Ninguém sabia dizer quanto tempo aquele beijo tinha durado até Bento finalmente soltar Dalila. Ele a prensou com força contra o canto da parede e falou com a voz rouca.
— Por que você veio me provocar? Eu já disse que, na frente da Solange, você não pode passar dos limites.
Dalila não respondeu à pergunta. Ela apenas riu sem parar, com os braços em volta do pescoço dele. Depois de um tempo, ela se aproximou do ouvido dele e sussurrou, com o hálito quente.
— E aí, será que eu consegui te provocar um pouquinho? Eu fiquei com ciúmes. Você não vai me deixar fazer um drama?
Dalila fazia charme enquanto esfregava o corpo no peito rígido dele. Bento sentia a maciez dela se moldando nele e não disse nada, mas a respiração dele foi ficando cada vez mais pesada. Poucos segundos depois, ele não conseguiu se segurar e voltou a atacar a boca dela num beijo ainda mais voraz:
— Amanhã eu solto uma queima de fogos igual para você. Daqui para frente, tudo o que a Solange tiver, você também vai ter. Só tem uma coisa. O meu limite é você não fazer escândalo na frente dela.
Embora Solange já soubesse o que acontecia entre Bento e Dalila, ver a cena ao vivo tinha um poder de destruição bem maior. O coração dela começou a doer de um jeito agudo, como se uma faca cega cortasse a carne devagar, fazendo com que os olhos dela enchessem de lágrimas sem que ela percebesse.
As lágrimas embaçaram a visão de Solange. Através da estreita fresta da porta, ela viu os dois no vão da escada, já completamente esquecidos de qualquer coisa ao redor. Ela observou Bento beijar o pescoço de Dalila enquanto uma das mãos dele, silenciosa, sumia por baixo da barra da saia dela.
Os gemidos abafados da mulher e a respiração pesada e contida do homem se misturavam e escapavam pela fresta. O cérebro de Solange dizia que ela precisava virar as costas e ir embora naquele exato segundo, mas as pernas dela pareciam ter sido pregadas no chão. Ela simplesmente não conseguiu dar um passo.
Com apenas uma parede os separando, Solange ouviu o homem que um dia jurara que jamais a decepcionaria fazendo amor com outra mulher. Ela pegou o celular com a mão trêmula, mirou na cena não muito distante e apertou o botão de gravar. Durante todo o tempo em que eles ficaram se enroscando lá dentro, Solange permaneceu do lado de fora, ouvindo tudo.
Quando os dois finalmente chegaram ao clímax e os gemidos ficaram ainda mais intensos, Solange olhou para a tela e viu a duração da gravação. Uma hora e trinta e seis minutos.
E ainda não tinha acabado.
Quando Solange viu Bento rasgar a embalagem de uma segunda camisinha, Dalila o deteve com um tom manhoso na voz.
— Sr. Bento… Eu não aguento mais… O senhor não vai voltar para a sua esposa? Lá fora o vento está forte, ela deve estar esperando há muito tempo.
— Cala a boca. Vira de costas.
Bento cortou a fala dela com frieza. Ele não respondeu mais nada, apenas voltou a possuí‑la, mergulhando em mais uma rodada de sexo desenfreado.
Dessa vez, Solange não conseguiu continuar ouvindo. Ela se virou cambaleando, com o rosto lívido, e foi embora daquele lugar.
Quando ela voltou para casa, ela começou a organizar, em silêncio absoluto, todos os vestígios da vida dela com Bento: as fotos do casal, todos os presentes que ele tinha dado, cada pequena lembrança que os dois tinham escolhido juntos para simbolizar o amor dos dois. E também o vestido de noiva, as fotos do casamento, as alianças…
Solange colocou tudo dentro de uma caixa. Depois, ela mandou que levassem a caixa para o jardim dos fundos. Só quando todos os empregados se afastaram, ela acendeu o isqueiro com o rosto impassível e jogou a chama direto na borda da caixa.
Por fim, ela olhou para o jardim mais ao fundo. Era ali que Bento, um dia, tinha plantado com as próprias mãos um grande canteiro de rosas‑silvestres para ela.
Naquela época, enquanto ele plantava cada muda, ele a puxou para dentro do abraço e riu:
— Meu amor, a rosa‑silvestre representa um amor puro. Você foi a primeira garota que mexeu comigo e é a única que eu quero como esposa. O amor que eu sinto por você é puro, sem nenhuma mancha.
Puro e sem nenhuma mancha.
Ao lembrar da cena que acabara de ver mais cedo, Solange deu um sorriso cheio de ironia e riscou o isqueiro outra vez. Ela ateou fogo em toda aquela plantação. As chamas subiram alto, devorando em instantes aquele mar de rosas românticas.
Solange ficou ali, parada, apenas observando com frieza enquanto o fogo engolia todas as lembranças que um dia existiram entre os dois.
"Bento, essas rosas não vão nascer de novo. E entre a gente também não existe mais nenhum futuro."
Quando ela viu o jardim dos fundos inteiro reduzido a cinzas, Solange voltou para o quarto e começou a arrumar as malas. Ela estava no meio da arrumação quando, de repente, ouviu passos apressados do lado de fora. Antes que ela pudesse reagir, a porta do quarto foi escancarada com um estrondo.
Bento entrou como um louco, com o suor escorrendo pela testa. Ele só conseguiu respirar de novo quando viu Solange ali, intacta, dentro do quarto.
— Meu amor, por que você saiu sozinha sem falar nada? Você sabe que eu quase enlouqueci te procurando?
A voz de Bento estava tomada de pânico. Solange apenas olhou para ele, sem dizer uma palavra. Nesse segundo de silêncio, ele finalmente enxergou as roupas espalhadas sobre a cama do closet.
Num instante, a mente de Bento pareceu explodir. Tudo ficou em branco. Ele só ouviu a própria voz, tremendo até o limite, romper o ar:
— Por que você está arrumando as malas? Para onde você pensa que vai?