Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA SOFIA BIANCHI
— Matteo, por favor— a voz do homem soava apavorada. O disparo atravessou o corredor seco e violento, explodindo dentro do meu peito como se tivesse atravessado meu próprio corpo. Abafei a respiração com a mão antes que algum som escapasse. Meu coração bateu tão forte que chegou a doer fisicamente. O homem caiu para trás imediatamente. O silêncio seguinte foi horrível. Sepulcral e sufocante. Nem mesmo a chuva parecia existir mais. Havia se recolhido, perante ao que acabou de acontecer. Como se até mesmo ela temesse se meter nesse assunto. Fiquei encarando o corpo no chão enquanto uma pressão absurda tomava meus ouvidos. Eu não conseguia ouvir mais nada além de um zunido, longo e constante e meus próprios batimentos, que agora eram lentos, mas fortes o suficiente para doer. Então Matteo virou o rosto devagar. Muito devagar. Como se já soubesse, como se sentisse… E seus olhos tão frios encontraram os meus tomados pelo horror. Os olhos dele eram quase pretos naquela luz. Não pela cor. Pela ausência completa de suavidade ou de qualquer emoção. Senti o mundo inteiro afundar dentro do meu estômago... Porque naquele instante eu entendi uma coisa com clareza brutal: Para ele… Agora eu sou um problema, e eu deveria morrer agora. O tempo pareceu ficar suspenso, nenhum novo som foi produzido. A cada segundo, a cada batida do meu coração, um quilo a mais era colocado sobre meus ombros. Ao ponto de se tornar quase impossível não me encolher. Mas ele não se moveu. Matteo ficou parado por um segundo longo demais, como se medisse a distância entre o corpo caído e a mulher escondida sob a folha da porta. Não havia espanto nele. Não havia pressa. Havia cálculo. Um tipo de atenção gelada que me fez sentir exposta de um jeito pior do que se estivesse nua. Meu peito subia e descia em um ritmo quebrado. Tentei puxar o ar, mas parecia que o corredor inteiro tinha ficado mais estreito. Minha mão ainda estava presa à parede. Meus dedos estavam gelados, crispados no concreto como se ela pudesse ser minha salvação. A bolsa pendurada no ombro pesava como chumbo. Ele deu um passo na minha direção. Enquanto abaixava o braço que ainda mirava a arma em direção ao corpo agora sem vida. Foi pouco. Só um movimento. Ainda assim, meu corpo inteiro reagiu como se eu tivesse ouvido o estalo de uma arma sendo engatilhada. Como se qualquer mínimo movimento seu fosse a linha que finalizaria meu destino. — Você viu alguma coisa? — a voz dele veio baixa, simples. Não era uma pergunta feita para receber resposta. Era uma sentença em formação. Uma linha sendo escrita no livro dos destinos. E com meu estômago dando voltas, não conseguia raciocinar qual deveria ser a resposta. Se é que existia alguma. Abri a boca, mas nenhum som saiu. O que eu estava vendo não era apenas um homem perigoso, não era simples assim. Era o tipo de homem que não precisava levantar a voz para dominar uma sala inteira. O tipo de homem que fazia a violência parecer inevitável, como se o mundo inteiro tivesse sido desenhado para obedecer a ele. Meu coração martelava tanto que pensei que fosse desmaiar. — Eu... — tentei. A palavra morreu antes de nascer. Matteo inclinou o rosto de leve, e só então percebi o detalhe mais perturbador: ele não parecia irritado por ter sido pego. Parecia curioso. Como se eu fosse um problema novo, uma variável inesperada dentro de uma equação já cruel o bastante. A arma continuava baixa na mão dele. A mulher dentro de mim queria fugir. O corpo inteiro gritava para correr. Mas havia outra coisa, menor e mais insuportável, me prendendo ao lugar. A certeza de que qualquer movimento errado me mataria. Não porque ele estivesse gritando. Não porque ele estivesse agitado. Na verdade era justamente porque não estava. — O que faz aqui? — ele disse. A frase me atingiu de forma absurda, o simples som da sua voz já me empurrava para baixo. Eu tinha uma