A funcionária olhou para a jovem à sua frente, que mal tinha passado dos vinte e já aparecia ali com um pedido de destruição total dos próprios dados de identidade. Ela ficou genuinamente surpresa.
Solange Amado assentiu com a cabeça. A voz dela saiu suave, mas firme:
— Eu tenho certeza.
Quando a funcionária ouviu a resposta, ela finalmente recolheu os formulários e carimbou os papéis:
— O processo de destruição dos seus dados vai levar cerca de quinze dias. A senhora precisa aguardar com um pouco de paciência.
Solange não ficou ali nem um segundo a mais. Ela se virou e deixou o salão da repartição. Ela caminhou só alguns metros, pegou o celular e fez alguns ajustes no celular. Pouco depois, ela recebeu uma mensagem da companhia aérea confirmando a compra da passagem:
[Compra de passagem confirmada com sucesso.]
Quando ela terminou de resolver tudo isso, ela chamou um carro de aplicativo e voltou para o Condomínio Serra.
O veículo seguiu em direção ao condomínio de luxo. Não demorou para que o carro tivesse de parar. A partir dali, só era permitido o acesso de veículos autorizados. A casa luxuosa de Bento Mota ficava a pouca distância daquele ponto. Solange desceu e seguiu sozinha, devagar, pelo caminho à frente.
Ela não tinha andado muito quando o olhar dela foi atraído por um Maybach estacionado na lateral da rua.
A carroceria do carro tremia de um jeito tão intenso e sugestivo que qualquer um entenderia o que estava acontecendo ali dentro. O vidro estava meio abaixado e, pela abertura, apareciam as silhuetas de um homem e de uma mulher.
O homem, muito bonito, estava recostado no banco, com um cigarro entre os dedos. O paletó do terno estava aberto de qualquer jeito. Ele segurava a cintura da mulher com uma das mãos, guiando os movimentos para cima e para baixo. Com a outra mão, ele abaixava um pouco mais o vidro para fora e esmagava a bituca, apagando o brilho laranja do cigarro.
Na mão dele, de dedos longos e ossudos, brilhava uma aliança de casamento. Por dentro, estavam gravadas duas letras: SA.
Solange Amado.
O corpo de Solange tremeu de leve. Ela pegou o celular, encontrou o número que tinha ficado fixado no topo das conversas por sete anos inteiros e decidiu ligar.
Do outro lado, ele atendeu quase na mesma hora. A voz de Bento, naturalmente doce, veio pelo alto-falante com uma rouquidão estranha:
— Meu Amor, o que foi?
— Você está na empresa? — Ela não respondeu à pergunta dele. Os olhos dela começaram a arder, tomados por uma umidade discreta. Ela fingiu naturalidade e soltou a frase como se fosse um comentário qualquer.
— Tô, sim. — Do outro lado da linha, veio uma risada baixa, seguida de um tom ainda mais gentil, quase carinhoso demais. — Você já tá com saudade de mim, né? Me perdoa. Hoje as coisas aqui ficaram meio corridas. Eu sei que é chato pra você, mas espera só mais um pouquinho em casa. Eu já tô indo pra aí.
Ela não disse mais nada. Ela apenas encerrou a ligação.
No exato momento em que a chamada caiu, o Maybach em que Solange mantinha os olhos fixos voltou a sacudir com força, ainda mais do que antes. Ela engoliu o gosto amargo que subia pela garganta, virou de costas e foi embora, recusando-se a olhar de novo para aquela cena.
Uma hora depois, o grande portão do Condomínio Serra da família Mota se abriu de repente.
Bento entrou às pressas. Ele trazia um buquê de rosas em plena floração em um dos braços e, na outra mão, uma caixa de doces finos.
Na sala, Solange não se levantou para receber o marido como fazia sempre. Ela continuou sentada sozinha no sofá, imóvel, como se não tivesse escutado o barulho da porta nem percebido a chegada dele.
O rosto de Bento estava tomado por um ar de culpa e de quem queria se redimir. Ele se aproximou dela, falando baixo e roubando beijos:
— Amor, hoje pintou uma reunião de última hora da qual eu não tinha como sair. Por isso eu cheguei um pouco mais tarde. Eu aceito qualquer castigo que você quiser me dar, tá bom?
Solange abaixou o olhar. Os olhos dela caíram sobre o peito dele, onde a camisa social aberta deixava à mostra uma região marcada por beijos, uma sequência de manchas arroxeadas e vermelhas. Ela perguntou em voz baixa:
— Bento, você ainda me ama?
Ele não se deu conta de que os beijos no peito tinham ficado completamente expostos. Quando ele ouviu a pergunta dela, ele entrou em pânico. Ele a abraçou com mais força:
— Por que você veio com uma pergunta dessas, do nada? É claro que eu te amo. O mundo inteiro sabe que eu sou louco por você, que eu amo você mais do que a minha própria vida. Como é que eu não ia te amar?
A resposta de Bento fez Solange esboçar um sorriso de canto, um sorriso de puro sarcasmo contra ela mesma.
Era verdade. O mundo inteiro sabia. Todo mundo comentava que Bento era perdidamente apaixonado pela esposa, Solange, e que, por ela, ele seria capaz até de entregar a própria vida.
