Capítulo 4

MATTEO VASARI

Antes de sair do local que dei um fim ao rato, ordenei que vasculhassem os quartos ao lado e procurassem pela tal pintura que Elena alegava estar trabalhando.

Não que duvidasse de suas palavras, elas me convenceram pela forma que foram ditas. Mas parte de mim ainda precisava ver com os próprios olhos, e algo que aprendi com os anos… É que essa voz sempre deve ser ouvida.

Cuidado nunca é demais

Não demorou muito para que um dos meus homens me chamasse, alegando ter achado. Era uma suite duas portas ao lado.

Adentrei a tal suíte e deixei a porta se fechar atrás de mim.O silêncio ali dentro tinha voltado ao normal, mas já não parecia o mesmo.

A pintura restaurada estava sobre a mesa, coberta com um pano fino. Havia uma caneca com café que já tinha esfriado, logo ao lado. O ar-condicionado soprava uma brisa constante que me irritava os nervos, frio demais. Quase transformando o quarto em um frigorífico.

Tudo estava em seu lugar, e, ainda assim, sentia como se a cena no corredor deixasse uma marca invisível em cada objeto.

Larguei minha arma sobre a mesa, enquanto andava pelo lugar. Voltando os olhos para o quadro coberto, hora ou outra. 

O nome do homem morto não importava mais. O que importava era o que ele havia feito. Politicamente, financeiramente, dentro da minha família, qualquer vazamento daquele tipo era veneno.

Se eu não resolvesse a origem da sua traição, outros tentariam usar isso contra mim logo menos, isso era outro dos detalhes que rondava minha mente. Alguns corajosos poderiam até se mover antes do sol nascer novamente.

Poucos homens teriam a coragem cega e tola de contratar um dos meus para me trair dessa forma. O homem que perdeu a vida ontem é uma peça. O que implica em ter outros acima dele.

E qualquer outro rato infiltrado entre meus homens perceberia isso assim que a notícia se espalhasse. Procurariam quem é esse “comprador”, sei disso. E preciso estar pronto para tal.

O problema ainda existe. 

Derrubar um peão não garante a captura de um rei.

Peguei o telefone e mandei duas mensagens curtas enquanto rondava o quarto de um lado para o outro, como se isso colocasse minha cabeça no lugar.

A primeira para preparem um carro.

A segunda para descobrir tudo sobre a mulher que havia me visto matar.

A paranoia que me colocou onde estou é a mesma que morde os cantos da minha mente nesse momento.

Fui para o carro trinta minutos depois, ainda com a chuva escorrendo pela cidade. Milão parecia mais vazia àquela hora, embora nunca estivesse realmente vazia. O vidro blindado devolvia meu reflexo em fragmentos escuros.

O motorista mantinha a respiração controlada como sempre fazia quando eu estava dentro do veículo. Nenhuma pergunta. Nenhum comentário. Inteligente.

Mas minha mente não estava no vazamento, nem no homem que havia vendido informação, nem na reunião marcada para o início da manhã com pessoas que eu já conhecia muito bem, o tipo que  sorriria demais e mentia melhor ainda.

Enquanto a calmaria do trajeto se envolvia e tudo o que preenchia o veículo era o ronco baixo e já conhecido do motor.Minha mente voltava a Elena.

Os dedos manchados. O rosto cansado. O olhar fixo. A maneira como o medo parecia ser apenas uma camada superficial sobre algo mais profundo e resistente. Havia mulheres que tremiam e se desfaziam diante de mim. Havia homens que se faziam de valentes e imploravam no minuto seguinte. E havia Elena, quieta demais, tentando manter a própria existência intacta dentro de um corredor onde eu havia matado alguém diante de seus olhos.

Ela não combinava com aquele lugar.

Pensei.

O Hotel Vasari engolia pessoas como fumaça. Elena não parecia feita para aquele tipo de mundo. Não parecia comprada, moldada, nem treinada para ser devorada facilmente. Muito menos uma devodora.

