Mundo de ficçãoIniciar sessãoA fome dentro de casa.
A manhã nasceu cinzenta sobre a propriedade Vilaro.
O céu estava baixo, pesado, coberto por nuvens que pareciam pressionar o telhado antigo da mansão como se quisessem esmagá-la contra a terra.
O vento passava pelas frestas das janelas mal vedadas, arrastando o cheiro úmido dos campos abandonados e o rangido das árvores ao redor.
Elena Vilaro acordou antes do sol.
Não porque tenha dormido bem.
Ela nunca dormia bem.
Acordava sempre no mesmo horário, com o corpo tenso, os ouvidos atentos e o coração preparado para o pior.
Havia anos que seu sono deixou de ser descanso e se tornou vigília.
Mesmo deitada, mesmo exausta, alguma parte dela permanecia acordada, contando passos no corredor, portas abrindo, vozes alteradas, copos quebrando.
Na casa Vilaro, sobreviver era uma rotina.
Elena ficou alguns segundos imóvel, encarando o teto rachado do quarto.
A tinta descascava perto do lustre antigo.
Uma infiltração se espalhava pelo canto como uma mancha escura, lembrando uma ferida mal curada.
Ao lado dela, Isadora dormia enrolada em um cobertor fino.
A irmã tinha o rosto pálido, os cabelos castanho-claros espalhados pelo travesseiro e os lábios secos.
Mesmo dormindo, parecia assustada.
Havia uma tensão permanente em suas feições, como se até seus sonhos tivessem medo de fazer barulho.
Elena virou-se devagar e ajeitou o cobertor sobre os ombros dela.
— Dorme mais um pouco. Sussurrou.
Isadora se mexeu, mas não acordou.
Elena se levantou com cuidado.
O assoalho gemeu sob seus pés descalços, e ela congelou imediatamente.
Prendeu a respiração.
Esperou.
Nada.
Nenhum som vindo do quarto do pai.
Nenhuma voz.
Nenhum passo.
Só então continuou.
Vestiu um casaco velho por cima da camisola e saiu do quarto.
O corredor estava frio, estreito, cheio de retratos antigos nas paredes.
Quase todos eram de homens da família Vilaro.
Rostos duros, olhos severos, mandíbulas rígidas.
Elena passava por eles todos os dias sentindo que cada moldura a observava em julgamento.
O retrato de sua mãe não estava mais ali.
Gael havia mandado retirar tudo o que lembrasse Mirela.
Mas Elena lembrava.
Lembrava tanto que às vezes doía respirar.
Desceu a escada com uma das mãos no corrimão e a outra pressionada contra o estômago vazio.
A fome já não era uma sensação estranha.
Era uma companheira antiga, silenciosa, quase íntima.
Havia dias em que vinha como pontada, outros como fraqueza.
Naquela manhã, vinha como tontura.
A cozinha ficava nos fundos da casa.
Antigamente, segundo fragmentos de memória que Elena guardava como relíquias, aquele lugar cheirava a pão, café e bolo de laranja.
Sua mãe cantava baixinho enquanto mexia panelas.
Isadora sentava sobre a mesa, balançando as perninhas.
Elena roubava pedacinhos de massa crua e ria quando Mirela fingia ralhar.
Agora a cozinha cheirava a mofo, cinzas e abandono.
Elena abriu os armários.
Vazios.
O primeiro tinha apenas um pacote rasgado de farinha, endurecido pela umidade.
O segundo guardava duas xícaras lascadas.
O terceiro, nada além de uma lata enferrujada.
Ela fechou os olhos.
Não havia pão.
Não havia arroz.
Não havia leite.
Não havia nada.
No fogão, uma panela preta permanecia suja desde a noite anterior.
Gael havia jantado carne, vinho e batatas com dois homens da cidade.
Ela e Isadora tinham ficado no andar de cima, proibidas de descer.
Elena ainda lembrava do cheiro da comida subindo pela escada, cruel como uma provocação.
