10: Fuga de sangue

A segurança que senti na noite anterior desapareceu com a luz da manhã, substituída por um sentimento de culpa corrosivo. Eu não podia me deixar levar pelo toque de Dominic. Ele era o homem que me comprou. Ele era o inimigo.

Aproveitei que Dominic havia saído cedo para uma "reunião de cúpula" e comecei a observar a rotina dos guardas. Eu precisava sair dali antes que minha mente começasse a chamar aquela gaiola de lar.

— Sra. Valesca, onde fica a lavanderia? — perguntei, tentando parecer casual enquanto ela limpava o corredor.

— No térreo, ala leste, menina. Por quê?

— Derrubei suco no meu vestido favorito. Quero ver se as manchas saíram.

Ela apenas assentiu. Eu sabia que a lavanderia tinha uma entrada de serviço para os fornecedores. Corri para o quarto, calcei sapatos baixos e vesti um casaco escuro. Esperei o momento em que os guardas da guarita trocavam de turno — um intervalo de exatos quarenta segundos que observei da janela.

Saí pelas passagens de serviço, o coração batendo tão forte que eu temia que os sensores de movimento o detectassem. O ar frio da manhã atingiu meu rosto quando escapei pela porta dos fundos. Eu estava fora da casa, mas ainda dentro dos muros.

Corri entre os arbustos altos do jardim, contornando a piscina desativada, até encontrar um ponto onde uma árvore grande estendia seus galhos para além do muro de pedra. Meus dedos sangraram enquanto eu escalava o tronco áspero, mas a adrenalina era um anestésico potente.

Pulei para o outro lado. O impacto no asfalto da estrada deserta enviou um choque pelas minhas pernas. Eu estava livre.

Comecei a correr pela estrada, esperando encontrar algum carro, algum sinal de civilização. Após dez minutos de corrida desesperada, o som de um motor potente ecoou atrás de mim. O pavor me paralisou. Um SUV preto surgiu na curva, derrapando os pneus enquanto cortava minha frente, bloqueando o caminho.

A porta do motorista se abriu. Dominic desceu. Ele não estava armado, mas sua expressão era mais letal do que qualquer pistola.

— Entra no carro, Luísa — ele disse, a voz num tom tão baixo que era quase um rosnado.

— Não! Eu não vou voltar! Você não tem o direito…

— Eu tenho todos os direitos que o seu pai me vendeu! — Ele caminhou em minha direção. Eu tentei correr para o matagal lateral, mas ele foi mais rápido. Seus braços me envolveram como pinças de metal, tirando meus pés do chão.

— Me solta! Me deixa ir! — Eu batia no peito dele, chutando o ar, mas era como tentar mover uma montanha.

Ele me jogou no banco do passageiro e travou as portas antes que eu pudesse alcançar a maçaneta. Ele contornou o carro e assumiu o volante, arrancando em uma velocidade que me jogou contra o banco.

— Você tem ideia do quanto foi estúpida? — Ele gritou, batendo no volante. — Há batedores dos russos em cada esquina desta estrada esperando por um deslize meu! Se eles te pegam, eu não teria como te tirar de lá!

— Eu prefiro morrer tentando ser livre do que viver como sua boneca!

Dominic freou o carro bruscamente no meio da estrada e se virou para mim, os olhos injetados de fúria e algo que parecia medo genuíno.

— Você quer liberdade? — Ele rugiu. — Pois agora você vai ter toda a liberdade do mundo para refletir.

Ao chegarmos à mansão, ele não me levou para o meu quarto. Ele me arrastou para o seu escritório imenso e trancou a porta.

— O que você vai fazer? Vai me bater?

— Não. Eu vou trabalhar — ele disse, sentando-se na sua cadeira de couro e abrindo um laptop. — E você vai ficar sentada naquela poltrona. Sem livros, sem celular, sem janelas abertas. Se você quer tanto a minha atenção, Luísa, agora você tem. Você vai ver exatamente o tipo de vida que está tentando "fugir" e o tipo de monstros que eu mantenho longe de você todos os dias.

Ele me condenou ao seu silêncio, forçando-me a ser testemunha da escuridão que ele gerenciava, transformando minha tentativa de fuga em um isolamento vigiado pelo próprio carrasco.

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