A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO
A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO
Por: Hagar Rodriguez
PRÓLOGO PARTE 1

Prólogo — Parte I

A noite em que Elena aprendeu a temer.

A chuva caía pesada sobre a propriedade Vilaro, como se o céu inteiro estivesse tentando fugir daquela casa.

O vento atravessava os campos escuros ao redor da mansão, fazendo as árvores antigas rangerem como criaturas vivas. 

Os relâmpagos iluminavam as janelas altas por segundos rápidos, revelando a fachada elegante da propriedade antes de devolvê-la à escuridão.

Durante o dia, a mansão parecia respeitável. 

Rica. 

Intocável.

À noite, porém, ela se transformava.

Virava um lugar onde o silêncio tinha peso. 

Onde os corredores pareciam longos demais. 

Onde cada porta fechada escondia alguma coisa que ninguém ousava mencionar.

Elena Vilaro aprendeu isso cedo demais.

Naquela noite, aos nove anos, ela estava escondida atrás do corrimão da escada principal, abraçada aos próprios joelhos. 

A camisola branca grudava em sua pele por causa do suor frio. 

Ela tentava respirar devagar, quase sem fazer barulho.

No quarto do andar superior, Isadora dormia profundamente.

Pequena demais para entender.

Pequena demais para saber que monstros podiam usar terno, falar baixo e ser chamados de pai.

Lá embaixo, na sala principal, vozes atravessavam a casa.

A de Gael Vilaro veio primeiro.

Fria.

Afiada.

— Você pensou que eu não descobriria?

Elena sentiu o corpo inteiro enrijecer.

Depois veio a voz da mãe.

Mirela.

Baixa. 

Trêmula. 

Desesperada.

— Gael por favor… 

—As meninas…

O estalo ecoou pela casa.

Seco.

Violento.

Elena fechou os olhos imediatamente.

Ela conhecia aquele som.

Conhecia bem demais.

Era o som da mão do pai encontrando pele.

O som que fazia sua mãe esconder os braços sob mangas longas mesmo no verão.

O som que transformava o jantar em silêncio absoluto.

O som que ensinava duas meninas pequenas a nunca derrubarem copos, nunca fazerem perguntas, nunca chorarem alto.

Mas naquela noite havia algo diferente.

Algo pior.

O ar parecia pesado demais. 

Como se a própria casa soubesse que alguma coisa irreversível estava acontecendo.

— Você me envergonhou! Gael rosnou.

Mirela começou a chorar.

— Eu nunca traí você… 

—Nunca…

Elena apertou os dedos contra a madeira do corrimão até sentir dor.

Queria correr.

Queria abraçar a mãe.

Queria puxá-la pela mão e fugir dali com a Isadora.

Mas o medo era maior que seu corpo.

Era como se mãos invisíveis apertassem sua 

garganta, prendendo-a naquele lugar.

Então ouviu a mãe dizer:

— Eu só queria salvar minhas filhas.

O silêncio que veio depois foi pior que qualquer grito.

Lentamente, Elena abriu os olhos.

Pela fresta entre as grades da escada, conseguiu enxergar parte da sala principal.

Mirela estava descalça.

Os cabelos escuros caíam sobre os ombros em ondas bagunçadas. O rosto estava molhado de lágrimas. 

Havia uma marca vermelha surgindo em sua bochecha.

Mesmo assim, ela permanecia de pé.

Tremendo.

Mas de pé.

E, pela primeira vez, Elena percebeu algo estranho na mãe.

Coragem.

Uma coragem triste. 

Desesperada. 

Como se Mirela soubesse que perderia, mas ainda assim se recusasse a abaixar a cabeça.

Gael estava diante dela, enorme dentro da camisa social escura. Seus olhos pareciam vazios.

Desumanos.

— Minhas filhas? Ele repetiu com desprezo. 

— Elas pertencem a mim.

Mirela balançou a cabeça devagar.