Ela, porém, sabia que o próprio mundo dela nunca tinha sido bonito.
A família em que ela tinha nascido era um desastre. Desde que ela se entendia por gente, os pais dela viviam em briga constante. Quase todos os dias havia discussão. Quando a coisa passava de um certo ponto, os dois partiam para a agressão física. Eles quebravam panelas, destruíam pratos, arremessavam o que aparecesse pela frente. Algumas vezes, eles chegaram a pegar arma de fogo, com o olhar tomado de ódio, como se quisessem mesmo matar um ao outro.
Solange cresceu ouvindo os pais brigarem por qualquer coisa. Só que, toda vez que eles terminavam uma discussão, eles corriam para chorar na frente dela e reclamar. Eles diziam que, se não fosse por ela, eles já teriam se divorciado há muito tempo.
Ela cresceu nesse clima sufocante e, finalmente, no primeiro ano do ensino médio, ela viu o que mais esperava acontecer: os pais se separaram. Por causa disso, ela passou a ter uma aversão quase doentia a relacionamento. Mesmo que, desde criança, inúmeros garotos corressem atrás dela, ela nunca cogitou namorar ninguém.
Foi justamente nessa época que Bento apareceu. Ele se apaixonou por ela à primeira vista e não desistiu de conquistá-la.
Ele se declarou setenta e oito vezes. Ela recusou as setenta e oito.
Até que, um dia, eles sofreram um acidente de carro. Naquele segundo entre a vida e a morte, ele nem pensou: ele jogou o corpo por cima dela e a protegeu. Por causa dele, ela saiu ilesa, sem um arranhão. Ele, em compensação, quebrou três costelas e ficou três meses inteiros deitado em uma cama de hospital.
O coração de Solange parecia feito de ferro, mas ele levou metade da vida para derreter aquele coração e abrir espaço ali dentro.
Depois que eles começaram a namorar, a família Mota, uma típica família de alta sociedade, não aceitou a ideia de Bento ter uma namorada de origem simples como Solange. Ele, então, rompeu com todo mundo. Ele abriu mão de qualquer direito à herança, saiu de casa sem olhar para trás e recomeçou do zero. Ele trabalhou até cuspir sangue, bebia noite após noite e, sozinho, ergueu um grupo empresarial que não ficava atrás do Grupo Mota Serra da família dele. Só assim ele finalmente pressionou a família até eles cederem e aceitarem o casamento dos dois.
Depois do casamento, Bento enlouqueceu ainda mais nos gestos de amor.
No aniversário dela, ele gastou mais de cem milhões em um show de fogos de artifício e contratou uma equipe profissional para coreografar um espetáculo com drones só para arrancar um sorriso dela.
No aniversário de casamento, ele comprou todos os painéis de propaganda da cidade e estampou em cada tela a declaração de amor dele, anunciando para o mundo inteiro o quanto ele a amava.
Quando os inimigos de Bento sequestraram Solange, eles fizeram de tudo para humilhá‑lo. Eles mandaram que ele se ajoelhasse. Para proteger Solange, ele se ajoelhou diante deles, com uma postura que explodiu as redes sociais.
Naqueles dias, a lista de assuntos mais comentados só tinha o nome dos dois.
[O joelho que Bento dobrou por Solange abalou o país]
[O Bento que você não vê todo dia]
[O deus do amor puro cai de joelhos]
Mesmo assim, esse mesmo Bento, que parecia amar Solange até o limite da loucura, foi o homem que, no quarto ano de casamento, escondeu dela que tinha colocado a nova secretária, Dalila Diniz, na própria cama.
Durante o dia, Bento abraçava Solange e dizia que amava Solange. À noite, ele deitava na cama da secretária e sussurrava carinho para a amante.
O carro de luxo que tinha acabado de chegar, aquele Maybach, era dele. Solange se perguntava o quão desesperado ele estava para descarregar a própria sede que ele não tinha conseguido segurar nem até entrar em casa. Ele simplesmente se esfregou com Dalila Diniz ali mesmo, na porta, sem pudor nenhum.
Já fazia três meses que Solange tinha descoberto a verdade. Em três meses, ela desconfiou, ela sofreu, ela se afundou em desespero, mas ela não foi tirar satisfação. A única coisa concreta que ela fez foi mandar apagar todas as informações pessoais dela.
— Bento, você ainda se lembra do que eu disse no dia do nosso casamento? — Solange encarou os olhos dele e, enquanto ele ainda estava atordoado, ela sorriu de leve. — Eu disse que você tinha usado o amor mais intenso do mundo para arrombar o meu coração. E que, se um dia você deixasse de me amar, era para você me contar com todas as letras. Eu não ia te perseguir. Mas, se você me enganasse, eu ia desaparecer para sempre. Eu ia sumir de um jeito que você nunca mais fosse capaz de me encontrar.
Agora, aquelas palavras tinham virado profecia.
Daqui a duas semanas, ela ia desaparecer por completo. Ele podia revirar o mundo inteiro. Mesmo assim, ele não ia encontrar jeito nenhum que levasse até ela.
Último capítulo