capítulo 8. Proximidade
Depois daquela noite, nada voltou a ser simples.
Natália passou a fazer parte da rotina como se sempre tivesse estado ali — e, ao mesmo tempo, como se fosse um elemento novo demais para aquela casa rígida.
Arthur acordava sorrindo.
Esperava por ela no café da manhã.
Puxava sua mão para mostrar desenhos, histórias, pequenas conquistas.
E Nicolas observava tudo.
Com atenção demais.
— Você não precisa vir comigo até a escola — Natália disse, ajeitando a mochila de Arthur.
— Eu quero — ele respondeu, sério. — É meu filho.
Ela não contestou.
No carro, Arthur falava animado no banco de trás. Natália ria. Nicolas dirigia em silêncio, mas sentia algo estranho crescer no peito ao ver os dois pelo retrovisor.
Pareciam… família.
A constatação o deixou tenso.
Ao voltarem para casa, Natália seguiu para a cozinha. Nicolas entrou logo depois, fechando a porta com mais força do que o necessário.
— Isso não pode continuar assim — disse ele.
Ela se virou lentamente.
— Assim como?
— Como se fôssemos… — ele parou, buscando a palavra certa. — Algo que não somos.
Natália apoiou as mãos na bancada.
— O senhor pediu que eu ficasse.
— Para o Arthur — respondeu rápido demais.
— E eu fiquei por ele — disse ela. — Mas não posso fingir que não sinto essa tensão.
O olhar dele desceu involuntariamente pelo corpo dela. Quando percebeu, virou o rosto.
— Isso é exatamente o problema.
— Não — Natália se aproximou um passo. — O problema é fingir que não existe.
O ar entre eles ficou denso.
— Você sabe o quanto isso é errado — Nicolas disse, a voz baixa. — Você trabalha para mim. Mora na minha casa. Cuida do meu filho.
— E mesmo assim o senhor me olha como se quisesse quebrar todas as regras — respondeu ela.
Silêncio.
A confirmação estava ali.
— Se continuarmos assim, alguém vai se machucar — ele disse.
— Já estamos machucados — rebateu. — Só estamos escolhendo não olhar.
Nicolas passou a mão pelo rosto, visivelmente em conflito.
— Eu não sei fazer isso de forma saudável — confessou. — Quando quero algo… eu controlo.
Natália sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Então não tente me controlar — disse. — Me escolha.
Os olhos dele se ergueram de imediato.
— Você está me pedindo algo que não sei se consigo dar.
— E eu estou oferecendo algo que não sei se consigo retirar depois — respondeu.
Eles estavam perto demais agora.
Próximos o suficiente para que Natália sentisse a respiração dele mudar. Próximos o suficiente para que Nicolas precisasse lutar contra o impulso de tocá-la.
— Afaste-se — ele pediu, quase num sussurro.
— Se eu der mais um passo, o senhor vai conseguir se afastar? — ela perguntou.
Ele não respondeu.
O silêncio foi a resposta mais perigosa de todas.
Natália recuou.
— Então precisamos de limites claros — disse. — Ou isso vai nos destruir.
Nicolas assentiu, tenso.
— Limites — repetiu.
Mas, quando ela saiu da cozinha, ele percebeu algo aterrador:
Ele não queria limites.
Queria Natália.
E isso o colocava perigosamente perto de cruzar uma linha da qual talvez nunca conseguisse voltar.