Solange ficou do lado de fora ouvindo tudo aquela noite inteira, sob a chuva que também caiu a noite inteira. Só quando o céu começou a clarear e a bateria do celular ameaçou acabar foi que ela finalmente saiu do transe, caminhou mecanicamente até a rua, parou um carro e voltou para o Condomínio Serra.
Quando a empregada viu que Solange estava completamente encharcada, o desespero tomou conta dela na mesma hora. Ela correu para preparar um banho quente, colocou água para Solange se lavar e ainda fez um café bem forte para tentar espantar o frio.
Mas a mente de Solange estava tão confusa que ela mal sabia para que lado devia ir. Não tinha forças nem para subir as escadas sozinha. Uma das empregadas se aproximou com cuidado, estendeu a mão e tocou a testa dela. Quando sentiu o calor absurdo do corpo de Solange, ela levou um susto e ligou imediatamente para Bento.
Quando Bento recebeu a notícia, voltou às pressas. Ao chegar, Solange já tinha apagado por causa da febre alta. Por mais que ele chamasse por ela, aflito, ela não reagia.
Ele não perdeu tempo. Ele pegou Solange no colo, levou-a até o carro e saiu em disparada rumo ao hospital.
Depois que os médicos administraram a medicação, Solange finalmente recobrou a consciência. Assim que abriu os olhos, viu Bento ao lado do leito, com olheiras profundas, a barba por fazer despontando no queixo, claramente alguém que não tinha dormido a noite inteira.
Quando percebeu que Solange tinha acordado, a alegria nos olhos dele foi impossível de esconder. Ele segurou a mão em que ela não usava o soro e encostou-a no próprio rosto, como se precisasse sentir que ela estava mesmo ali. A voz dele saiu carregada de alívio:
— Meu amor, você finalmente acordou. Finalmente.
Naquele dia inteiro, Bento ficou com ela o tempo todo, sem sair nem por um minuto. Quando ela sentia sede, ele dava água na boca dela. Quando sentia fome, ele a alimentava com toda paciência. O cuidado dele era tão detalhista que até as enfermeiras, acostumadas a ver de tudo, não resistiram e elogiaram.
Só que, sempre que a noite chegava, ele desaparecia de repente, como se tivesse sumido do mapa.
Naquele andar não havia outros pacientes. Quando a noite caía, o silêncio se tornava quase absoluto. Justamente por isso, qualquer conversa ocasional de enfermeiras cruzando o corredor soava ainda mais nítida.
— Você ficou sabendo? A Sra. Mota teve febre e o Sr. Bento alugou o andar inteiro só para ela. Lá em cima tem uma moça grávida, e um milionário misterioso também reservou o andar todo só para ela. Dois príncipes desse tipo na mesma clínica, não é para qualquer uma.
— Eu morro de inveja delas. Mas, se você reparar, tem uma coisa estranha. Esse Sr. Bento daqui só aparece de dia. O outro lá de cima só dá as caras à noite.
— Vai saber. Coisa de gente rica. Eles devem ter umas manias que a gente nunca vai entender.
…
As vozes foram sumindo à medida que as enfermeiras se afastaram pelo corredor. Dentro do quarto, Solange, que ainda não tinha conseguido dormir, ouviu cada palavra com uma clareza cruel.
Ela chegou a puxar um sorriso de canto, mas o sorriso não saiu. O que ficou foi só um gosto amargo, fundo, que pareceu se espalhar pelo peito. Ela entendeu, na pele, que uma pessoa realmente podia amar duas ao mesmo tempo.
Em outra tarde, já perto do anoitecer, depois do jantar, Solange deitou-se diretamente na cama do hospital e fechou os olhos, fingindo que ia dormir.
Bento não desconfiou de nada. Achou que ela estivesse apenas cansada. Ajeitou a coberta sobre o corpo dela com cuidado, sem intenção de ir embora na mesma hora. Decidiu ficar por ali, sentado, esperando-a cair no sono de vez.
