Mundo de ficçãoIniciar sessãoElise Quinn
Meus olhos se fecham e eu encosto a cabeça na cabeceira macia da cama, imaginando qual será o meu destino.
A única certeza que eu tinha naquele momento era que Atlas Cross me odiava.
A imagem de Damien sendo cremado não saía da minha cabeça. Aquele dia era como uma sombra em minha mente.
A família Cross não chorava. Eles observavam. Julgavam.
Mediam cada movimento meu, como se eu fosse uma intrusa que ousou ocupar o que nunca deveria ter sido meu. E talvez eles estivessem certos.
Todos me pareciam suspeitos. Inclusive um homem sombrio que vi nos observar. Eu não o conhecia, mas seu olhar me deixou assustada.
Porém, a essa altura do tempo, qualquer um parecia suspeito.
Atlas não havia olhado para mim uma única vez durante todo o velório.
Ele falava com os conselheiros, recebia condolências, recebia reverências e me atravessava como se eu fosse invisível.A porta se abriu, e eu me assustei.
Atlas entrou no quarto com o mesmo ar autoritário de sempre e apenas disse:
— Vista algo bonito. Vamos sair.
Arregalei os olhos. Sair? Ele acabara de enterrar o irmão. Que tipo de pessoa faria isso?
— Achei que ia descansar.
— Você disse que iria provar a sua inocência. Não disse?
Balancei a cabeça concordando.
— Ótimo! Então faz o que mandei, te espero no carro em vinte minutos.
Esse cara era louco.
Respirei fundo, tentando ignorar o peso das palavras dele.
Enquanto procurava algo para vestir, minha mente voltava para o velório… para aquela sensação estranha que me acompanhou o tempo todo. Eu não tinha coragem de contar para Atlas, mas uma parte de mim sabia que precisava.
Quando desci as escadas, ele estava parado no hall, mexendo no relógio como se cada segundo fosse uma afronta. Não levantou os olhos até eu chegar perto.
— Vamos. — disse apenas.
Eu quase fiquei calada. Quase.
— Atlas… tem algo que eu não consegui parar de pensar desde o velório.
Ele soltou um suspiro impaciente, mas não me interrompeu.
— Havia um homem observando tudo de longe. Ele não se aproximou do caixão, não falou com ninguém… e quando olhei de volta, ele havia sumido.
Atlas franziu levemente as sobrancelhas, mas disfarçou rápido.
— E daí?
— Damien não tinha inimigos? — perguntei baixinho.
Por um instante, um único instante, Atlas pareceu hesitar.
Como se a pergunta tivesse tocado num ponto que ele tentava esconder.Mas ele apenas abriu a porta da frente.
— Ele era um mafioso. Em cada canto da cidade haveria um inimigo.
Suspirei. Ele era insuportável.
A estrada parecia interminável, cercada por árvores que se curvavam.
Atlas dirigia como se a vida dele dependesse disso. O maxilar travado, as mãos firmes no volante. Um vulcão de fúria controlada.
Apertei o cinto de segurança o quanto pude.
Eu estava prestes a perguntar para onde exatamente estávamos indo quando vi os portões enormes se aproximando.
Eram de ferro preto, com detalhes dourados, e atrás deles… um antigo cassino desativado, imponente, caríssimo, claramente escondendo segredos. Luzes apagadas, janelas espelhadas, segurança reforçada mesmo abandonado.
Meu estômago virou.
— Que lugar é esse? — perguntei.
Atlas não olhou para mim.
— Pode me dizer que porra está acontecendo? — esbravejei.
Ele então se virou para mim.
— Propriedade de um dos consórcios ligados à máfia de Westbridge. Damien estava investigando algo aqui antes de morrer.
Meu coração apertou.
— E o que a gente vai fazer?— Fingir que estamos interessados em comprar o local.
Eu pisquei.
— Comprar? Isso aqui?— Sim. — Ele desligou o veículo. — E para isso, precisamos parecer um casal rico… e apaixonado querendo um novo negócio para investir.
Eu ri. Não consegui evitar. Uma risada seca, nervosa, quase histérica.