Parecia alguém que ainda carregava uma parte de si fora do alcance de meus homens, da minha família, das mentiras que sustentavam aquele prédio inteiro.

Isso era perigoso.

E talvez por isso tenha começado a me incomodar tanto.

O pior é que eu acredito profundamente que ela sequer tem noção do valor disso. Do poder disso.

Quando chegamos ao prédio seguro, a chuva tinha engrossado. O lugar ficava afastado, em uma rua silenciosa, perto o suficiente do centro para ser útil e longe o bastante para parecer invisível. Era uma cobertura controlada por mim, usada para situações como aquela. Emergências. Ocultação. Proteção.

Proteção.

A palavra ecoava na minha cabeça, deixando um gosto amargo na lingua e com um peso que parecia fora de lugar.

Desci primeiro e entrei sem esperar o guarda terminar de abrir a porta.

O apartamento estava escuro, mas não vazio. Luzes mínimas acendiam conforme eu atravessava o corredor. Madeira escura, sofá de couro, janelas amplas, cozinha silenciosa, um único arranjo de flores frescas na mesa. Nada que denunciasse uso frequente. Nada que denunciasse sentimento. Apenas função.

Quando Elena entrou com a escolta, parecia ainda menor dentro daquele espaço. Não frágil. Menor. Como se o apartamento tivesse sido desenhado para homens acostumados a andar sem pedir licença.

Ela parou perto da porta sem tocar em nada.

A primeira coisa que fez foi observar a saída. Depois a janela. Por fim a mim. Tudo em silêncio. Sem histeria. Sem a surpresa teatral que eu esperava. Tudo isso sem sair do seu lugar, sem denunciar o que fazia.

Isso me fez a olhar novamente.

— Está assustada? — falei.

Ela ergueu os olhos na mesma hora.

— Eu estou com medo da situação.

A resposta veio firme demais para alguém que acabara de testemunhar uma execução, e que havia sido trazida por homens altos, armados e com rostos de poucos amigos.

Eu a encarei por um instante mais longo do que deveria.

— Da situação, então.

— Vai dizer que eu não deveria? – seu tom beirou a insolência.

Havia uma aspereza contida na voz dela. Não agressividade. Defesa. E, por algum motivo, essa pequena resistência me pareceu quase mais íntima do que a submissão de costume.

Fui até a cozinha, peguei um copo de água e entreguei a ela. Elena hesitou antes de aceitar, como se o gesto em si carregasse uma armadilha. Seus dedos encostaram nos meus por um segundo. Foi breve. Quase nada.

Ainda assim, eu senti.

Ah… eu senti.

A pele dela estava fria. Mais fria do que deveria estar em um lugar tão quente. Mas a mão não tremia como eu esperava. Havia controle ali, fraco… Mas havia. Um esforço visível para permanecer íntegra.

Era quase belo.

— Sente — eu disse, apontando para o sofá.

— Não vou fugir pela janela — ela respondeu.

A frase saiu seca, quase sem cor.

Percebi, então, que ela fazia isso de propósito. Mantinha a voz estável como se a estabilidade fosse uma prova de que ainda tinha algum poder sobre si mesma. Isso me interessou contra a minha vontade.

— Não seria inteligente — respondi.

Ela soltou um ar curto que quase podia ser uma risada, mas não chegou a nascer por completo.

Sentou-se na ponta do sofá, reta demais para parecer à vontade. O copo entre as mãos. O olhar atento demais para eu fingir que não percebia. Fiquei em pé por alguns segundos, observando-a em silêncio, até ela levantar a cabeça como se sentisse o peso da minha atenção.

Ela olhava para o copo como se ele fosse a morder. Fazia isso sem me tirar por completo de seu campo de visão.

— E aqui que você vai me matar? — perguntou.

A pergunta me divertiu de um jeito sombrio.

Parte pela franqueza. Parte pela forma que ela perguntou.

— Não está nos meus planos. Ainda. – mantive meus olhos presos aos dela.

Ela piscou devagar, como se odiasse o fato de eu ter respondido sem esforço. Ou talvez minha resposta tenha acendido algumas luzes dentro da sua cabecinha.

