Mundo ficciónIniciar sesiónARIEL MACEY
Depois de encerrar a ligação, levantei da cama num salto. Corri para o armário vazio, minhas mãos tatearam as poucas peças que tinham sobrevivido. Arranquei a camisa velha e vesti uma calça jeans e uma blusa de manga longa cinza escuro. Calcei meus tênis, amarrando os cadarços com muita força. Peguei minha bolsa, verifiquei se a carteira e o celular estavam lá, e caminhei até a porta. Caminhei na ponta dos pés, prendendo a respiração. Desci os degraus voando, mas mantendo a leveza nos pés. Atravessei o hall de entrada e cheguei à porta principal. Solicitei um carro por aplicativo enquanto andava e cheguei à guarita. Havia dois seguranças lá dentro, conversando e tomando café. Um deles me viu, franziu a testa e saiu da guarita. — Srta. Macey? Aconteceu alguma coisa? — Não, está tudo bem. Eu preciso resolver uma emergência familiar urgente com minha avó. Já chamei um carro. A viagem foi rápida. Logo o cheiro de maresia misturado com óleo diesel e lixo impregnou o ar, mesmo com as janelas fechadas. Desci do carro, olhei para o endereço no celular. Galpão 4B. A porta de metal estava entreaberta e entrei. — Alô? — chamei. — Eu vim. Estou aqui! Nenhuma resposta. Estava escuro demais. Não conseguia ver um palmo à frente do nariz. Peguei o celular e liguei a lanterna. O feixe de luz branca iluminou as partículas de poeira no ar. Movi a luz pelo chão e de repente, a lanterna incidiu sobre algo que não pertencia àquele lugar sujo. Um sapato. Era um sapato social preto, de couro, brilhando perfeitamente sob a luz do meu celular. Subi o feixe de luz lentamente. Uma calça de alfaiataria preta. Um paletó de veludo escuro. Uma camisa branca sem gravata, aberta no colarinho. E então, o rosto. A luz iluminou um homem sentado em uma cadeira de espaldar alto, que parecia um trono deslocado no meio daquele lixo. Ele apertou os olhos contra a claridade repentina da minha lanterna e ergueu uma mão para proteger a visão. — Desligue isso, cara mia. É rude cegar seu anfitrião. A voz era a mesma do telefone. Fiquei paralisada, incapaz de processar a imagem. Ele era lindo. De uma forma perturbadora e quase artificial. Devia ter cerca de trinta e poucos anos. Cabelos escuros, penteados para trás com perfeição. O rosto tinha traços aristocráticos, nariz reto, maxilar definido. Mas o que me prendeu foram os olhos, que pude ver quando baixei a lanterna ligeiramente. Eram de um verde tão claro que pareciam vidro. E havia uma cicatriz fina, cortando a sobrancelha esquerda, dando-lhe um ar de pirata moderno e sofisticado. Ele sorriu. Um sorriso que não alcançava os olhos frios. — Luzes — ele ordenou, estalando os dedos. Escutei o som de disjuntores sendo acionados e holofotes potentes no teto se acenderam de uma vez, inundando o galpão com uma luz branca e cegante. Levei a mão aos olhos, tonta com a mudança brusca. Quando minha visão se ajustou, o terror tomou conta de mim. Eu não estava sozinha com ele. Ao redor da cadeira onde o homem estava sentado, formando um semicírculo perfeito, havia pelo menos dez homens. Todos vestidos de preto, todos grandes, todos com os braços cruzados e expressões assustadoras. E notei, com um calafrio na espinha, o volume sob os paletós de alguns deles. Armas. Eu estava cercada. O homem na cadeira cruzou as pernas com elegância e apontou para uma cadeira de madeira simples colocada a alguns metros dele. — Sente-se, Ariel. Temos muito o que conversar. — Q-quem é você? — gaguejei, sem me mover. Minhas pernas pareciam ter criado raízes no concreto. — Onde estão meus modos? — Ele se levantou. Era alto, esguio, mas com uma postura intimidante. — Henrico Vigneto. É um prazer finalmente conhecê-la. — Ele fez um gesto convidativo para a cadeira novamente. — Por favor. Ou prefere que meus associados a ajudem a sentar? Engoli em seco e caminhei até a cadeira, sentando-me na ponta, pronta para correr, embora soubesse que não chegaria a lugar nenhum. — O que você quer comigo? Eu não tenho