No dia em que Solange recebeu alta, Bento não apareceu. Ele apenas mandou uma mensagem dizendo que, naquele dia, ele estava enrolado e que não conseguiria ir, e que ele já tinha mandado o motorista buscá-la.
Solange não respondeu, porque, antes mesmo dessa mensagem, ela já tinha recebido outra de Dalila: uma foto.
Na foto, Bento aparecia de terno impecável, sem o menor traço da postura de presidente de um grande grupo empresarial. Ele estava abaixado, ajudando pessoalmente Dalila a arrumar as malas. Junto com a foto, veio uma frase.
[Não espera por ele, não. Hoje ele vai levar a mim e ao nosso bebê para casa.]
Solange não respondeu a ninguém. Ela arrumou sozinha as próprias coisas e voltou para o Condomínio Serra.
A partir daquele dia, as mensagens de Dalila se tornaram como moscas que Solange não conseguia espantar: elas vinham todos os dias, sem falhar um.
Em um dia, Dalila mandava uma foto de Bento massageando as pernas dela. No outro dia, Dalila mandava uma foto dele descascando camarão para ela. Depois, Dalila mandava uma foto dos dois se agarrando no escritório…
Sempre que Dalila terminava de mandar a foto e via que Solange não dava qualquer resposta, Dalila perdia a paciência e vinha com cobranças.
[Solange, por que você não me responde? Por que você não vai tirar satisfação com o Bento? Você aguenta mesmo tudo isso calada? Nosso filho nasce daqui a alguns meses e você continua fingindo que nada está acontecendo?]
Solange, no entanto, permanecia em silêncio. Ela imprimia, uma a uma, todas as fotos que Dalila mandava e, no verso de cada uma, ela escrevia, com uma calma cruel, o que ela sentia ao olhar para aquilo:
[No primeiro dia, ela mandou uma foto dos dois se beijando embaixo de uma cerejeira. Naquele mesmo cenário, anos atrás, ele tinha se declarado para mim. Ele se declarou setenta e oito vezes, e eu recusei as setenta e oito. Todo mundo dizia que eu era fria, sem coração, mas eu só tinha medo de escolher errado. As feridas no corpo um dia cicatrizam. Um coração partido, não. Eu tinha medo de perder tudo. Hoje eu vejo que, no fim, eu escolhi errado do mesmo jeito. Bento, com você, eu perdi de um jeito vergonhoso.]
[No segundo dia, ela mandou uma foto deles vendo fogos de artifício, com ele colocando um anel no dedo dela. Quando ele tinha dezessete anos, ele jurou que só veria fogos de artifício com a pessoa que ele amasse, e que só daria um anel para quem ele realmente amasse. Mas o Bento de vinte e sete anos esqueceu completamente o que ele mesmo dizia.]
[No terceiro dia, ela mandou uma foto deles fazendo sexo. Se ele tivesse chegado para mim e dito que o coração dele já estava com outra, eu teria chorado, teria sofrido, mas eu nunca teria implorado para ele ficar. O que ele não podia era mentir para mim. Bento, o meu coração está doendo demais, doendo tanto que eu mal consigo respirar. Então eu vou embora.]
…
No sétimo dia, Solange se reuniu com o advogado e, junto com ele, ela acertou todos os detalhes do acordo de divórcio.
Ela pegou todas as fotos que ela tinha impresso nesses dias, o vídeo das relações dos dois que ela já tinha gravado antes, e uma cópia do acordo de divórcio já assinada por ela. Ela colocou tudo dentro de uma caixa de presente.
Quando Solange fechou a tampa da caixa, o celular dela tocou de repente.
— Srta. Solange, todos os seus dados pessoais já foram destruídos. A partir deste momento, neste mundo, não existe mais ninguém chamada Solange.
Só então, naquele instante, um sorriso de puro alívio apareceu no rosto pálido dela.
— Obrigada por terem apagado tudo. — Disse ela.
