O CONTRATO DE ELENA

 O contrato de Elena.

No corredor, Elena ajeitou os cabelos com os dedos, puxou as mangas do casaco até os pulsos e desceu as escadas.

Cada degrau parecia mais frio que o anterior.

Gael estava na sala principal.

Alto, largo, vestido com calça social e camisa branca amarrotada. 

O cabelo grisalho estava penteado para trás, e a barba por fazer endurecia ainda mais seu rosto. 

Havia um copo de bebida em sua mão, embora ainda fosse manhã.

Ele não olhou para Elena de imediato.

Ficou observando a lareira apagada, como se esperasse que o fogo se acendesse por medo dele.

— Onde está sua irmã?

Elena parou no último degrau.

— Dormindo.

Gael virou o rosto devagar. 

Seus olhos frios deslizaram por ela com desprezo.

— Mentira.

Elena abaixou o olhar.

Não por submissão verdadeira.

Por estratégia.

— Ela não está se sentindo bem.

— Ninguém se sente bem nesta casa. Ele disse, dando um gole na bebida. 

— Ainda assim, todos obedecem.

Elena permaneceu calada.

Gael odiava respostas.

Mas odiava silêncios também.

Era impossível vencer.

Ele se aproximou dela. O cheiro de álcool chegou primeiro. Depois, a presença.

Elena obrigou o corpo a não recuar.

— Você esteve na cozinha.

Ela sentiu o estômago afundar.

— Fui buscar água.

Gael sorriu sem humor.

— Água?

— Sim.

A mão dele veio rápida.

O tapa estalou em seu rosto e virou sua cabeça para o lado.

A dor queimou instantaneamente. 

Elena cambaleou, mas não caiu. 

Não daria a ele esse prazer.

— Eu não criei ladras. Gael disse baixo.

Elena manteve a mão longe do rosto, embora a pele ardesse.

— Era só pão velho.

Outro tapa.

Dessa vez, mais forte.

Ela sentiu gosto de sangue na boca.

— Era meu.

Elena olhou para ele então. 

Não conseguiu evitar.

Por um segundo, algo em seus olhos escapou.

Raiva.

Dor.

Nojo.

Gael viu.

E gostou.

— Esse olhar… 

Murmurou. 

— Igual ao da sua mãe.

O mundo pareceu parar.

Elena odiava quando ele mencionava Mirela. 

O nome da mãe na boca dele era uma profanação. 

Uma sujeira.

— Não fale dela! Elena disse, antes que pudesse se conter.

O silêncio caiu brutal.

Gael inclinou a cabeça.

— O que você disse?

Elena soube que havia cometido um erro.

Mas não voltou atrás.

— Não fale da minha mãe.

A expressão dele mudou. Não explodiu em fúria. 

Ficou calmo. 

E era sempre pior quando ficava calmo.

Ele agarrou o braço dela e a puxou com força.

— Sua mãe era uma vergonha.

Elena tentou se soltar, mas ele apertou mais.

— Sua mãe achou que podia me desafiar.

— Ela queria nos salvar.

A frase saiu como um sopro.

Mas saiu.

Gael a empurrou contra a parede. 

O impacto roubou o ar de seus pulmões. 

Um quadro antigo balançou acima dela.

— Salvar vocês de quê? Ele rosnou perto de seu rosto. 

— De mim?

Elena tremia, mas não desviou.

— Sim.

Por um instante, pensou que ele a mataria ali.

Talvez devesse ter sentido medo.

Sentiu alívio.

Porque morrer parecia mais simples do que continuar naquela casa.

Mas então um som pequeno veio do alto da escada.

Um soluço.

Isadora.

Gael olhou para cima.

Elena empalideceu.

— Não! Ela sussurrou.

O sorriso dele voltou.

— Então a doente acordou.

Ele soltou Elena e caminhou para a escada.

O instinto foi mais rápido que a dor. 

Elena segurou a manga dele.

— Não toca nela.

Gael parou.

Olhou para a mão dela em sua roupa.

Depois para o rosto dela.

— Você anda muito corajosa.

Elena soltou a manga devagar.

