Mundo de ficçãoIniciar sessãoMATTEO VASARI
Elena sustentou meu olhar por alguns segundos longos demais. Longos o suficiente para eu perceber o momento exato em que ela entendeu que qualquer resposta errada poderia mudar completamente o rumo daquela noite. Mesmo assim, não tentou me agradar.
Ela umedeceu os lábios devagar.— Você não deveria.A resposta me pegou desprevenido. Não pelo conteúdo. Pela honestidade.Normalmente, pessoas acuadas tentavam parecer úteis. Confiáveis. Inofensivas. Elena não. Ela parecia cansada demais para construir um personagem inteiro apenas para sobreviver.E aquilo… aquilo era perigosamente interessante.Por um momento tudo ficou suspenso, eu tentava entender se ela não tinha senso de sobrevivência ou se sua insolência era uma arma. Se estava sendo honestas… ou se tentava me manipular. Ela respirou fundo antes de continuar.— Você não me conhece. Eu não conheço você. — uma pausa curta. Os dedos apertaram o copo com mais força. — E acho que nós dois sabemos que sua confiança não mudaria nada aqui dentro.Os olhos dela voltaram para mim sem hesitação.— Se você decidir me matar, vai fazer isso independente do que eu disser.O apartamento mergulhou num silêncio estranho depois daquelas palavras. Cru. Sem maquiagem.Franzi as sobrancelhas a encarando enquanto processava suas palavras.Por um instante, tive a sensação incômoda de que Elena enxergava mais do que deveria. Não sobre os meus negócios. Não sobre o que eu tinha feito. Não sobre quem eu supostamente era… Não sobre aquela noite. Eu odiava quando me olhavam daquela forma… Quando pareciam ver alem do que deveriam.Inclinei levemente a cabeça, observando-a melhor.— Então decidiu aceitar a própria morte?— Não. — respondeu rápido. Limpo. — Mas também não vou me humilhar implorando por algo que talvez você já tenha decidido.Meu maxilar tensionou sem que eu percebesse.Havia orgulho nela. Não um orgulho arrogante. Era pior. Era dignidade. Uma dignidade um tanto tola, afinal vinha envolta em sua insolência e nessa língua ácida, que parecia não medir as próprias palavras. Aquele tipo de dignidade silenciosa e miserável que sobrevive mesmo depois que a vida arranca quase tudo de alguém. O que a forjou assim?— Você fala como alguém acostumada a perder. — não resisti em perguntar.Ela desviou os olhos pela primeira vez desde que entrara ali. Pequeno detalhe.Mas eu notei. Claro que notei.— Todo mundo perde alguma coisa — respondeu baixo.A frase deveria soar genérica. Para a minha surpresa não soou. Porque havia peso nela. Experiência. Uma exaustão antiga escondida entre as sílabas. Uma que claramente ela não deseja mostrar. Mas para alguém como eu. Alguém que depende de ler as pessoas para se manter vivo… Ficou cristalino. Claro. Fiquei observando seu rosto por alguns segundos, tentando entender por que aquela mulher parecia tão simples e ao mesmo tempo parecia carregar força demais dentro do próprio corpo.Ela parecia alguém que tinha aprendido a suportar dor sem fazer barulho.E isso mexeu comigo de um jeito profundamente inconveniente.De um jeito denso. Sujo. Ou melhor… Podre. Passei a mão devagar pela barba, tentando reorganizar os pensamentos. Erro.Essa porra toda era um erro. Um dos grandes. Uma porra de erro enorme. Mesmo assim, eu estava aqui. A ouvindo. A questionando. Ansiando por ouvir sua voz inquebrável e suas palavras que só me prendiam mais em uma teia de interesse sujo.
