PRÓLOGO PARTE 2

Prólogo — Parte II

A menina que aprendeu a sobreviver

Na manhã seguinte, a cidade inteira lamentou a morte de Mirela Vilaro.

As pessoas chegaram cedo à mansão levando flores e expressões tristes. 

Mulheres cochichavam perto da entrada. 

Homens apertavam a mão de Gael como se ele fosse um viúvo digno de pena.

Ninguém enxergava sangue em suas mãos.

Ninguém enxergava o monstro.

Elena ficou parada ao lado do caixão durante horas, segurando a mão pequena de Isadora enquanto ouvia elogios dirigidos ao homem que havia matado sua mãe.

— Gael sempre foi um marido exemplar…

— Que tragédia terrível…

— Mirela era tão distraída…

Elena observava tudo em silêncio.

O vestido preto apertava seu peito, dificultando a respiração. 

O cheiro forte das flores embrulhava seu estômago. 

O rosto da mãe parecia tranquilo dentro do caixão, mas Elena sabia que aquilo era mentira.

Nada naquela morte tinha sido tranquilo.

Ao lado dela, Isadora chorava baixinho sem entender completamente o que acontecia.

Elena apertou sua mão com força.

Foi naquele funeral que ela compreendeu a primeira regra da própria vida:

Os monstros nem sempre vivem escondidos.

Às vezes, recebem condolências.

Os anos que vieram depois transformaram a mansão Vilaro em um lugar ainda mais sombrio.

Gael não matou as filhas.

Fez pior.

Quebrou cada parte delas lentamente.

A casa se tornou silenciosa demais.

O retrato de Mirela desapareceu da parede principal poucos dias após o enterro. 

O quarto dela permaneceu trancado. 

Seu nome nunca mais foi pronunciado dentro da mansão.

Como se ela nunca tivesse existido.

Mas Elena lembrava.

Lembrava do perfume de jasmim.

Das mãos suaves penteando seus cabelos antes de dormir.

Da voz dizendo que mulheres podiam sobreviver mesmo quando o mundo tentava destruí-las.

Essas lembranças se tornaram a única coisa bonita dentro daquela casa.

Gael controlava tudo.

Os horários.

As refeições.

O modo como as meninas sentavam à mesa.

O volume de suas vozes.

O jeito como respiravam.

Elena aprendeu rapidamente a reconhecer os humores do pai pelos passos no corredor.

Passos lentos significavam bebida.

Passos rápidos significavam raiva.

Silêncio absoluto era ainda pior.

Ela aprendeu a esconder comida nos bolsos do vestido para alimentar Isadora quando eram deixadas sem jantar como punição.

Aprendeu a limpar sangue do chão sem perguntar de quem era.

Aprendeu que pedidos de desculpas podiam diminuir uma agressão, mas nunca impedir completamente.

E, acima de tudo, aprendeu a suportar.

À noite, Isadora chorava baixinho na cama.

Elena a abraçava contra o peito e sussurrava:

— Eu estou aqui.

Mesmo quando ela própria sentia que estava desaparecendo aos poucos.

Os anos passaram.

A menina assustada atrás do corrimão cresceu.

O medo cresceu junto.

Mas outra coisa nasceu dentro dela também.

Frieza.

Não porque Elena fosse cruel.

Mas porque emoções eram perigosas naquela casa.

Chorar enfurecia Gael.

Questionar provocava punições.

Esperança machucava.

Então Elena se tornou silenciosa.

Observadora.

Ela aprendeu a esconder sentimentos atrás de olhos calmos.

Aprendeu a sobreviver dentro do próprio vazio.

E foi exatamente isso que chamou a atenção de Gael conforme ela crescia.

Aos dezenove anos, Elena já era conhecida na cidade por sua beleza incomum.

Longos cabelos escuros.

Olhos frios demais para alguém tão jovem.

Uma elegância silenciosa herdada da mãe.

Os homens olhavam para ela.

As mulheres cochichavam.

Mas ninguém sabia quem Elena realmente era.

Porque a verdadeira Elena permanecia presa naquela noite chuvosa de infância.

Então, numa tarde sufocante de verão, Gael entrou na sala principal segurando um envelope escuro.

Elena estava sentada perto da janela costurando um vestido rasgado de Isadora.

A irmã mais nova lia em silêncio no sofá.

As duas ergueram os olhos imediatamente ao ouvir os passos dele.

O ar da sala pareceu esfriar.

Gael parou diante delas.

— Tenho notícias. Anunciou.

Elena sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Notícias nunca significavam algo bom.

Gael retirou alguns papéis do envelope.

Um contrato.

— Você vai se casar.

O mundo pareceu desacelerar.

Isadora foi a primeira a reagir.

— O quê?

Gael ignorou a filha mais nova e olhou apenas para Elena.

— Dante Soranzo pediu sua mão.

O nome caiu sobre a sala como uma sentença.

Até Elena conhecia os rumores.

Dante Soranzo.

O viúvo da Fazenda Santa Ombra.

Um homem cercado por histórias violentas.

Diziam que sua primeira esposa havia morrido em circunstâncias estranhas.

Diziam que ele era cruel.

Perigoso.

Quase tão monstruoso quanto Gael.

Isadora levantou-se rapidamente.

— Não! Você não pode fazer isso!

Gael lançou um olhar gelado para ela.

— Posso fazer o que eu quiser.

Isadora começou a chorar.

Mas Elena permaneceu imóvel.

Por dentro, algo se partiu lentamente.

Ela sempre soube que Gael acabaria usando suas filhas de alguma forma.

Ainda assim, ouvir aquilo doeu.

Doía porque significava que nunca escaparia realmente dele.

Gael observava seu rosto esperando reação.

Esperando lágrimas.

Desespero.

Súplica.

Então sorriu cruelmente.

— Dizem que Dante matou a primeira esposa. 

—Talvez você tenha sorte e não dure muito.

Isadora cobriu a boca horrorizada.

Elena sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

Mas não caiu.

Porque sobreviver era a única coisa que sabia fazer.

Ela pensou na mãe caída sobre o tapete.

Pensou nas noites abraçando Isadora.

Pensou em todos os anos em que suportou o impossível.

Então ergueu lentamente o rosto.

Seus olhos encontraram os de Gael.

E permaneceram frios.

Silenciosos.

Vazios.

Pela primeira vez, Gael pareceu incomodado.

Porque aquela menina assustada havia desaparecido.

No lugar dela existia alguém que aprendera a resistir.

Mesmo dest

ruída.

Mesmo ferida.

Mesmo condenada.

Naquela noite distante, escondida atrás do corrimão da escada, Elena Vilaro havia aprendido duas coisas.

A primeira:

monstros existem.

A segunda:

Algumas meninas não morrem quando são destruídas.

Elas aprendem a sobreviver.

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