resposta, uma desculpa. Eu tentei me agarrar a isso. Que minhas desculpas seriam o suficiente. Milhares delas passaram na minha cabeça. — Eu trabalho aqui. — Engoli em seco. A resposta saiu fraca. Humilhantemente fraca. Os olhos dele desceram por mim por um instante rápido, avaliando meu uniforme manchado de tinta, os cabelos presos de qualquer jeito, o rosto provavelmente pálido demais. Depois voltaram para os meus olhos. — Nome. A ordem veio sem força, sem pressa, sem qualquer traço de brutalidade explícita. Ainda assim, não havia espaço para recusa ou questionamento. Tudo em mim vacilou. Meu nome parecia pequeno demais para aquele corredor, pequeno demais para o homem morto no chão, pequeno demais para o tipo de silêncio que existia entre nós. Pequeno demais. Descartável demais. — Elena — respondi por fim. Algo quase imperceptível mudou no rosto dele. Não era ternura. Não era alívio. Mais um gole daquela curiosidade cruel que cruzou seus olhos momentos antes. Não. Aquilo era impossível. Eu não era ninguém. Uma restauradora cansada, escondida no trabalho noturno, tentando não pensar demais no próprio passado. Não havia motivo para que Matteo Vasari me olhasse como se eu tivesse acabado de puxar algum de seus fios. O homem morto atrás dele parecia ter deixado de pertencer ao mundo. Mas eu ainda pertencia. E isso, de alguma forma, parecia mais perigoso. Matteo guardou a arma com um movimento lento, quase elegante, o que tornou tudo ainda pior. O corpo no chão continuava lá, o sangue começando a se espalhar discretamente pelo mármore claro, e ele agia como se estivesse apenas encerrando uma reunião ruim. Como se não tivesse um corpo caído logo ao seu lado. — Você vai esquecer o que viu — disse ele. A voz estava no mesmo tom baixo de antes, controlada como lâmina. Eu quase ri de nervoso, mas a reação morreu antes de sair. Esquecer? Não havia chance. Meu cérebro já estava gravando cada detalhe com uma precisão cruel. O terno impecável. O cheiro de fumaça e couro. A calma monstruosa. O corredor silencioso. O som do disparo. O olhar dele em mim. O sangue se espalhando pelo chão. O cheiro metálico… Minha garganta secou. — Eu não vou contar para ninguém. Foi a única coisa decente que consegui dizer. Matteo me observou em silêncio por um tempo longo demais. — Não perguntei isso. A resposta atravessou-me como um arrepio frio. Entendi, naquele instante, que ele não queria apenas saber se eu falaria. Queria saber se eu era uma ameaça. Se eu era útil. Se eu era descartável. Talvez as três coisas ao mesmo tempo. Os passos dele voltaram a ecoar no cômodo amplo, dessa vez na minha direção. Eu me obriguei a não recuar, embora cada músculo pedisse isso em desespero. Matteo parou a menos de um metro de mim. De perto, era pior. Alto demais. Grande demais. O tipo de presença que distorcia o espaço ao redor. Havia uma cicatriz discreta perto da clavícula que eu só percebi porque a gola da camisa tinha se movido um pouco com o gesto. O rosto era bonito de um jeito ofensivo, quase cruel. Não bonito como homens de revista. Bonito como algo que poderia arrancar sua alma, apenas por existir perto dele. — Olhe para mim, Elena. Eu obedeci antes mesmo de perceber que estava obedecendo. Os olhos dele eram escuros, mas não vazios. Havia algo ali, enterrado sob a superfície fria, que eu não consegui identificar de imediato. Exaustão talvez. Ou uma forma de violência tão antiga que já tinha se transformado em disciplina. O que quer que fosse, me atingiu com uma força inesperada. Matteo parecia o tipo de homem que sobrevivia carregando peso demais sozinho. E isso era um pensamento perigoso para um homem com o seu poder. — Você vai me dizer exatamente o que faz aqui. — continuou. — E vai fazer isso sem mentir. Seu tronco inclina em minha direção, os olhos escuros não desviam dos meus. Causando uma rigidez absurda em minha espinha. — Eu trabalho aqui… na… — Minha voz falha, quebra entre uma palavra e