capítulo 9. Presença Incomoda
Natália estava no jardim com Arthur quando o carro preto entrou pelos portões.
Ela não deu muita importância no início — carros entravam e saíam daquela casa o tempo todo. Mas o modo como Nicolas surgiu na varanda, imediatamente atento, fez seu corpo reagir antes mesmo da mente.
Ele ficou tenso.
Arthur também percebeu.
— Papai, chegou visita?
— Sim — respondeu Nicolas, seco demais. — Vá brincar mais um pouco, filho.
Natália se levantou devagar, limpando as mãos no vestido, observando quando a mulher saiu do carro.
Alta. Elegante. Confiante.
Cabelo preso com perfeição.
Salto firme sobre o cascalho.
Ela caminhou como quem conhecia aquele lugar.
— Nicolas — disse a mulher, abrindo um sorriso calculado. — Quanto tempo.
Natália sentiu algo estranho no estômago.
— Clara — respondeu ele. — Não esperava você hoje.
Esperava, pensou Natália. Pelo menos o corpo dele sim.
— Precisávamos conversar — Clara continuou, lançando um olhar rápido em direção a Natália. — Vejo que… a babá nova já se adaptou.
Babá nova.
O tom não era neutro.
— Esta é a Natália — Nicolas disse. — Natália, Clara era amiga da minha esposa.
Era.
A palavra ficou pesada.
— Prazer — Clara disse, estendendo a mão.
Natália apertou, educada.
— Prazer.
Mas Clara não soltou de imediato. Avaliou. Mediu. Sorriu.
— Arthur se parece muito com ela — comentou. — Principalmente quando sorri.
O menino sorriu sem entender.
Natália sentiu o aperto no peito.
— Ele é um amor — respondeu, gentil, puxando Arthur para perto.
Clara arqueou levemente a sobrancelha.
— Imagino que sim.
Nicolas pigarreou.
— Vamos entrar.
Durante o café, Natália tentou manter a naturalidade. Arthur falava animado, mas Clara interrompia com histórias do passado. Da esposa. Da vida que Natália não conhecia — e talvez nunca devesse.
— Ela sempre dizia que ninguém cuidaria do Arthur melhor do que alguém… escolhido a dedo — Clara comentou, olhando diretamente para Natália.
— Ele está muito bem cuidado — Natália respondeu, firme.
Nicolas observava tudo em silêncio.
— Preciso falar com você a sós, Nicolas — Clara disse, levantando-se.
Ele assentiu.
— Natália, pode levar Arthur para o quarto?
Ela concordou, mas sentiu o olhar dele segui-la pelo corredor.
No quarto, Arthur ficou inquieto.
— Nati… quem é aquela moça?
— Uma pessoa do passado do seu pai — respondeu com cuidado.
— Ela vai tirar você daqui?
A pergunta doeu mais do que deveria.
— Não — disse Natália, segurando o rostinho dele. — Ninguém me tira de onde eu escolhi estar.
Mas será que escolheu mesmo?
No corredor, ao passar pelo escritório, ela ouviu vozes elevadas.
— Você não pode colocar uma estranha dentro dessa casa! — Clara dizia.
— Ela não é estranha — Nicolas respondeu, duro.
— Ela dorme aqui, cuida do seu filho, muda sua rotina — Clara insistiu. — Você está misturando tudo!
Natália parou.
O coração acelerou.
— Isso não diz respeito a você — Nicolas rebateu.
— Diz sim — Clara respondeu. — Porque alguém precisa proteger o que restou da família dela.
Silêncio.
Natália sentiu o chão sumir por um segundo.
Ela deu um passo para trás.
E acabou esbarrando em Nicolas.
Ele tinha saído do escritório sem que ela percebesse.
Os dois ficaram próximos demais. Muito próximos.
— Você ouviu — ele constatou.
— O suficiente — respondeu ela, a voz firme, mas os olhos brilhando.
— Natália…
— Não se explique — interrompeu. — Só me diga uma coisa.
Ela ergueu o rosto.
— O senhor me quer aqui… ou está apenas tentando preencher um vazio?
O olhar de Nicolas escureceu.
E, antes que ele pudesse responder, Clara apareceu na porta.
— Talvez essa conversa não devesse acontecer — ela disse, fria. — Você está ultrapassando limites perigosos, Nicolas.
Natália sentiu a mão dele tocar seu braço.
De leve.
Instintivo.
Proibido.
E naquele toque rápido, quase imperceptível, os dois souberam:
A linha tinha sido cruzada.