No segundo seguinte, a porta se escancarou de repente.
— Apagar o quê? — Perguntou Bento.
Solange virou o rosto na direção da voz e viu Bento parado na entrada, depois de vários dias sem dar as caras.
Solange pensou que, felizmente, ele provavelmente não tinha escutado a conversa inteira. A pergunta dele parecia ter sido apenas uma curiosidade solta. Por isso, ela apenas levantou um canto dos lábios, com frieza contida:
— Não é nada, você ouviu errado.
Bento realmente não perguntou mais nada. Ele apenas estendeu o braço e puxou Solange para dentro de um abraço:
— Desculpa, meu amor, nesses dias eu quase não fiquei com você. Quando eu terminar essa fase corrida, eu vou ter mais tempo.
Enquanto ele enchia os cabelos dela de beijos cheios de carinho, Solange se lembrou, de repente, das fotos que Dalila tinha mandado há pouco tempo: Bento ao lado dela, escolhendo roupas combinando para pai e filho. O olhar de Solange se encheu de ironia:
— Se você está tão atarefado, por que hoje resolveu aparecer de surpresa?
Bento sorriu e passou o dedo de leve no nariz dela:
— Você esqueceu? Amanhã é o nosso aniversário de casamento. Eu preparei uma super surpresa para você.
Solange balançou a cabeça e pegou a caixa de presente que estava ao lado, entregando-a para ele:
— Eu não esqueci. Eu também preparei uma grande surpresa para você.
Quando Bento ouviu aquilo, os olhos dele brilharam. Ele já ia abrir a caixa, ansioso, quando o toque do celular interrompeu o momento.
Na fração de segundo em que a tela acendeu, Solange viu com nitidez o nome de Dalila. Um minuto depois, Bento desligou a chamada e voltou para perto dela:
— Meu amor, surgiu um problema na empresa…
Solange pareceu já estar esperando exatamente aquelas palavras. Ela manteve a expressão tranquila e não tentou segurá-lo:
— O trabalho vem em primeiro lugar. Vai lá.
Quando Bento ouviu isso, ele ficou surpreso por um instante. Antes, mesmo quando ele passava muito tempo sem dar atenção a ela, se ele finalmente aparecia e, logo em seguida, já precisava sair às pressas, ela também dizia que o trabalho era importante e não o impedia de ir. Mas ela não ficava tão calma assim.
Só que Bento se lembrou do que Dalila tinha acabado de dizer ao telefone. Depois de hesitar por alguns segundos, ele ainda assim escolheu ir embora:
— Solange, eu volto rapidinho. Quando eu chegar, a gente troca os presentes-surpresa.
Solange viu as costas dele se afastando cada vez mais e não chamou por ele. Ela não fazia ideia se o presente dele iria ou não surpreendê-la, mas ela tinha certeza de que o dela seria mais do que suficiente para surpreendê-lo.
Quando o carro de Bento finalmente sumiu de vista, Solange se virou, voltou para o quarto e pegou a mala que ela já tinha deixado pronta havia algum tempo.
A mala não estava pesada. O barulho que ela fez ao ser arrastada pelas pedras também foi mínimo. Até o momento em que Solange entrou no carro e deixou o Condomínio Serra, nenhum dos empregados que trabalhavam ali percebeu que ela tinha ido embora.
Pelo vidro do carro, aquele lar foi desaparecendo devagar do campo de visão dela.
No instante em que o carro se afastou de vez, Solange teve a estranha sensação de que precisava olhar para trás. Por um segundo, atordoada, ela quase viu o Bento de dezessete anos parado ali, com os olhos cheios d’água. Ele sorria com a mesma curvatura doce nos lábios de antes, olhando diretamente para ela:
"Meu amor, não perdoa ele. Não volta atrás."
Solange desviou o olhar, sorriu com os olhos vermelhos e, dessa vez, ela não olhou para trás.