A fome dentro de casa.A manhã nasceu cinzenta sobre a propriedade Vilaro.O céu estava baixo, pesado, coberto por nuvens que pareciam pressionar o telhado antigo da mansão como se quisessem esmagá-la contra a terra. O vento passava pelas frestas das janelas mal vedadas, arrastando o cheiro úmido dos campos abandonados e o rangido das árvores ao redor.Elena Vilaro acordou antes do sol.Não porque tenha dormido bem.Ela nunca dormia bem.Acordava sempre no mesmo horário, com o corpo tenso, os ouvidos atentos e o coração preparado para o pior. Havia anos que seu sono deixou de ser descanso e se tornou vigília. Mesmo deitada, mesmo exausta, alguma parte dela permanecia acordada, contando passos no corredor, portas abrindo, vozes alteradas, copos quebrando.Na casa Vilaro, sobreviver era uma rotina.Elena ficou alguns segundos imóvel, encarando o teto rachado do quarto. A tinta descascava perto do lustre antigo. Uma infiltração se espalhava pelo canto como uma mancha escura, lembra
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