Mundo de ficçãoIniciar sessãoAtlas Cross
Meus ombros estavam tão doloridos que sair dessa cama parecia impossível. Olho para o relógio; porra, são sete da manhã. Eu não consegui pegar no sono, após uma noite inteira limpando os vestígios da morte do meu irmão. Observo a minha imagem no espelho, continuo sujo de sangue, nem tive forças para tomar um banho. Uma batida na porta me tira dos pensamentos. — O carro sairá daqui em trinta minutos, senhor. — um dos conselheiros me diz. — A viúva precisa estar presente. Abro os olhos que ainda estavam quase fechados. — Ela não precisa estar presente. — disse firme. — Temos que seguir as tradições. — rebate ele. — O senhor sabe quais são, agora que será o chefe. — sinto a ironia em sua voz. Respiro fundo. Eu sabia que isso não seria fácil, não me dariam tempo para chorar pela morte de Damien. Eu nunca fui bem quisto pelos homens do meu pai, e tudo pelo fato de eu levar o sangue de uma das amantes dele. Minha mãe biológica morreu no parto, e a esposa do meu pai, me pegou para criar. Tudo que eu sou, devo a ela, ela era e sempre vai ser a minha mãe de verdade. Eu agora não era só o bastardo, eu tinha a responsabilidade de comandar um negócio, e todos esperavam por minhas ordens. A verdade é que eu estava perdido. Tomei um banho e vesti uma roupa preta representando o meu luto. Em seguida, fui até o quarto de Elise. Não queria entrar no quarto, mas mesmo assim girei a maçaneta. Ela estava deitada por cima do vestido de noiva. Seu rosto estava inchado pelo choro, o véu torto,os cabelos bagunçados. Porra… Ela parecia tão frágil, que eu esqueci o ódio por um milésimo de segundo. Algo dentro de mim a culpava pela morte do meu irmão. Algo dizia que ela tinha a ver com isso. — Acorda! — a balancei. — O que está acontecendo? — acordou desnorteada. — Você precisa se arrumar. — disse. — Por mais que seja do meu contragosto, tem que estar presente no velório. — Não preciso ir se você não quiser. — ela disse. — Precisa sim. — rosnei, encarando-a como se isso fosse óbvio. — Você é a viúva. As tradições não se dobram por causa do seu conforto. Os olhos dela tremeram, como se a palavra viúva tivesse a atingido. Por um segundo eu senti o golpe afundar nela. E odiei sentir qualquer coisa. — Levante-se. — ordenei. — O carro sai em vinte minutos. Ela se sentou devagar, ainda meio tonta, e o vestido manchado de sangue deslizou pelo chão. O sangue do meu irmão. Meu maxilar travou. — Dê um jeito nesse… — apontei para ela inteira, como se fosse impossível separar uma coisa da outra. — Nesse estado. Vai honrar Damien nem que seja pela primeira vez. Ela desviou o rosto, os olhos marejando. Eu não me permiti sentir nada. Me virei e saí do quarto, mas parei na porta, falando sem olhar para trás: — Vou esperar lá embaixo. Não me faça buscá-la de novo. Fechei a porta. Meu peito parecia preso em torno de um ferro. Desci as escadas e encontrei Vítor, meu primo, e também o leal consigliere de Damien, encostado na mesa com dois copos de café. Ele estendeu um para mim. — Dia de merda, hein? — ele murmurou. Peguei o copo, sem responder. — Ouvi dizer que ela vai ao velório. — continuou ele. — A tradição exige. — respondi seco. Vítor me observou por longos segundos. — Você deveria pedir a anulação. — disse baixo. — O casamento durou, o quê… dois minutos? Ela não teve tempo de ser Cross de verdade. Isso facilitaria as coisas para você. Para a família. Para o conselho. Eu fechei a mão ao redor do copo. — Depois do enterro. — respondi. — Não hoje. Não sei qual seria a vontade do meu irmão. — Tem certeza? — ele insistiu. — Essa mulher vai complicar sua vida. — Já complicou. — respondi, A porta do andar de cima rangeu. Olhei para cima. Elise apareceu no topo da escada. De preto. Sóbria. Pálida. E ainda assim tão… Desviei o olhar antes que qualquer emoção ridícula ameaçasse aparecer no meu rosto. Sem dizer nada, dei as costas e caminhei até a porta. — Vamos. — ordenei. O automóvel nos buscou, e o caminho foi silencioso. Elise observou o cenário pela janela até chegarmos. A capela estava cheia. Homens de preto e rosários. Damien era um dos mafiosos mais queridos da cidade. Quando entrei, todos se calaram. Elise entrou alguns passos atrás de mim, e ouvi alguém sussurrar: — Viúva rápida demais… Meu sangue esquentou. Não por ela, mas pelo desrespeito com o nosso nome. Me aproximei do caixão. Damien parecia dormindo, a diferença é que eu nunca mais poderia acordá-lo. Meu coração doeu. Levantei a cabeça e sequei as lágrimas do rosto. "Homens não choram" lembrei das palavras do meu pai. Elise se aproximou também. Suas lágrimas caíam em silêncio. E eu… odiei que parte de mim sentisse alguma coisa por isso. Um dos capos, que são como capitães no mundo da máfia, encostou perto demais do meu ombro. — Não é certo que essa garota fique com um centavo. — cochichou. Eu me virei para ele com fúria nos olhos. — Não vê que estou enterrando meu irmão, porra? — esbravejei. — Te darei um conselho garoto, o título de chefe não te faz um. Se quer assumir o lugar de Damien, tem que ser calculista, e o casamento dele com essa Quinn, foi um erro. — Mas eu não solicitei sua opinião. Os homens carregaram o caixão de madeira e eu me aproximei jogando uma rosa-vermelha. "Adeus, irmão. Eu prometo que vingarei a sua morte" sussurrei." Chegamos em casa em silêncio. Encarei Elise que ainda estava calada desde que chegamos. — Vá para o seu quarto — ordenei. — Não preciso mais de você hoje. Ela subiu sem discutir, e eu fui para o escritório de Damien. Fechei a porta atrás de mim, sentindo o ar pesado, impregnado dele. Seus livros preferidos espalhados na mesa, o casaco ainda na cadeira. Tudo exatamente como ele deixou. Apertei o nariz, respirando fundo. Peguei um copo e enchi com o uísque preferido dele. — Eramos só eu e você Dami. — murmurei. — Agora, eu não tenho mais nada. Deslizei o copo sob a mesa e abri a gaveta da mesa procurando… sei lá. Uma lembrança. Algo que me fizesse sentir menos sozinho. Logo em cima, a arma preferida do meu irmão. Papai havia nos ensinado a atirar pela primeira vez com essa pistola, eu lembro que eu e Damien nos assustamos com o barulho da bala saindo pelo cano. E foi quando vi, mais abaixo, um envelope marrom escondido sob uma pasta comum. Tirei devagar. Dentro, havia relatórios, fotos, pesquisas, que porra era aquela? Uma frase chamou minha atenção. Alguém de confiança está me traindo o que me deixou claro que Damien morreu por que sabia de algo. No fundo do envelope, uma última anotação dele: “Acho que estou perto demais de descobrir quem é o traidor infiltrado. Se alguma emboscada acontecer comigo, quero que cuide de Elise e do nosso patrimônio. Ass: seu irmão.






