Mundo ficciónIniciar sesiónApós os cumprimentos e as formalidades exigidas, Aven conduziu-o por corredores estreitos, iluminados apenas por tochas cravadas nas paredes de pedra bruta.
O silêncio, quase opressivo, era quebrado apenas pelo ranger distante de armaduras e pelo vento que uivava entre as torres do castelo, o lembrando de um lamento antigo que jamais encontrara descanso. Por fim, chegaram a uma sala discreta, afastada dos olhos do clã. Apenas a lareira ardia ali, projetando sombras irregulares sobre tapeçarias gastas, marcadas pelo tempo e por histórias que ninguém mais ousava contar. Ele acomodou-se em uma poltrona de carvalho, sentindo o couro frio do assento contra as costas. Observou a lenha estalar, cuspindo fagulhas alaranjadas, cada som lembrando-lhe os anos perdidos e as vidas que jamais seriam recuperadas. Aven aproximou-se com duas taças de prata trabalhadas, gravadas com runas e símbolos do clã — linhas finas de ferro incrustadas nas bordas, formando aves de rapina e lobos em caça. O líquido em seu interior cintilava à luz do fogo: um âmbar profundo, com aroma de cereais fermentados, defumado e levemente adocicado, como as bebidas preparadas pelos ancestrais do Norte. Aven colocou a taça à sua frente. Tharok a pegou, sentindo o frio do metal contra os dedos calejados, e levou-a aos lábios. O líquido desceu quente pela garganta, queimando suavemente como uma chama. O sabor forte e terroso permaneceu na boca, espalhando um calor breve pelo peito — suficiente para acalmar, ainda que por instantes, a culpa que carregava. — Tu conheces as circunstâncias que te cercam — iniciou Aven, a voz grave, firme, mas sem traços de ira. — Já falamos disso em tua última visita. Quero que saibas que minha proposta continua de pé. Sim. A maldita proposta. A mesma que poderia lançar o nome de Tharok — e o de seu pai — na lama, transformando um legado de sangue e honra em simples pó. Ainda assim, a promessa permanecia gravada como ferro cravado em pedra. — Um Dravharn não recua da própria palavra — tomou outro gole, mas, naquele instante, o líquido lhe pareceu amargo. Aven inclinou levemente a cabeça, num gesto que misturava reconhecimento e pesar. — Eu entendo — ergueu a mão como se afastasse um pensamento. — Mas Alarë não se encontra em condições de tornar-se tua esposa. Sua mente… dizem que foi tomada pelos deuses ou pelos próprios demônios do oeste. Minha filha, Elarim, é sã, firme e adequada. Ela garantiria a continuidade da aliança sem riscos. Tharok respirou fundo, sentindo o reflexo do fogo dançar no metal da taça. O calor subiu-lhe ao rosto, lembrando-o de que não existe conforto na lealdade quando a obrigação pesa mais do que a própria vida. — Não posso — encontrou os olhos de Aven, firmes. — Minha promessa não conhece desvios. Mesmo que o mundo inteiro me implorasse por outro caminho, não voltarei atrás. Alarë é minha prometida. E nada — nem a loucura, nem a política, nem o medo — fará com que eu ceda. Aven o analisou a situação. Seus olhos, profundos e calculistas, pesaram cada palavra, medindo a solidez daquela convicção. — Então que assim seja — disse, por fim. — Que os deuses nos guardem, Tharok Dravharn. Se tua decisão permanecer, o que te aguarda não será simples. Alarë não é apenas louca aos olhos do oeste… é imprevisível para todos que ousam se aproximar. Tharok ergueu a taça mais uma vez, observando o líquido oscilar à luz da lareira. — Que os deuses antigos julguem minha escolha — murmurou — e que a honra seja mantida, mesmo que o inferno se levante contra mim. Aven engoliu em seco, reconhecendo que não havia como questionar. A promessa seria cumprida. E a loucura de Alarë esmagaria o jovem vinkg, já que não estaria mais guardada nos corredores frios de Valheris. (๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑˙❥˙๑๑)✍️ O grande salão estava em festa. Ou, ao menos, esforçavam-se para parecer. Alguns dançavam; outros comiam e bebiam fazendo com que tudo parecesse uma celebração digna — e não a união entre um laird e uma mulher considerada insana. Crianças corriam ao redor da grande mesa central, suas risadas misturando-se ao som dos tambores e das flautas. A mesa estava coberta por linho escuro e repleta de pratos típicos da região: caça assada, pães trançados com alho negro, queijos duros, frutos silvestres mergulhados em mel, bolos grossos de aveia ainda fumegantes. Hidromel, cerveja forte e vinho de frutas escuras eram servidos sem economia; jarras pesadas se esvaziavam a cada brinde forçado. Tharok ocupava o assento à direita da parte mais alta da mesa — um nível abaixo do topo, como exigia o protocolo. Poucos ousavam encará-lo por muito tempo, por medo ou respeito? Deus o sabe. Tharok observou o salão. As tochas presas às colunas lançavam sombras longas pelas paredes, enquanto os estandartes do oeste — o corvo de três olhos — balançavam suavemente com o vento que entrava pelas janelas estreitas. O sacerdote, envolto numa túnica cor de vinho e com a barba espessa já manchada de bebida, encontrava-se em um canto, no terceiro gole de hidromel, conversando com Aven. As mulheres da casa… não estavam ali. Claro. Deviam estar preparando Alarë. Ou o que restava dela. Broc, seu amigo — quase irmão — puxou a cadeira ao lado dele e sentou-se com um baque discreto. O cansaço estampado em sua postura dispensava qualquer formalidade. — Povo estranho — Broc levou a taça de metal aos lábios. O som do gole foi mais honesto que qualquer palavra. — E a moça… até agora, nada. — Tudo tem seu momento. — Eu só quero voltar ao nosso castelo, comer o guisado de Zena… e fingir que nunca pisamos aqui. — Eu também. Só que — Foi interrompido por um alvoroço vindo das escadas. O som atravessou o salão lâmina cravada no coração de um gigante. Os tambores cessaram. As conversas morreram. A música se desfez sem aviso. Todos os olhares se voltaram para o mesmo ponto. Tharok se levantou. Broc também. Instinto. Meviria surgiu primeiro, vestida em tons escuros, o rosto rígido como pedra. Ao seu lado vinha Elarim, impecavelmente composta, os olhos baixos, a postura de uma noiva obediente. Mas não era por elas que o salão prendia a respiração. Atrás… duas mulheres arrastavam alguém. — Ventos amaldiçoados… — murmurou Broc, em voz baixa. — Quem foi que abriu a porta do Além?