dinheiro. Sou só a babá. — Exatamente — Henrico sorriu, caminhando lentamente em minha direção. — Você é só uma babá. É isso que a torna tão valiosa. Ele parou na minha frente e estendeu a mão. Um dos guardas se aproximou e lhe entregou um envelope branco. Henrico abriu o envelope e tirou duas fotografias, estendendo-as para mim. Peguei as fotos com as mãos tremendo. A primeira era da minha avó. Ela estava no leito da UTI, dormindo, com a máscara de oxigênio. A foto tinha sido tirada de perto. Muito perto. Alguém tinha estado dentro do quarto dela. A segunda foto me deixou mais assustada. Era a mesma cena, o mesmo ângulo. Mas havia uma mão na foto. Uma mão enluvada segurando uma pistola preta, com o cano apontado diretamente para a cabeça da minha avó adormecida. — Não... — O soluço escapou dos meus lábios. — Por favor... ela não fez nada! Ela é só uma idosa doente! Por que você está fazendo isso?! Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto sem controle. Olhei para Henrico, implorando por misericórdia, mas encontrei apenas divertimento em seus olhos verdes. — Porque preciso de uma pessoa para entrar na casa do Velasquez. E você, minha querida, é essa pessoa. — Eu não entendo... — chorei, balançando a cabeça. — Por que eu? Tem tanta gente... eu trabalho lá há uma semana! Henrico se agachou na minha frente, ficando na altura dos meus olhos. Ele estendeu a mão e eu me encolhi, esperando um golpe. Mas ele apenas tocou meu cabelo. Seus dedos longos pegaram uma mecha dos meus cabelos ruivos, enrolando-a devagar, sentindo a textura. — Você é perfeita, Ariel — ele sussurrou, observando a mecha vermelha contra a luva de couro que ele usava. — Já revirei sua vida do avesso. Arregalei os olhos. — Você me investigou? — Isso não é óbvio, querida? — Ele riu baixo, um som rouco. — E sabe o que eu encontrei? Nada. Absolutamente nada. Você é uma pessoa comum. Que passa despercebida. Uma moça doce, honesta, pobre, trabalhando duramente para salvar a vovozinha. Uma vida livre de qualquer suspeita. Ficha limpa na polícia, dívidas pequenas, seu maior problema é sua avó. Ele soltou meu cabelo e se levantou. — Velasquez é paranoico. Ele vê traição em cada sombra. Mas você será invisível para ele. — Henrico suspirou, sinalizou para um dos guardas, que sacou o celular e digitou algo. — Devo dizer que a única coisa incomum em você são seus cabelos — ele comentou distraidamente. — Uma chama viva no meio da cinza da sua existência apagada. O celular do guarda emitiu um som de chamada de vídeo. Henrico pegou o aparelho e virou a tela para mim. Na tela, uma imagem ao vivo. Era o corredor do hospital. A câmera se moveu e parou em frente à porta do quarto 402. O quarto da minha avó. Um homem estava na porta e acenou para a câmera com a mão livre. — Diga "oi" para o meu associado, Ariel — Henrico disse friamente. — Ele está muito ansioso para entrar e fazer uma visita noturna. — NÃO! — Gritei, tentando levantar, mas uma mão pesada no meu ombro me forçou a sentar de volta. Um dos guardas estava atrás de mim. — Não machuque ela! Eu faço qualquer coisa! Henrico sorriu, satisfeito. Ele encerrou a chamada e jogou o celular de volta para o guarda. — Sabia que você seria razoável. Ele se inclinou novamente, apoiando as mãos nos braços da minha cadeira, prendendo-me ali. Seu rosto estava a centímetros do meu. — A proposta é simples, Ariel. Dante em breve se associará a uma empresa chinesa que pode fazê-lo superar a minha. Sua tarefa é conseguir os documentos confidencias no prazo de três meses, antes que o negócio seja fechado. — Mas isso é... — Ele me interrompeu sinalizando silêncio com o indicador nos lábios. — Se você aceitar ser minha espiã agora, amanhã mesmo sua avó opera e meus funcionários vão acompanhar de perto a recuperação dela. — Isso era claramente uma ameaça me dizendo para ficar na linha. — Ou claro, você pode negar minha generosa oferta e começar a escolher o caixão da sua avó para o enterro de amanhã. Qual é a sua escolha?