Mantê-la viva.Trazê-la até ali.Continuar falando com ela em vez de resolver o problema da maneira mais simples. E a única que eu conhecia de calar pessoas… Com uma bala. Erros.Erros.E mais erros.Mas quanto mais eu olhava para Elena, menos ela parecia um problema comum.Ela parecia uma rachadura.Uma pequena fissura surgindo num lugar da minha vida onde nada deveria quebrar.— O que você faz exatamente no hotel? — perguntei.Ela demorou um pouco para responder. Como se tentasse entender onde existia armadilha naquela pergunta.— Restauro.— Isso eu já entendi.Os olhos dela estreitaram minimamente.— Obras antigas. Pinturas. Esculturas às vezes. Documentos também, dependendo do estado. — soltou uma respiração pesada, longa, desaforado. Como se a custasse ter que explicar. Como se fosse uma resposta óbvia que não merecesse ser mencionada. E obviamente isso não respondia minhas perguntas. Não entregava o que eu queria. Um motivo para desconfiar dela de uma vez e a eliminar.Levei os dedos para a ponte entre os olhos, apertando-a e me virando para a cozinha novamente, dando-lhe as costas e deixando-a sem uma resposta por agora. Servi-me com uma dose de whiskey, enchendo metade do copo redondo de cristal. Virando o conteúdo de uma única vez, deixando que o líquido queime minha garganta e encontre o caminho até dentro de mim. Servi-me de uma segunda rodada. Demorando-me a cada etapa, como se isso fosse me ajudar em alguma coisa, antes de voltar à sala. Elena estava imovel no mesmo lugar. O copo de água ainda em seus dedos, o vidro levemente embaçado pelo calor de sua palma. — Não está envenenada. É só agua. – soltei de forma displicente e rouca, apontando para o copo em suas mãos com o meu próprio. Seus olhos desceram para o recipiente em sua mão, mas não fez qualquer menção em beber. Por fim subiu as esferas escuras de volta para mim. Ela não sorriu. Mas algo no rosto dela pareceu ceder um milímetro. Cansaço, talvez. Ou a simples exaustão de quem percebe que não está diante de um monstro comum, mas de algo pior: um homem que escolhe demais.Meu telefone vibrou. Olhei a tela. Mensagem de Lorenzo. Isso me bastou para fechar o rosto na mesma hora.Elena percebeu, é claro. Não perguntou nada. Apenas ficou imóvel, observando a alteração em mim com a mesma atenção de antes. O nome do meu primo sempre trazia um gosto amargo. Lorenzo era inteligência sem lealdade suficiente. Um sorriso bonito com intenção podre por trás. Se ele já soubesse da situação, meu dia acabaria pior do que começara.Bloqueei a tela.— Você eram inimigos? — perguntou Elena.A pergunta veio simples demais. Quase inocente. Quase fora de hora. Entendi imediatamente que se referia ao homem que me viu matar. Eu a encarei.— Todos têm inimigos, Elena. — Isso não responde. — sendo atrevida mais uma vez. — É a única resposta que você precisa.Ela sustentou meu olhar sem vacilar, e eu senti novamente aquele desconforto estranho, como se ela me obrigasse a considerar o que eu normalmente não considerava. Não a própria culpa. Não a própria violência. Mas o efeito dela sobre os outros.Elena parecia perceber o que eu preferia esconder. E isso era intolerável.Ou deveria ser. Por isso, evitar suas perguntas parecia o melhor caminho por enquanto.— Você vai ficar aqui esta noite — eu disse.Ela não protestou.— E amanhã?