Capítulo 7. O Pedido
Natália não dormiu naquela noite.
Ficou sentada no sofá, abraçando os próprios joelhos, ouvindo o som distante da casa que nunca descansava de verdade. Cada passo, cada estalo do assoalho, fazia seu coração pular
— como se esperasse que Nicolas aparecesse a qualquer momento.
Ele apareceu.
Parou a alguns metros, com a gravata solta, a camisa aberta no primeiro botão. O CEO impecável havia ficado no escritório até tarde. Agora, parecia apenas… cansado.
— Você ainda está acordada — disse, baixo.
— Não consegui dormir.
O silêncio se instalou entre eles de novo, mas diferente. Menos defensivo. Mais frágil.
— Arthur perguntou por você — Nicolas disse, apoiando-se no encosto da poltrona. — Mesmo depois de eu colocá-lo para dormir.
Natália sentiu o aperto no peito.
— Ele é uma criança sensível — respondeu. — Cria vínculos rápido.
— E eu deixei — completou Nicolas. — Foi um erro.
Ela ergueu o olhar.
— Achar amor um erro costuma ser o primeiro problema.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Você não entende. — Passou a mão pelos cabelos. — Depois que a mãe dele morreu… tudo ficou silencioso demais. Se eu permitisse sentir, não sei se aguentaria.
Natália se levantou devagar.
— Fingir que não sente não o protege — disse, com cuidado. — Só o machuca mais.
Nicolas fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, havia algo diferente ali.
— Fique — disse, de repente.
Natália piscou.
— Como é?
— Fique — repetiu, a voz rouca. — Com Arthur. Com a rotina. Pelo menos por um tempo.
Ela se aproximou um pouco mais.
— Está pedindo ou mandando?
Ele sustentou o olhar.
— Pedindo.
Aquilo foi um terremoto.
— Nicolas… — começou ela.
— Eu sei que é errado — interrompeu. — Sei que estou cruzando uma linha que eu mesmo criei. Mas ele precisa de você.
— E o senhor? — ela perguntou, baixinho.
O silêncio respondeu primeiro.
— Eu também — ele admitiu, quase inaudível.
Natália sentiu o mundo inclinar.
— Então precisamos ser honestos — disse. — Com Arthur. E um com o outro.
— O que quer dizer?
— Que isso não é só sobre trabalho — respondeu. — E fingir que é vai nos machucar.
Nicolas se aproximou. Perto demais.
— E se eu não souber como fazer isso sem controlar? — perguntou.
— Então aprende — disse ela. — Ou me deixa ir.
O olhar dele percorreu o rosto dela, como se estivesse memorizando cada detalhe.
— Não vá — pediu, baixo.
O pedido ficou suspenso no ar, pesado e sincero.
Antes que Natália pudesse responder, uma voz suave ecoou do corredor.
— Papai?
Arthur apareceu, sonolento, segurando Thor.
— Tive outro pesadelo…
Natália se ajoelhou automaticamente, mas parou. Olhou para Nicolas.
Ele respirou fundo.
— Vem cá, filho — disse, abrindo os braços.
Arthur hesitou, surpreso… e então correu até ele.
Nicolas o abraçou. De verdade. Desajeitado, mas real.
Natália sentiu os olhos marejarem.
— A Natália fica? — Arthur perguntou, com a voz abafada.
Nicolas olhou para ela.
Esperou.
— Eu fico — respondeu Natália, por fim. — Se vocês dois quiserem.
Arthur sorriu, aliviado.
Nicolas fechou os olhos por um instante.
Porque naquele momento ele soube:
não havia mais volta.
E que, ao pedir que ela ficasse,
tinha colocado o coração exatamente onde sempre jurou não colocar.