Capítulo 5

O pânico é uma substância fria que corre pelas veias, paralisando os fracos e despertando os sobreviventes. No monitor à minha frente, a cena era um pesadelo em pixels: uma sombra humana deslizava pela janela do quarto de Mia, e a mão enluvada já alcançava o corpo pequeno da menina.

Lorenzo tinha me trancado naquela sala. Ele achava que me manteria segura, ou talvez estivesse apenas me contendo enquanto lidava com a invasão nos portões. Mas ele não conhecia a Bianca que cresceu ouvindo o som de fuzis na calada da noite. Eu não era uma flor delicada da Toscana; eu era mato que cresce entre as frestas do asfalto.

— Lorenzo! — gritei, batendo na porta de carvalho, mas o som dos tiros que começaram a ecoar do lado de fora abafou minha voz.

Ele não viria. Ele estava ocupado sendo o monstro que protege o território.

Olhei desesperada para a bancada de controle. Havia dezenas de botões e alavancas. Meus olhos saltaram de tela em tela até que vi um molho de chaves pendurado em um gancho lateral, perto de um painel de emergência. Entre elas, uma chave dourada com o emblema dos Vitale.

Não pensei.

Peguei um extintor de incêndio pesado que estava no canto da sala e, com um grito de fúria, o choque do metal contra a fechadura da porta de carvalho ecoou como um disparo. Uma, duas, três vezes. A madeira gemeu e cedeu.

Corri.

O corredor parecia ter quilômetros. Meus pés descalços batiam no mármore frio, e o som dos tiros lá fora estava ficando mais alto. Eu precisava chegar a Mia.

Ao entrar no quarto, a cena fez meu estômago dar voltas. O invasor, um homem de porte atlético usando uma máscara tática, estava com Mia nos braços. A menina estava em choque, os olhos arregalados e a boca aberta em um grito mudo que não conseguia sair.

— Solta ela! — minha voz saiu como um rosnado.

O homem se virou, surpreso.

Ele não esperava uma babá. Ele esperava seguranças. Ele riu, uma risada seca e metálica através da máscara, e puxou uma faca de combate.

— Saia da frente, garota. Você não quer morrer por uma criança que nem é sua.

— Você não faz ideia do que eu sou capaz — respondi, avançando.

Eu não tinha armas, mas tinha o peso do extintor que ainda carregava. Quando ele avançou para me esfaquear, eu me abaixei — um movimento que aprendi esquivando de brigas de rua — e golpreei o joelho dele com toda a força que o terror me proporcionava.

O estalo do osso quebrando foi seguido por um urro de dor.

Mia caiu no tapete, soluçando. Eu a puxei para trás de mim, posicionando meu corpo como um escudo humano. O homem, mesmo ferido, tentou se levantar, a faca brilhando sob a luz da lua.

Foi então que a porta do quarto explodiu.

Lorenzo entrou como um deus da morte. Suas roupas estavam manchadas de sangue que não era dele, e os olhos... os olhos eram duas frestas de puro ódio. Ele não hesitou. Em um movimento fluido e letal, ele disparou dois tiros. O invasor caiu morto antes mesmo de atingir o chão.

O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelos soluços de Mia e pela minha respiração ruidosa. Lorenzo guardou a arma e caminhou em nossa direção.

Ele ignorou o cadáver. Seus olhos estavam fixos em mim.

Ele se ajoelhou e pegou Mia nos braços. Pela primeira vez, vi a máscara de gelo dele rachar. Ele apertou a filha contra o peito, sussurrando algo em italiano que eu não entendi, mas que transbordava alívio.

Depois de alguns segundos, ele entregou a menina para a governanta, que apareceu na porta pálida como um fantasma.

— Leve-a para o bunker. Agora! — ele ordenou.

Mia me olhou uma última vez antes de sair.

— Bianca... — ela chamou, a vozinha trêmula.

— Eu estou aqui, Mia. Vai ficar tudo bem.

Quando ficamos sozinhos no quarto, o clima mudou drasticamente. A adrenalina que me sustentava começou a dissipar, deixando em seu lugar um tremor incontrolável. Olhei para as minhas mãos e vi que estavam sujas de poeira e do sangue que espirrou do homem.

Lorenzo se aproximou. Ele não parecia grato. Ele parecia furioso. Ele me prensou contra a parede ao lado da janela aberta, suas mãos grandes agarrando minha cintura com uma força que deixaria marcas.

— Eu mandei você ficar na sala — ele rugiu, a voz vibrando contra o meu peito. — Você poderia ter morrido!

— Ela ia ser levada, Lorenzo! — gritei de volta, enfrentando o olhar dele. — Eu não ia ficar sentada olhando ela ser sequestrada enquanto você brincava de soldado lá fora!

Ele encostou a testa na minha, a respiração pesada misturando-se à minha. O cheiro de pólvora e suor emanava dele, uma fragrância bruta que fazia meu corpo reagir de maneira pecaminosa.

— Você quebrou a minha porta — ele murmurou, a raiva começando a se transformar em algo muito mais sombrio e intenso. — Você desobedeceu uma ordem direta.

— E salvei sua filha.

Lorenzo soltou um riso baixo, perigoso. Ele deslizou a mão da minha cintura para a minha nuca, puxando meu cabelo com força suficiente para me fazer inclinar a cabeça para trás.

— Sim, você salvou. E agora eu tenho um problema, Bianca. Porque eu não sei se quero te matar por me desobedecer ou se quero te devorar aqui mesmo, sobre o sangue desse verme que ousou entrar na minha casa.

Ele se inclinou, seus lábios roçando o lóbulo da minha orelha.

A química entre nós era um incêndio fora de controle. Eu podia sentir a ereção dele pressionando meu ventre, uma promessa de possessão que me fazia perder os sentidos.

— Você não é apenas uma babá — ele sussurrou, a mão descendo para apertar minha coxa, levantando o tecido leve do meu pijama. — Você é uma loba infiltrada. E lobos precisam ser domados.

Ele selou nossos lábios em um beijo que não tinha nada de romântico. Era uma batalha. Tinha gosto de ferro e desejo latente. Suas mãos exploravam meu corpo com uma urgência faminta, e eu, contra toda a minha lógica, retribuía com a mesma intensidade, minhas unhas cravando-se em seus ombros largos.

Ele me levantou, minhas pernas envolvendo sua cintura, e me jogou sobre a cama onde Mia dormia há poucos minutos. Lorenzo começou a abrir os botões da própria camisa, os olhos fixos nos meus, devorando-me.

Mas antes que ele pudesse se juntar a mim na cama, o rádio em seu cinto chiou.

— Don Vitale? — a voz do seu braço direito, Marco, soava urgente. — Temos um problema. O invasor que a garota nocauteou... ele não é da máfia russa. Olhe o pulso dele.

Lorenzo parou, a camisa entreaberta revelando o peito musculoso e tatuado. Ele caminhou até o cadáver e puxou a manga da roupa tática.

Lá, gravado na pele, estava um símbolo que fez Lorenzo empalidecer. Era o emblema da família de Bianca. O símbolo da facção que ela alegou estar fugindo no Brasil.

Ele se virou para mim, a luxúria em seus olhos sendo substituída por uma desconfiança mortal. Ele caminhou de volta para a cama, mas desta vez, puxou sua arma e a apontou para a minha testa.

— Quem é você de verdade, Bianca Conti? — ele perguntou, o dedo no gatilho. — E por que a sua família atravessou o oceano para buscar algo que você escondeu deles?

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