— Isso deveria me acalmar?

— Não. Também não tenho essa intenção ainda. Eu teria algum motivo para te acalmar?

O silêncio que veio depois foi espesso. Ouvi a chuva contra as janelas. O relógio na parede. O eco distante da cidade além do vidro. Elena girava o copo nas mãos sem beber.

— O homem do corredor... — ela começou, e parou.

— Está morto.

Ela baixou o olhar por um instante.

—  Céus… 

Havia náusea na forma como disse, mas não descontrole. Algumas mulheres realmente acostumadas ao medo não costumam ficar tão chocadas com a morte. Normalmente ficam mais silenciosas. Mais lentas. Mais seletivas com as palavras.

Elena tinha esse tipo de silêncio agora.

— Você conhecia ele? — perguntou.

— Não além do necessário.

Ela ergueu os olhos de novo, como se entendesse que eu tinha acabado de dizer a verdade mais perigosa possível.

Era assim que a maioria das pessoas importantes terminava na minha lista. Úteis antes. Descartáveis depois.

Ela pareceu entender isso, ou algo próximo disso, apenas com alguns segundos. 

— E você? O conhecia? — Semicerro os olhos, inclinando-me sutilmente em sua direção.

Elena pareceu travar por um momento. Uma pequena rachadura em sua armadura ficou exposta. Não uma barulhenta. Mas foi o suficiente para que eu a enxergasse. Como se meus olhos já soubessem exatamente onde procurar.

— O que? Não! — engasgou com as palavras, tomada pelo choque por um segundo.

Não tirei os olhos dela, não conseguiria. Via com meus olhos o surgimento de mais uma de suas camadas e por algum motivo eu estava muito curioso, muito interessada nela. E amargurava-me pensar que essa minha atenção estava indo além do necessário para uma conversa “convencional”.

— Como eu o conheceria? — se apressou em continuar, quando não encontrou nenhuma mudança ao me analisar.

— Disse que trabalhava no Hotel. — as palavras escorrem secas de meus lábios, sem que eu faça esforço para suavizar o tom rouco e arranhado. — Não trabalha, Elena?

O silêncio pesou após minhas palavras deixei que um fio de tensão e algo que flertava com desconfiança escorresse misturada as últimas palavras, apenas para testar um pouco a mulher a minha frente.

— E eu trabalho! — sua resposta foi rápida, clara. Mas notei um pequeno tremor em sua voz.

— E nunca o viu lá? — pesei um pouco mais na minha voz, dando um curto passo em sua direção.

— Não sei ao certo. — soou franca. Sua mente parecia trabalhar a mil por hora. Quase consigo ver sua mente rodando entre os rostos que passaram diante de si nos últimos dias.  — Mesmo que… o conheça de vista. Acredito que mesmo assim não seria capaz de o reconhecer.

— Ou… Quer me convencer que não seja capaz?

Dou mais um passo em sua direção, descendo os olhos para analisar seus dedos tensos sob o vidro do copo.

— Não tenho porque mentir. — o tom seco retornou. Como se eu acabasse de cutucar um animal ferido, que deseja mostrar os dentes na esperança de afastar seu predador.

Ah… Eu gostei disso.

— Você é uma testemunha. Uma que foi vista. Uma que está presa e aos meus… Cuidados. — enfatizo a palavra, deixando que saia como um rosnado entre meus dentes. — Eu diria que alguém na sua situação utilizaria de qualquer mentira que garantisse sua sobrevivência.

Seus olhos âmbar se injetaram em minha direção. Me fuzilando. Havia um fogo ali. Um que deveria ter morrido no corredor, que não deveria sequer existir. Mesmo assim. Ali estava ele camuflado entre camadas de medo.

— Eu não… — interrompi sua fala com um movimento de dedos. Seus lábios vermelhos ainda ficaram abertos alguns segundos antes de finalmente se fecharem.

— Porque eu deveria confiar em suas palavras, Elena?

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LannaAiiii…. “Porque eu deveria confiar em você Elena?”
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