outra. Como se minha lingua se esquecesse de como formar palavras. — recepção… mas… Minha hesitação parece o cutucar, uma vez que seus olhos escurecem ainda mais. Ele inclina a cabeça para o lado, a sombra se curva cobrindo parcialmente sua face. O que trouxe um ar ainda mais sombrio ao homem à minha frente. — Os quadros… — me apresso. — que são trazidos para decorar o hotel, eu os restauro… e… Minha mente destrinchava formas de me manter viva, respostas funcionais, agradáveis, algo que me trouxesse algum valor. Ele ficou em silêncio por dois segundos. Dois longos segundos. — Não deveria estar aqui. Meu corpo inteiro parecia ter virado tensão pura. O medo não estava mais em crise. Estava concentrado. Compactado. Vivo. — Eu não quero problemas — murmurei, e a frase saiu mais honesta do que eu gostaria. — Me… Mandaram ficar com o quarto ao lado, por conta de um dos quadros… eu… Os olhos dele desceram outra vez para minhas mãos manchadas de tinta, depois subiram com lentidão suficiente para me fazer sentir examinada de dentro para fora. — Problemas já te encontraram. Não respondeu como um homem ameaçando. Respondeu como alguém constatando um fato. O corredor parecia mais frio agora. Ou talvez fosse só a minha pele reagindo ao choque. Ou ao corpo morto a poucos metros de distância. Ou à sensação absurda de que, naquela noite, eu tinha cruzado para dentro de um lugar do qual não voltaria inteira. Matteo tirou o celular do bolso com a mesma calma com que havia guardado a arma e digitou alguma coisa sem desviar os olhos de mim por muito tempo. Não me encerrou por nem dez segundos antes que eu começasse a ouvir passos no fim do corredor. Segurança. Dois homens. Rapidíssimos. Já vinham. Ele percebeu minha reação e falou antes que eu abrisse a boca. — Eles não viram você. — O quê? — Se você correr agora, vai chamar atenção. Se ficar, talvez viva. A frase caiu entre nós com o peso de uma decisão impossível. Meu peito apertou. E a confusão me tomou por completo. Não sabia sobre quem ele falava, tampouco porque outra pessoa poderia ficar incomodada com a minha presença, além dele. Eu olhei para o homem caído no chão, depois para Matteo, e senti a realidade se reorganizar dentro de mim de maneira brutal. Não havia saída limpa. Não havia racionalidade. Não havia coragem suficiente para transformar aquilo em algo suportável. Os seguranças já estavam perto. Eu ouvi o som das solas no mármore. Ouvi uma voz ao longe perguntando se havia problema. Matteo permaneceu exatamente onde estava, como se a cena inteira lhe pertencesse. Então, de maneira quase imperceptível, ele inclinou o rosto na minha direção e disse, baixo o bastante para que só eu ouvisse: — Não diga seu nome para mais ninguém esta noite. Há um rato em meio aos meus negócios. E ele tem um gosto… — sua voz cai ainda mais, enquanto os lábios quase encostam em meu ouvido. — em mover minhas peças. Pode te ver como uma delas. O aviso me percorreu como um choque. Quando os homens da segurança apareceram na entrada do corredor, Matteo já estava outra vez perfeitamente composto. Terno alinhado. Expressão controlada. Presença imóvel. O cadáver continuava no chão, mas até aquilo parecia, naquele instante, um detalhe secundário diante da autoridade fria que ele exercia sobre o espaço. Ele indicou a parede oposta, com um movimento das mãos. Imediatamente entendi seu comando silencioso, dando alguns passos travados para trás, até encostar na parede oposta. Em seguida, cruzou o limiar da porta por fim. E a puxou fechando-a, como se tivesse todo tempo do mundo. Um dos seguranças lançou um olhar rápido para mim e pareceu hesitar. Matteo falou primeiro. — Leve-a daqui. A ordem saiu baixa, limpa, definitiva. O homem assentiu sem discutir. Só então compreendi a verdadeira tragédia daquela noite. Eu não tinha sido descoberta por acaso. E Matteo Vasari, por algum motivo que eu ainda não entendia, acabara de decidir que eu continuaria viva.