Sua irmã chorara de fome.
Elena dissera que tudo ficaria bem.
Mentira.
Era a mentira que ela mais repetia.
Abriu a gaveta menor ao lado da pia e encontrou uma faca cega, fósforos e um pedaço minúsculo de pão duro envolto em pano.
Seu coração apertou.
Ela mesma havia escondido aquilo dois dias antes.
Pegou o pão com cuidado, como se fosse algo precioso.
Era pouco.
Insuficiente.
Mas para Isadora seria alguma coisa.
Partiu ao meio.
Olhou para os dois pedaços.
Depois, sem hesitar, guardou o menor no bolso do casaco e levou o maior para a irmã.
Quando voltou ao quarto, Isadora já estava acordada, sentada na cama, os olhos grandes cheios de medo.
— Ele acordou? Perguntou antes de qualquer outra coisa.
Elena se aproximou e sentou ao lado dela.
— Ainda não.
Isadora olhou para o pedaço de pão na mão da irmã.
Seus olhos brilharam por um instante, mas logo se apagaram com culpa.
— E você?
— Eu comi antes.
Isadora a conhecia bem demais para acreditar.
— Lena…
— Come, Isa.
A voz de Elena não admitia discussão, mas carregava ternura.
Isadora pegou o pão com as duas mãos e mordeu devagar, como se quisesse fazer aquele pedaço durar para sempre.
Elena desviou o olhar.
Ver a irmã comer deveria trazer alívio.
E trazia.
Mas também feria.
Porque nenhuma das duas deveria conhecer aquela humilhação.
Nenhuma jovem deveria comemorar migalhas escondidas da própria casa.
Nenhuma filha deveria temer a fome como punição.
— Hoje ele vai sair? Isadora perguntou, com a boca ainda seca.
— Não sei.
— Ouvi vozes ontem.
Elena assentiu.
— Homens de Gael.
Isadora encolheu os ombros.
Elena odiava chamar o pai pelo nome na frente da irmã, mas a palavra “pai” tinha morrido havia muito tempo naquela casa.
Pai era proteção.
Pai era abrigo.
Gael era dono, carcereiro, ameaça.
— Eles falaram de dinheiro. Isadora continuou.
— Eu ouvi quando passei perto da escada.
Elena ficou imóvel.
— O que mais?
— Um deles disse que as dívidas estavam vencidas.
—Que alguém importante estava perdendo a paciência.
Um frio diferente percorreu a espinha de Elena.
Dívidas.
Gael sempre tivera dívidas.
Com comerciantes, políticos, capangas, famílias criminosas menores.
Mas nunca deixava que isso chegasse até elas, a menos que pretendesse usá-las como desculpa para sua violência.
— Você devia ter me chamado. Elena disse.
— Eu fiquei com medo.
Elena tocou o rosto da irmã.
— Eu sei.
Isadora engoliu em seco.
— Elena…
—Você acha que ele pode nos entregar para alguém?
A pergunta pairou entre elas como uma sentença.
Elena abriu a boca para mentir.
Para dizer não.
Para dizer que jamais.
Mas não conseguiu.
Porque sabia que Gael era capaz de tudo.
Antes que pudesse responder, um som forte ecoou pelo andar de baixo.
Uma porta batendo.
As duas se enrijeceram ao mesmo tempo.
Passos.
Pesados.
Lentos.
Gael havia acordado.
Isadora segurou a mão de Elena com força.
— Fica aqui.
Elena se levantou.
— Tranca a porta depois que eu sair.
— Não vai.
— Isa…
— Por favor.
O desespero na voz da irmã quase a quebrou.
Mas Elena já havia aprendido que, quando Gael acordava irritado, alguém precisava estar no caminho dele antes que ele subisse.
Se não fosse ela, seria Isadora.
E Elena nunca permitiria que fosse Isadora.
— Tranca a porta. Repetiu, com suavidade.
Saiu antes que a irmã pudesse impedir.