Ela colaborou, mantendo os olhos cerrados. Em pouco tempo, a respiração dela se tornou estável, ritmada, como se estivesse profundamente adormecida. Ele chamou o nome dela baixinho várias vezes. Quando percebeu que ela não reagia, inclinou-se e depositou um beijo suave na testa dela, depois saiu do quarto em silêncio e seguiu em direção ao andar de cima.
Ele andou depressa. Por isso, não percebeu que havia alguém o seguindo discretamente.
Solange foi atrás de Bento escada acima e viu quando ele entrou, depois de dobrar por vários corredores, em um dos quartos. Pela fresta da janela na porta, teve visão completa do que acontecia lá dentro.
O mesmo Bento que, há pouco, cuidava dela com todo o zelo, agora estava com uma tigela de canja de galinha nas mãos, falando com Dalila em um tom doce, quase infantil:
— Anda, toma mais um pouquinho. O nosso bebê não pode ficar com fome. E você também não.
O tom era íntimo, o olhar cheio de doçura, exatamente igual ao Bento que dizia amar Solange com toda a alma. Ela não quis ver mais nada. Virou-se e desceu as escadas às pressas.
Assim que Solange voltou para o quarto, o celular apitou com notificações de mensagem. Era Dalila.
[Sra. Solange, por que a senhora ficou espiando só um pouquinho e já foi embora? Da outra vez a senhora passou a noite inteira ouvindo a gente na cama, eu jurei que a senhora ia estourar tudo ali mesmo. Não imaginei que a senhora fosse aguentar tanto. A senhora não deve estar achando que o Bento ainda ama a senhora, né? Se ele amasse, como é que eu estaria grávida?]
[A senhora ainda não sabe, né? O Bento me mantém há um ano. Um ano, trezentos e sessenta e cinco dias, a gente praticamente dormiu junto todos os dias. Inclusive no seu aniversário, no dia em que vocês se conheceram, no aniversário de namoro… Em todas essas datas ele passou um tempo com você e depois veio correndo atrás de mim. Ele é viciado no meu corpo, não consegue largar. Oitenta e duas posições na cama, ele já me fez passar por todas.]
[Ele é fogo. A gente já fez em hotel, no escritório, no carro de luxo dele, no clube e até no quarto de casamento de vocês tem marca nossa debaixo dos lençóis.]
[Ah, e tem mais. Outro dia, um ricaço do meio deles se interessou por mim e quis que eu passasse uma noite com ele. Quando o Bento soube, ele perdeu a cabeça, quase matou o cara de tanto bater. Naquela mesma noite ele caiu em cima de mim uma dezena de vezes, me obrigou a chamá-lo de amor sem parar e jurar que eu nunca mais ia olhar para outro homem. Se eu não estiver enganada, naquele dia você ainda estava de cama, com febre. Ele largou você ardendo para vir atrás de mim.]
[Agora que a gente já tem um filho a caminho, se a senhora tiver um mínimo de bom senso, a senhora não vai continuar agarrada ao título de Sra. Mota. Arrume suas coisas e dê o fora enquanto ainda dá para sair com um restinho de dignidade. Se a senhora esperar o meu filho nascer, é bem capaz de sair daí só com a roupa do corpo.]
…
As mensagens chegaram uma atrás da outra, cada frase como uma agulha envenenada, matando Solange aos poucos sem deixar marca do lado de fora.
As lágrimas começaram a cair sem que ela conseguisse controlar. Ela levantou a mão trêmula para enxugar o rosto, mas não conseguiu acalmar o coração, que parecia feito só de feridas abertas.
"Bento… Bento… você prometeu que nunca ia me trair. Você prometeu que ia me amar a vida inteira. Você prometeu que, depois de mim, não haveria mais nenhuma mulher. Palavra por palavra… em todas você mentiu para mim." Pensou Solange.