no meu jogo de sobrevivência; ela era um espelho da minha própria infância solitária. Aproximei-me e, com um gesto ousado, sabendo que Lorenzo estava vendo, afaguei seu cabelo escuro. — Então nós vamos abrir. E vamos criar nossa própria música. Passei a manhã inteira focada nela. Ignorava o peso do olhar invisível de Lorenzo através das câmeras e me dediquei a arrancar sorrisos de Mia. Nós desenhamos, caminhamos pelo jardim — mantendo uma distância segura dos galpões proibidos — e eu contei histórias sobre as favelas coloridas, sobre o barulho da chuva no telhado de zinco e sobre a resiliência de quem não tem nada, mas ainda assim sorri. Mia estava florescendo. Ela riu pela primeira vez quando tropeçou nos próprios pés enquanto tentava dançar um passo de samba que eu lhe ensinei. Naquele momento, Lorenzo apareceu na varanda superior. Ele estava parado, com os braços apoiados no parapeito, observando-nos. O sol batia em seus ombros, mas ele parecia feito de sombra. Ele não sorria. Apenas observava, como um colecionador admirando uma peça rara que ele ainda não decidiu se vai quebrar ou manter na prateleira. A tarde caiu e, após colocar Mia para dormir — um processo muito mais fácil dessa vez, já que ela segurou minha mão até o último segundo — decidi que era hora de explorar. Se eu ia fugir, precisava conhecer o mapa. Caminhei pelos corredores com passos de gato. A mansão era um labirinto de opulência e segredos. Evitei as câmeras que já tinha mapeado, mas Lorenzo era meticuloso. Cada ângulo parecia coberto. Ao passar pelo final do corredor principal, notei uma porta entreaberta. Uma luz azulada vinha de lá de dentro. Era o escritório de segurança. Meu coração deu um solavanco. Se eu conseguisse entrar lá, poderia ver os pontos cegos das câmeras. Entrei com cuidado. As paredes eram cobertas de monitores. Em um deles, vi o quarto de Mia. Em outro, os jardins. E em um monitor central, maior que os outros, havia uma imagem congelada. Era eu. Não era uma imagem de agora. Era eu dormindo, na noite anterior. A câmera estava posicionada exatamente acima da minha cama. O ângulo mostrava o modo como o lençol escorregava pelo meu ombro, a expressão vulnerável do meu rosto enquanto eu lutava contra os pesadelos. Lorenzo não estava apenas me vigiando para garantir que eu não fugisse. Ele estava me observando nos meus momentos mais íntimos. — Gosta do que vê, Bianca. A voz dele veio do escuro, atrás de mim. Dei um pulo, o sangue fugindo do meu rosto. Lorenzo estava sentado em uma poltrona de couro, nas sombras, com um copo de cristal na mão. O cheiro de uísque e perigo inundou o pequeno espaço. Ele se levantou, a silhueta imensa bloqueando a única saída. Ele caminhou até o monitor e tocou a tela, exatamente onde meu pescoço aparecia na imagem. — Você se mexe muito enquanto dorme. Parece que está lutando contra algo. — Ele se virou para mim, a luz azulada dos monitores dando a seus olhos um aspecto sobrenatural, quase demoníaco. — Você conquistou minha filha em menos de vinte e quatro horas. Mia não sorria assim há anos. Isso te torna perigosa, Bianca. Porque agora eu não quero apenas que você fique... eu quero saber por que seu corpo reage ao meu mesmo quando você está morrendo de medo. Ele deu um passo à frente, prensando-me contra a bancada de controles. O metal frio das máquinas batia nas minhas costas, enquanto o calor vulcânico dele me esmagava pela frente. Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os dedos se enterrando no meu cabelo. — Você está procurando uma saída, não está? Procurando os pontos cegos? — Ele soltou uma risada baixa, um som que vibrou no meu peito. — Não existem pontos cegos nesta casa para você, piccola. Eu vejo tudo. Eu vejo como você morde o lábio quando está nervosa. Eu vejo como seu peito sobe e desce quando eu chego perto. Ele baixou o rosto, a respiração quente misturando-se à minha. — Fuja, se quiser tentar. Mas saiba de uma coisa: eu adoro uma caçada. E o prêmio para quem eu capturar não será apenas o retorno para esta sala. Nesse momento, um alerta vermelho começou a piscar em um dos monitores laterais. Um sensor de movimento no portão leste tinha sido disparado. Lorenzo não desviou os olhos dos meus por um segundo, mas sua mão desceu para a arma no coldre em sua cintura. — Parece que temos companhia — ele sussurrou, a voz carregada de uma antecipação mortal. — Fique aqui. Se você sair desta sala, eu não poderei garantir que meus homens não vão atirar primeiro e perguntar depois. Ele saiu, trancando a porta por fora com um clique metálico e definitivo. Eu estava presa na sala de controle, cercada por telas que mostravam homens de preto saltando os muros da propriedade. Mas o que me fez perder as forças e cair de joelhos não foram os invasores. Foi o que vi no monitor do quarto de Mia. A janela dela estava aberta. E uma mão enluvada estava puxando o lençol da cama onde a menina dormia






