As palavras de Solange deixaram Bento ainda mais apavorado:
— Meu amor, por que você veio falar disso do nada?
Ele não entendia por que Solange estava dizendo aquilo de repente. Depois de pensar por alguns segundos, ele pareceu finalmente chegar a alguma conclusão:
— Foi alguém que falou besteira perto de você, foi isso?
Assim que ele terminou a frase, ele nem esperou a resposta dela. Ele fechou a cara, se levantou de uma vez e fez uma ligação:
— Chamem todas as mulheres com quem eu falei nesse período. Todas.
Pouco tempo depois que ele desligou, as empregadas do Condomínio Serra e as funcionárias da empresa foram reunidas ali na sala. Quando Bento viu as mulheres enfileiradas à frente dele, ele falou com o rosto completamente fechado:
— Vocês vão contar, nos mínimos detalhes, tudo o que aconteceu entre vocês e mim nesses últimos tempos. Palavra por palavra. Sem esconder nada. E vocês vão contar tudo para a minha esposa.
Todas se entreolharam, sem saber por onde começar. A empregada que estava bem no meio da fileira, usando o uniforme padrão, deu um passo à frente às pressas:
— Eu só vi o senhor uma vez esses dias. Foi quando a Sra. Solange estava naqueles dias do mês. O senhor me pediu para ensinar como preparar um café com mel e ainda me perguntou tudo sobre os cuidados que uma mulher precisa ter durante o período menstrual, só para tentar aliviar as dores dela.
Quando a primeira criou coragem para falar, as outras começaram a se manifestar também.
— Eu entrei há pouco tempo na empresa. A primeira vez que eu vi o senhor foi quando o senhor percebeu que a Sra. Solange não andava muito bem, meio triste. O senhor queria animar a sua esposa e chamou a gente para perguntar que tipo de presente podia comprar para fazê-la feliz.
— O senhor falou comigo porque soube que, nos últimos dias, a Sra. Solange não estava se alimentando direito. O senhor me pediu várias e várias vezes para eu criar receitas diferentes e preparar doces e sobremesas que despertassem o apetite dela.
…
Todas falavam ao mesmo tempo, mas, no fim, tudo levava ao mesmo ponto: Bento só procurava cada uma delas por causa de Solange.
Foi então que, de repente, o som de batidas na porta ecoou ali perto. Todos olharam na direção do barulho e viram a secretária executiva de Bento, Dalila, parada ali. Ela usava um tailleur justo e uma saia curta:
— Desculpa. Eu me atrasei um pouco por causa de um assunto pessoal.
Ela tinha ouvido um pedaço da conversa, e a visão daquele grupo de empregadas e funcionárias reunidas ali deixava tudo bem óbvio. Ela sorriu, caminhou até Solange e se explicou com toda a calma:
— Senhora, pode ficar tranquila. A minha interação com o Sr. Bento é basicamente profissional. Todo mundo sabe que o Sr. Bento só tem olhos para a senhora. No dia a dia, ele mal troca duas palavras com qualquer outra mulher por fora do trabalho. Como é que ele ia ter algum envolvimento com a gente?
Ao ouvir aquilo, Solange finalmente levantou o olhar. O sorriso de Dalila parecia impecável, a postura dela era de total respeito. Se Solange não tivesse visto tudo com os próprios olhos, ela jamais imaginaria que entre Dalila e Bento existia aquele tipo de relação vergonhosa.
Muito menos ela seria capaz de decifrar, de primeira, o desafio escondido no brilho divertido do olhar de Dalila.
Ao perceber que Solange não tirava os olhos da secretária, Bento sentiu a veia pulsar na testa. Ele falou com a voz baixa, mas carregada:
— Quem trabalha comigo precisa entender uma coisa. A minha esposa é o meu ponto fraco. Erros de trabalho eu consigo aceitar. Agora, se alguém for idiota o bastante para vir falar besteira ou plantar intriga na frente da minha mulher, essa pessoa não vai ter um bom fim.
As mulheres se apressaram em garantir que não ousariam fazer nada desse tipo. Depois disso, elas começaram a se dispersar. Quando até Dalila, a última a chegar, sumiu completamente do campo de visão de Solange, Bento envolveu a esposa nos braços de novo.
— Agora você acredita em mim, acredita? — Solange não sabia se era impressão dela, mas, quando Bento voltou a falar, ela teve a sensação nítida de que a voz dele tremia. — Meu amor, você nunca mais fala esse negócio de ir embora e sumir. Se você desaparecer, eu morro.