— Não. Elas não são propriedade sua.

Elena prenderia aquela frase na memória para sempre.

Porque foi a última vez que ouviu a mãe falar com firmeza.

Gael avançou.

Tudo aconteceu rápido demais.

Elena levou as mãos à boca antes que o grito escapasse.

Viu o pai agarrar Mirela pelos braços.

Viu a mãe tentar se soltar.

Viu os dois desaparecerem parcialmente atrás de uma coluna da sala.

Então veio o barulho.

Um corpo atingindo o chão.

Um som pesado.

Errado.

O mundo pareceu parar.

Por alguns segundos, Elena não conseguiu respirar.

O relógio da sala continuava fazendo tic-tac.

A chuva continuava batendo nas janelas.

Mas alguma coisa havia acabado.

Ela desceu um degrau involuntariamente.

E viu.

Mirela caída no tapete claro.

Imóvel.

O sangue começou a se espalhar lentamente sob sua cabeça, manchando o tecido bege como tinta escura.

Elena sentiu o estômago embrulhar.

Seu corpo inteiro começou a tremer.

Gael permaneceu parado diante do corpo da esposa, respirando pesadamente. 

Não parecia assustado.

Não parecia arrependido.

Parecia irritado.

Como se tivesse apenas corrigido algo que o incomodava.

Naquele instante, Elena deixou de ser criança.

Ela queria correr até a mãe.

Queria acordá-la.

Queria acreditar que aquilo não era real.

Mas então Gael virou o rosto.

E olhou diretamente para a escada.

Diretamente para ela.

O coração de Elena quase parou.

Por um segundo interminável, pai e filha ficaram imóveis.

Separados apenas pela sombra.

Ele sabia que ela estava ali.

E Elena soube, naquele mesmo instante, que o homem olhando para ela seria capaz de qualquer coisa.

Gael começou a subir os degraus lentamente.

Um.

Dois.

Três.

Elena acordou do choque.

Virou-se rapidamente e correu pelo corredor escuro. 

Seus pés descalços batiam contra o piso gelado enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto.

Ela entrou no quarto de Isadora e fechou a porta com cuidado.

A irmã dormia agarrada a uma boneca velha.

Tão pequena.

Tão inocente.

Elena correu até a cama e a abraçou com força.

Isadora resmungou sonolenta.

— Lena…?

— Shhh… 

Elena sussurrou, tremendo. 

— Não fala nada.

Então ouviu os passos.

Pesados.

Lentos.

Parando diante da porta.

A maçaneta girou devagar.

Elena sentiu o sangue gelar.

A porta se abriu lentamente.

Gael apareceu no vão, iluminado pelos relâmpagos que atravessavam a janela.

Havia uma mancha escura em sua manga.

Seu rosto estava assustadoramente calmo.

Ele olhou primeiro para Isadora.

Depois para Elena.

E sorri de forma quase gentil.

Foi isso que mais a assustou.

Porque monstros deveriam parecer monstros.

Mas Gael parecia apenas um pai cansado.

— Sua mãe caiu da escada. Disse ele calmamente.

Elena não respondeu.

Sentia Isadora respirando contra seu peito.

Sentia o coração batendo tão forte que parecia machucar.

Gael entrou no quarto.

O cheiro dele invadiu o ar.

Álcool.

Chuva.

E sangue.

Ele se abaixou diante da cama, ficando na altura dela.

— Você entendeu o que aconteceu?

Elena sentiu as lágrimas queimarem seus olhos.

Mas não chorou.

Alg

uma coisa dentro dela compreendeu que sobreviver dependia da resposta seguinte.

E, pela primeira vez na vida, ela mentiu.

— Sim, papai.

Gael segurou seu rosto com os dedos frios.

— Boa menina.

Naquele momento, Elena aprendeu que o medo podia manter alguém vivo.

E, naquela casa, sobreviver seria a única coisa que importava.

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