— Amanhã eu decido. Está viva por hoje. Deveria focar nessa parte. A resposta saiu mais dura do que eu pretendia.Talvez por isso ela tenha me olhado por um instante com uma expressão que eu ainda não sabia nomear. Não medo. Não raiva. Alguma coisa no meio. Algo que parecia entender o suficiente para me odiar um pouco. O canto de meus lábios quase se elevou com essa constatação. Finalmente parecia ter algo de comum nela. Sou capaz de contar nos dedos aqueles que não me odeiam por algum motivo.Mandei uma mensagem rápida para o primeiro número na minha lista de contatos. E me virei deixando-a por um tempo para que processasse toda a situação. Um ato pequeno. Mas o mais perto de gentileza que eu seria capaz de oferecer. Menos de cinco minutos depois, ouvi três batidas ritmadas na porta. Sem demora e engolindo o último gole da minha bebida fui até a mesma, abrindo-a me deparei com um dos meus homens, o moreno de olhos escuros era um rosto já conhecido. Um dos meus homens da primeira linha. Disse para que passasse para a equipe, deveriam reforçar a segurança no prédio. Duas rondas extras. Controle total do acesso. Celulares bloqueados. Ninguém entrava sem minha autorização. Ninguém saía sem que eu soubesse. A “testemunha” não tinha autorização para deixar a cobertura. Não deveriam a direcionar a palavra, tão pouco entrar no apartamento sem necessidade alem das verificações. — Acima de tudo, não toquem nela. Não me interessa se é para contenção, para auxílio. Ou por qualquer outro motivo. Cada fio de cabelo a menos em sua cabeça — fiz uma pausa encarando o homem à minha frente, os olhos escurecendo — será um dedo a menos na mão do responsável. Elena escutava tudo em silêncio, o copo ainda pela metade, os ombros tensos sob o tecido escuro da roupa manchada de tinta.Para ser franco, nem eu mesmo entendi a natureza da minha ordem. A única coisa que minha mente levou em consideração é o quanto minha equipe costumava ser… direta. Em outras palavras. Agressivos.
Então precisava ser claro. Mesmo assim. Depois de cospir as palavras… Me senti… estranho. Porque diabos eu estava me preocupando? Porque caralhos o meu primeiro pensamento foi a possibilidade de alguem a machucar?A verdade era essa. Eu não estava apenas escondendo Elena. Estava protegendo algo que eu ainda não entendia bem o suficiente para nomear. Talvez fosse a testemunha. Talvez o problema. Talvez o incômodo novo que ela havia plantado em mim sem pedir licença.Talvez fosse o modo como ela permanecia inteira sob pressão.Talvez fosse a forma como meu olhar continuava voltando para ela como se ela fosse a única coisa viva em um ambiente que tinha parado de respirar horas antes.Eu me aproximei devagar até parar diante dela.Elena ergueu o rosto, mas não recuou. Os olhos dela eram cor de mel, cansados e firmes ao mesmo tempo. Havia tinta seca perto da lateral dos dedos, uma pequena mancha na manga, e o contraste entre delicadeza e desgaste me atingiu com força demais.Eu devia estar pensando no perigo.Em vez disso, pensei em como ela ficaria dormindo naquele sofá, ainda com o corpo tenso, ainda fingindo que poderia suportar tudo sozinha.Não vai conseguir fugir de mim tão cedo.A ideia não veio como ameaça.Veio como constatação.E esse foi o momento exato em que a noite mudou de forma dentro de mim.Não porque Elena tivesse feito algo extraordinário. Não porque ela tivesse me seduzido, ou tentado, ou encenado qualquer fraqueza conveniente. Mas porque ela me olhou com fogo nos olhos. Silencioso e calmo. Mas ainda sim, fogo. Mas nada disso tinha haver com desejo… Desejo é fácil de identificar. O que me queimava não era tão fácil, tão claro. O que começou a se formar quando ela respirou fundo para não tremer diante do cadáver atrás de mim era outra coisa. Mais lenta. Mais perigosa. Algo que não pedia. Mas que se crava aos ossos. Eu olhei para as mãos dela mais uma vez e imaginei, contra a minha vontade, aquelas mesmas mãos restaurando alguma pintura antiga, alguma coisa quebrada que o tempo não conseguiu acabar de destruir. A ideia deveria ter sido banal. Não foi. Ela ficou gravada em mim como uma falha. Como uma marca. Como uma presença que eu ainda não sabia como expulsar. E, pela primeira vez em muito tempo, eu entendi que talvez eu não estivesse levando Elena para um lugar seguro. Talvez eu tenha a trazido para mais perto do perigo. De mim..