— Por favor.

A palavra a envergonhou.

Mas por Isadora ela imploraria mil vezes.

Gael se aproximou novamente.

— É disso que eu gosto em você, Elena. No fim, sempre entende seu lugar.

Ela fechou os olhos.

Ele tocou seu queixo com brutalidade.

— Arrume-se!

Elena abriu os olhos.

— O quê?

— Teremos visita.

O sangue pareceu desaparecer de seu corpo.

— Que visita?

Gael deu um passo para trás e ajeitou os punhos da camisa.

— Homens importantes.

— Da cidade?

— De fora.

Elena respirou com dificuldade.

— Por quê?

Gael caminhou até a mesa lateral e pegou um envelope grosso. Jogou-o aos pés dela.

Papéis se espalharam pelo chão.

Elena olhou.

Havia assinaturas.

Selos.

Cláusulas.

Seu nome.

Elena Vilaro.

Ela se abaixou lentamente e pegou uma das folhas. 

As letras dançam diante de seus olhos até que as palavras se tornam nítidas.

Contrato de casamento.

Seu coração falhou uma batida.

Depois outra.

— O que é isso?

Gael sorriu.

— Sua salvação.

Elena levantou os olhos para ele.

— Minha?

— Minha. Corrigiu ele. 

— Você vai pagar uma parte do que me deve.

— Eu não devo nada ao senhor.

Ele riu.

— Deve tudo. A comida que comeu, o teto sob o qual dormiu, o nome que carrega.

Elena apertou o papel até amassá-lo.

— Com quem?

Gael demorou para responder.

Saboreou o medo dela.

— Dante Soranzo.

O nome atravessou a sala como um trovão.

Elena já o ouvira antes. 

Todos naquela região tinham ouvido.

Dante Soranzo.

O mafioso da Fazenda Santa Ombra.

O homem que controlava estradas, homens armados e silêncios. 

O homem que vivia cercado por lendas. 

O viúvo cuja esposa morreu em circunstâncias misteriosas.

Diziam que ele nunca levantava a voz.

Diziam que não precisava.

Diziam também que havia matado a própria mulher.

Elena sentiu os dedos gelarem.

— Não.

Gael arqueou uma sobrancelha.

— Não?

— Eu não vou me casar com ele.

A resposta dele foi um riso baixo.

— Vai.

— Eu não sou mercadoria.

Gael se aproximou até ficar diante dela.

— Nesta casa, você é o que eu disser que é.

Elena olhou para os papéis. 

Viu seu nome impresso em tinta. 

Viu sua vida reduzida a um contrato. 

Viu a intenção do pai escondida atrás daquela falsa aliança.

Ele não a estava vendendo apenas por dinheiro.

Estava se livrando dela.

Entregando-a a outro homem perigoso.

Talvez esperando que Dante fizesse o que ele ainda não fizera.

Terminasse o serviço.

— E Isadora? Elena perguntou, com a voz falhando.

Gael sorriu de um jeito que fez seu sangue virar gelo.

— Sua irmã fica comigo.

Não.

Não, isso não.

Elena deu um passo à frente.

— Eu faço o que quiser. 

—Eu assino. Eu vou. 

—Mas a Isadora não fica.

— Você não negocia comigo.

— Ela não fica.

—Voce pode me matar se quiser, mas eu só assino esse contrato se Isadora vier comigo.

Gael a observou por um longo momento.

Depois seus olhos brilharam com crueldade calculada.

— Então se comporte durante a visita. 

—Talvez eu pense no caso.

Era mentira.

Elena sabia.

Mas era uma mentira com a qual ela teria que trabalhar.

No andar de cima, Isadora chorava em silêncio.

Lá for

a, os primeiros carros começaram a surgir na estrada enlameada.

Motores possantes.

Vidros negros.

Homens armados.

Elena olhou pela janela e sentiu o mundo se fechar ao redor dela.

O contrato tremia em sua mão.

A casa parecia prender a respiração.

E, pela primeira vez em anos.

Elena percebeu que talvez o seu inferno pessoal não estivesse terminando.

Talvez estivesse apenas trocando de dono.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App