Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio era interrompido apenas pelo som da minha própria respiração, curta e errática. Lorenzo não me soltou. Pelo contrário, ele aumentou a pressão de seu corpo contra o meu, forçando-me a sentir cada centímetro de sua estrutura rígida e poderosa. O calor que emanava dele era quase insuportável, um contraste violento com o frio que subia pela minha espinha.
— Você achou que a Toscana era um conto de fadas, Bianca? — Ele roçou o nariz no meu, a voz baixa e vibrante, carregada de um sotaque italiano que agora soava como uma promessa de destruição. — Achou que o dinheiro que te pagará todo mês virá de mãos limpas? Eu não respondi. No Complexo onde cresci, no Rio, eu aprendi cedo que perguntas demais cavavam covas rasas. Eu conhecia o cheiro do perigo; ele cheirava exatamente como Lorenzo: fumaça, poder e autoridade inquestionável. Ele segurou meu queixo com uma mão firme, forçando-me a olhar pela janela. Lá embaixo, no pátio banhado pela luz fria da lua, o homem amarrado lutava inútilmente contra suas cordas. — Olhe para ele — Lorenzo ordenou, o hálito quente soprando contra o meu nariz, fazendo meus lábios formigarem. — Aquele homem achou que poderia me enganar. Ele achou que o meu silêncio era fraqueza. Ele deslizou os dedos pela minha bochecha dourada, um toque que deveria ser um carinho, mas parecia a carícia de uma lâmina de barbear. Eu estaquei, odiando o modo como meu corpo traía minha mente, arrepiando-se inteiramente sob aquele toque pecaminoso. Não era apenas medo. Era uma eletricidade sombria, um desejo proibido que florescia no lugar mais errado possível. — Você está proibida de ultrapassar os portões desta villa. Meus olhos estão em cada canto desta propriedade. Câmeras, homens, satélites... — Ele se inclinou mais, seus lábios quase tocando os meus, mas sem nunca concretizar o beijo. — Até que eu tenha certeza de que você não vai abrir esse bico lindo, você é minha prisioneira de luxo. Comporte-se. Se não... você acabará como ele. O aviso ficou suspenso no ar, pesado como chumbo. Lorenzo me soltou bruscamente, recuperando sua postura de pedra. — Agora suba. Cuide da minha filha. Mia precisa de você, e é por causa dela que você ainda está respirando. Durma, se conseguir. Eu não esperei por uma segunda ordem. Dei as costas e caminhei o mais rápido que minhas pernas bambas permitiam. Cada passo pelo corredor de mármore parecia eterno, sentindo o olhar dele queimando minhas costas como um ferro em brasa. Ao entrar no meu quarto, bati a porta e girei a chave. Encostei a testa na madeira fria, tentando acalmar meu coração que martelava contra as costelas. Eu precisava fugir. Precisava encontrar uma brecha naquele sistema de segurança perfeito antes que Lorenzo decidisse que eu não era mais útil como babá, mas sim como outra coisa. Mas, enquanto eu me deitava e fechava os olhos, a única coisa que eu conseguia sentir era a pressão dos dedos dele na minha pele e a promessa de escuridão que seus olhos carregavam. Eu tinha fugido de um monstro no Brasil para ser devorada por um demônio na Itália.






