Capítulo 3

MATTEO VASARI

Deveria ter mandado matá-la.

A decisão era clara. Eliminaria o problema antes que se tornasse algo maior. Passei minha vida inteira fazendo isso, não por prazer, como muitos idiotas pensam ao sussurrar meu nome, mas por necessidade.

Um pequeno erro, ignorado por muito tempo, quase sempre evolui para uma guerra.

Porém, ao ver Elena parada na porta semiaberta, com os dedos pressionados na parede e o rosto pálido demais para a pouca luz do corredor, a palavra "eliminar" perdeu o peso que sempre teve.

Ela não gritou.

Esse foi o primeiro sinal que me desarmou.

Ela não implorou, não dramatizou, não tentou negociar a própria vida como muitos homens que me olhavam nos olhos antes de morrer. Elena ficou ali, rígida, respirando de forma irregular, como se todo o seu corpo tentasse obedecer a uma ordem silenciosa para sobreviver.

E ao mesmo tempo resistindo como homens adultos do meu mundo quase nunca tinham capacidade de fazer.

A maioria das pessoas pede clemência quando percebe que está diante da própria morte. Ela não. E havia algo quase obsceno nisso. Uma dignidade cansada, machucada, que me fez encará-la por mais tempo do que o necessário.

Esse foi o meu maior erro da noite.

Porque enquanto minha mente gravava cada detalhe de seus olhos… Algo se acendeu dentro de mim,  um tipo de calor que não sinto com frequência.

O sangue ainda se espalhava no mármore atrás de mim. O homem no chão já não era um homem que poderia me oferecer qualquer coisa. Não era nada além de um corpo. Sua mentira tinha acabado com um único tiro, e o silêncio que se seguiu parecia mais sujo do que a cena em si.

Mas Elena não desviava o olhar de mim.

Ela estava apavorada. Isso era evidente. A respiração contida, a mandíbula tensa, a bolsa de couro pendendo de seu ombro como se pesasse uma tonelada. Ainda assim, havia uma estranha clareza em seu olhar. Como se estivesse tentando entender antes de agir.

Ela está avaliando a sala, pensei.

Não foi uma conclusão heroica. Foi um instinto. Elena observava sem parecer que estava observando. Avaliava sem se entregar. Até seu medo parecia disciplinado. Isso dizia mais sobre ela do que qualquer palavra que poderia sair dos seus lábios.

A verdade é simples demais para me agradar: Queria que ela saísse dali. Queria que aquele corredor não me tivesse obrigado a fitá-la nos olhos. Queria voltar alguns minutos no tempo e evitar que o destino fosse curioso o suficiente para me oferecer uma mulher encarando a morte sem se quebrar diante dela.

Eu soube, naquele momento, que ela não estava mentindo. Não porque acreditasse em bons corações. Eu não acreditava. Mas porque pessoas desesperadas e covardes costumam mentir de outra maneira. Elena não tinha a voz de quem negocia sua própria sobrevivência. Tinha a voz de alguém que aceitava seus limites e, mesmo assim, tentava manter a coluna ereta.

Isso me irritou mais do que deveria.

A irritação era perigosa. Ela me obrigou a prestar atenção. E prestar atenção nela claramente foi o início do problema.

Eu me aproximei o suficiente para perceber a mancha de tinta em seus dedos, o cansaço escondido sob os olhos, o leve cheiro de solvente misturado a café frio e chuva. Não era o perfume caro que aquelas mulheres costumavam carregar no Hotel Vasari. Era algo diferente. Algo humano. Triste. Real.

Ela trabalha com as mãos, notei.

Detalhes assim sempre me interessaram, porque detalhes não mentem. O rosto pode mentir. A voz pode mentir. Os olhos podem mentir, às vezes. Mas as mãos revelam tudo. E as dela estavam marcadas por tinta, desgaste, autocontrole. Mãos de quem passava horas tentando consertar o que o tempo queria destruir. Era… lindo de um jeito que eu não conseguia explicar.

A ideia me atingiu de forma absurda: Elena parecia alguém que vive cercada de ruínas e, ainda assim, continuava a tentar salvar o que pudesse… E isso prendeu minha atenção mais do que deveria. Eu quase me distraí. Quase.

Observei a reação dela ao ouvir os passos. O corpo ficou ainda mais rígido. Elena não tentou correr. Não tentou se esconder. Apenas entendeu, com uma rapidez quase cruel, que estava prestes a ser engolida por algo maior do que ela.

Entretanto, quando ela ergueu os olhos para mim, havia algo ali que eu não esperava encontrar: não confiança, não exatamente, mas uma espécie de recusa silenciosa em implorar. Um orgulho ferido, mas não estilhaçado. Um fogo nos olhos…

Isso me perturbou mais do que qualquer ameaça.

Eu disse para levá-la. Antes que fosse tarde demais.

Se é que já não era.

A ordem saiu firme. O homem de segurança assentiu de imediato, mas eu percebi a dúvida rápida em seu rosto antes que ele a escondesse. Eles conheciam meu humor. Conheciam minha reputação. No entanto, eu sabia que parecia estranho: a decisão de manter uma testemunha viva.

Uma testemunha era um risco.

Elena era um risco.

Então, por que eu não mandei acabar com tudo ali mesmo?

O mais lógico seria ter puxado o gatilho, colocado uma bala em sua cabeça. Seriam dois corpos ao invés de um, mas não seria nada de novo.

Pela primeira vez em muito tempo, não tinha uma resposta satisfatória para mim mesmo.

Eu não tive coragem.

Essa é a verdade, nua e crua.

Não tive coragem de estragar seu lindo rosto. Não tive coragem de sequer levantar a voz, para a mulher que me olhava com medo, mas que não havia abaixado a cabeça. Que me encarou nos olhos.

E são raras as pessoas que o fazem.

Ela foi conduzida pelo corredor sem resistência. O olhar preso em mim por um segundo a mais do que precisava. Eu poderia ter virado o rosto. Não virei. Não quis virar. Não sei se foi só curiosidade ou uma forma distorcida de respeito.

Talvez ambas.

Talvez apenas a percepção incômoda de que ela estava tentando memorizar meu rosto do mesmo jeito que eu estava memorizando o dela.

E esse pensamento me acompanhou depois.

Me assombrou enquanto assistia o corredor sendo limpo, a suíte sendo tratada, meus homens circulavam de um lado para o outro, limpando os respingos, apagando as evidências, dois deles na porta do elevador, certificando-se que mais ninguém chegasse a aquele andar.

Em pouco tempo o corpo foi removido e o cheiro de pólvora ficou apenas na minha memória e no gosto metálico que sempre vem quando algo sai do controle.

Tudo voltou para as garras do controle absoluto. Como fora planejado para aquela noite.

Menos a minha cabeça.

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