— Desculpa, mas… apaixonada? Eu? Por você? É impossível — falei, ainda rindo. — Você não sabe sorrir, não sabe ser simpático, você me odeia e…
Ele avançou um passo, ficando tão perto que o ar entre nós ficou quente demais. O olhar dele me queimou.
— Eu não pedi a sua opinião, Elise — ele disse baixo, rouco, perigoso. — Mandei que você interpretasse um papel.
Engoli em seco.
Atlas continuou, sem desviar os olhos irritamente azuis dos meus:
— Você disse que queria provar sua inocência. E disse que me ajudaria a descobrir quem matou o meu irmão.
Meu peito apertou.
— Eu disse.— Então vamos começar agora. — A voz dele saiu grave, intensa. — Nem que isso sugue toda a minha alma.
Fiquei parada, hipnotizada pela dor escondida naquelas palavras.
Atlas nunca demonstrava nada. Nunca.
Mas ali eu conseguia ver algum tipo de esperança em seu rosto.— Elise — ele disse meu nome como uma ordem, mas também como um aviso. — A partir do momento em que atravessarmos aquele portão… você é minha esposa. Você me ama. Você faria qualquer coisa por mim.
Meu coração disparou com aquelas palavras.
— Tem certeza de que é seguro?
Ele respirou fundo, lento, profundo. Então, pela primeira vez desde o velório, Atlas Cross não pareceu um babaca, apenas um irmão de luto.
— Não sei. Mas alguém matou Damien — ele disse. — E eu vou enterrar esse desgraçado com as minhas próprias mãos.
Silêncio.
Ele estendeu a mão para mim.
— Então? Está dentro ou não?
Senti meu coração quase sair pela boca, mas apenas sussurrei.
— Sim.
Ele desceu da SUV primeiro, e em seguida desci atrás. A propriedade era luxuosa, seguranças cuidavam da entrada, e a placa a venda me chamou a atenção.
Atlas se aproximou sorridente, o que parecia até novo para mim.
— Olá, amigos. Com quem posso falar? Estou interessado no local.
Os homens cochicharam entre si, e logo chegou uma mulher simpática para nos recepcionar.
— Henry Davis — ele estendeu a mão. — E essa é a minha esposa, Kayla.
Senti minha pele arrepiar. Atlas não era bobo, mentiu sobre nossos nomes. Mas ser chamada de sua esposa, mexeu comigo.
— Me chamo Laila, prazer. Sou mulher do dono deste local. O que levaram vocês a se interessar na propriedade?
— Eu e a minha esposa somos recém-casados, estamos procurando uma casa confortável, e discreta se é que me entende, não é amor?
— S..sim. — gaguejei. — Qual o sobrenome de vocês? — perguntei.
— Oh, esqueci de dizer. Mazzini. Será um prazer mostrar a casa para vocês.
A mulher solicitou que a seguíssemos, e Atlas segurou na minha cintura. Eu congelei.
Nunca havíamos ficado tão… próximos.
A casa era enorme. Quanto mais andávamos, mais tinha locais para olhar. Eu sinceramente não sabia o que poderia descobrir lá.
— Temos muitas ofertas… — comentou Layla. — Fica difícil escolher.
— Eu pago mais do que ofertaram. Quero agradar a minha esposa. Não é amor?
Laila arqueou as sobrancelhas.
— Vocês combinam tanto. Mas parecem… tímidos. Quase como se nem fossem casados.
Merda.
Atlas deu um passo para perto de mim.
— Claro que somos — ele disse, e sussurrou: — Desculpa.
E então seus lábios tocaram os meus.
A língua dele entrou na minha boca devagar, quente, firme… e parou. Eu congelei.
Eu tinha acabado de beijar o irmão do meu marido morto.
Quando me afastei, ainda sem ar, vi um homem ao longe. Falando ao telefone e andando rápido.
O mesmo homem do velório.
Meu sangue gelou.
— Atlas… — sussurrei, puxando seu braço. — É ele.
Vi esse homem no velório.






