Capítulo 5
O pânico nos olhos de Bento não parecia falso, mas, para Solange, aquele olhar parecia ridículo.

"Se eu for embora, só vou dar espaço para a Dalila. Do que ele está com tanto medo, afinal?"

Mesmo assim, Solange não colocou esse pensamento em voz alta. Ela apenas respondeu com um tom completamente calmo:

— Eu vi que você não voltava nunca e, como estava frio, resolvi ir embora primeiro. Essas roupas eu só deixei separadas porque a estação está mudando e eu precisava organizar.

Quando ele ouviu aquilo, o coração de Bento, que parecia preso na garganta, finalmente voltou ao normal. Ele se sentiu como se tivesse acabado de passar por um inferno. Agarrado à sensação de ter recuperado algo que achava perdido, puxou Solange para um abraço desesperado.

— Ainda bem que você não ficou brava comigo. A culpa foi minha. Não devia ter ficado tanto tempo naquela ligação. Não devia ter deixado você sozinha lá.

Bento continuou:

— Da próxima vez, você não vai fazer esse tipo de coisa sozinha, tá? Você quase me matou de susto agora. Eu jurei que você tinha decidido ir embora de vez. Meu amor, fiquei apavorado. Não faz isso comigo. Não me deixa. Se você for embora, eu morro, juro que morro.

Solange não respondeu às palavras dele. Baixou os olhos e viu a poeira no joelho da calça social impecável que ele usava. Ficava claro que Bento, ao perceber que ela tinha sumido, tinha corrido para algum lugar e caído no chão de tanta pressa para procurá-la.

Por um instante, Solange não soube o que dizer. Ela tinha sumido por apenas uma hora, e ele já estava assim.

"E quando ele descobrir que, em breve, eu vou desaparecer para sempre? O que ele vai fazer?"

O jeito de Bento agir dava a impressão de que ele ainda amava muito Solange. Mas o homem que estava com outra mulher continuava o mesmo.

— Eu não estou brava. O seu trabalho é importante. — Respondeu Solange, sem emoção.

Ela balançou a cabeça, como se a atitude dele já não tivesse mais o peso de antes. Mas aquelas poucas palavras fizeram nascer uma pontada de inquietação no peito de Bento na mesma hora. Ele rebateu imediatamente:

— Não. O meu trabalho não é importante. Nada é importante. Nada neste mundo vale mais do que você.

Bento apertou ainda mais o abraço em volta dela, como se tivesse medo de que, se relaxasse os braços, ela simplesmente desaparecesse.

— Solange, se eu fiz alguma coisa errada, você pode gritar comigo, pode bater em mim, pode fazer o que quiser. Só não vá embora…

Se qualquer outra pessoa visse Bento daquele jeito, engolindo o choro, vulnerável e se humilhando, certamente sentiria pena dele. Mas Solange apenas estendeu a mão e o afastou:

— Eu estou cansada. Quero descansar.

— Tá bom, tá bom. Então vamos dormir.

Naquele momento, Bento não tinha coragem de contrariar nada do que ela dizia. Tudo o que saía da boca dela virava ordem.

Nos dias seguintes, Bento ficou em casa o tempo todo com ela, sem sair. Até que, um dia, recebeu uma ligação. Seja lá o que disseram do outro lado da linha, a expressão dele ficou séria na mesma hora.

Depois daquele dia, Bento passou a fazer ligações escondido, achando que Solange não percebia. À noite, saía em silêncio, sempre com algum pretexto mal contado.

Até que um dos amigos do círculo de milionários de Bento, que estava prestes a se casar, resolveu fazer uma despedida de solteiro. Insistiu várias vezes para que Bento aparecesse.

Desde que se casou, Bento cancelava todos os eventos sociais para ficar mais tempo com Solange, inclusive os encontros com o grupo de amigos mais próximos.

Normalmente, Bento não iria a esse tipo de festa. Mas, ao ver o humor sombrio de Solange nos últimos dias, achou que talvez fosse bom tirá-la de casa para espairecer um pouco. Ele insistiu, falou com carinho, até conseguir convencê-la a sair com ele.

Embora fosse uma reunião de amigos, Bento manteve os olhos em Solange o tempo todo. Ele não deixou que ela bebesse nada alcoólico e pediu vários sucos do cardápio do clube. Provou um por um até escolher o que ela mais gostava e colocou o copo bem na frente dela.

Bento teve medo de que ela não se sentisse à vontade no meio das conversas entre homens, sentada ali sem nada para fazer. Então mandou preparar uma mesa cheia de petiscos e montar um cinema só para ela, com tela, som e tudo. Ele mesmo descascou as frutas e deixou os pedaços arrumados num prato, ao alcance da mão dela.

Solange detestava cheiro de cigarro, então Bento proibiu todo mundo de fumar. Ela gostava de silêncio, então mandou desligar a música do lugar. Até quando ela foi ao banheiro, ele a acompanhou, com a desculpa de garantir sua segurança.

A cena deixou todos ao redor completamente boquiabertos.
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