Capítulo 6

Melinda

Entro na loja de penhores com a respiração presa, como se estivesse mergulhando fundo demais e não tivesse certeza se voltarei à superfície. O lugar fede a mofo e desespero, cheiro de gente que já passou por ali deixando pedaços da própria vida em troca de migalhas.

Minha mão aperta o pequeno anel, a aliança dourada dos meus pais. Minha herança, meu último laço com eles. Engulo em seco, piso firme e coloco o anel sobre o balcão gasto.

— Quero penhorar.

O homem atrás do balcão, um sujeito de uns cinquenta anos, careca e com uma barriga que pesa sobre o cinto, pega o anel e examina rapidamente, sem cuidado. Dá para ver em seu rosto que ele já decidiu antes mesmo de avaliar direito. Ele escreve algo em um papel e o desliza até mim, com aquele sorriso burocrático que me dá vontade de socar.

Minha garganta seca ao ver o valor. Dois mil dólares.

— Isso só pode ser uma piada.

Ele ergue as sobrancelhas, impassível.

— É o preço do mercado.

— Do mercado? — Minha voz falha, mas a raiva me empurra para a frente. — Esse anel é ouro de verdade! Era dos meus pais, foi feito sob encomenda. Vale muito mais do que isso.

— Sentimentalismo não paga conta. — Ele dá de ombros. — Eu compro pelo que posso revender. Se quiser mais, vai para outra loja.

Meu sangue ferve.

— O senhor tá me roubando. Isso aqui vale, no mínimo, três vezes esse valor.

Ele se recosta na cadeira, cruzando os braços.

— Então venda você mesma, garota. Mas vai demorar, e pelo jeito, você não tem tempo.

As palavras dele me cortam como lâmina. Ele sabe, vê o desespero no meu rosto, e se aproveita disso.

— O senhor é um canalha — cuspo as palavras, mas minha mão treme quando pego o papel.

Ele solta um riso curto e satisfeito.

— Pode me chamar do que quiser, desde que assine.

Fecho os olhos por um instante. É como se meus pais estivessem me olhando, como se eu tivesse acabado de trair a memória deles. Mas se eu não fizer isso, meu avô...

Assino. A tinta da caneta parece mais pesada que chumbo.

Ele me entrega as notas dobradas, amassadas, que aperto com força, como se fossem me escapar pelos dedos. Saio da loja com o peito em ruínas. Parte de mim ficou naquele balcão, presa ao riso cínico de um homem que nunca vai entender o que eu perdi.

****

Estou passando o pano molhado sobre a última mesa do restaurante, a madeira gasta range sob a pressão da minha mão. Não restou um cliente sequer, só o cheiro de gordura impregnado no ar e o silêncio cansado da madrugada. Meu corpo pede arrego, mas não tenho esse luxo. Implorei para me colocarem em três turnos seguidos no dia seguinte, e mal vou dormir, mas não importa. Se eu não juntar esse maldito dinheiro, o hospital vai parar o tratamento do meu avô.

Meus pais já se foram e ele é tudo o que tenho. Não vou perdê-lo também.

Quando o celular vibra no bolso do avental, meu coração gela. Será que é do hospital? Minhas mãos tremem tanto que quase deixo o aparelho cair. Atendo, com a respiração presa.

— Alô? — Minha voz sai sufocada.

— Melinda? — A voz feminina soa apressada, mas... aliviada? — Graças a Deus você atendeu.

Por um segundo, fico sem entender, sem reconhecer de imediato.

— Quem tá falando?

— Sou eu, a Natalie .

Dei o meu número para ela dois dias atrás, mas nunca imaginei que ela realmente me ligaria. Ainda mais tão tarde da noite.

— Natalie ?

— Eu... preciso da sua ajuda. — A voz dela vacila, meio trêmula.

Meu estômago se contorce.

— Calma. Respira. O que houve?

— Minha mãe sofreu um acidente, então precisei viajar às pressas para a minha cidade natal.

Levo a mão à testa e fecho os olhos.

— Meu Deus... ela tá bem?

— Vai ficar. — Ela suspira, como se repetisse isso mais para si mesma do que para mim. — Não foi nada irreversível, mas eu não posso voltar agora. E o problema é que... eu não conheço ninguém que possa me substituir no trabalho.

— Substituir você? — Minha testa franze. — Não estou entendendo.

— Exato. — A pressa dela transborda do outro lado da linha. — Eu preciso de alguém amanhã. Se eu deixar a equipe sem fisioterapeuta, deixar Damon com o ombro daquele jeito, ele é capaz de arrancar minha pele e fazer de tapete.

Meu coração tropeça dentro do peito. Damon? Quem diabos é esse?

— Espera. Quem é esse?

Ela solta uma risada nervosa.

— Cobra, o lutador famoso. O nome dele é Damon, mas todos o conhecem como Cobra. A cara dele está estampada para todo o lado. Ele é... só... não é alguém que você queira irritar.

O lutador famoso de UFC.

Engulo em seco.

— Natalie , eu não sei se consigo. Eu tenho que trabalhar amanhã, já implorei pelos turnos extras.

— Claro que você consegue, você era a melhor da turma, melhor que eu. — A voz dela suaviza, implorando. — Eles pagam cinco mil por dia.

— O quê? — Quase derrubo o celular. — Quanto?

— Cinco mil. Líquido. Na sua conta.

Meu coração dispara e sinto meu corpo fraquejar, como se minhas pernas não fossem mais minhas. Cinco mil. Eu poderia pagar todas as despesas do hospital e tentar um prazo para pagar a nova fase do tratamento.

Mas está fácil demais para ser verdade.

— Você tá brincando comigo, né? — Minha voz sai fraca.

— Juro que não. — Natalie soa desesperada. — Me cobre só amanhã, ou até o treinador encontrar alguém. Se eles gostarem de você, pode até ficar até eu voltar. Mas, pelo menos por amanhã, eu preciso de você.

Levo a mão ao peito, tentando controlar a respiração. Minha mente grita que isso é loucura. Mas como eu poderia dizer não? Eu não conseguiria isso trabalhando três turnos em uma semana.

— Cinco mil — repito, sentindo as palavras estranhas na boca.

— Então você aceita? — ela pergunta, ansiosa.

Fecho os olhos e a imagem do meu avô aparece, com seu sorriso frágil, os olhos cansados, a mão dele apertando a minha no hospital. Ele depende de mim.

— Sim. — Minha voz sai firme, mesmo com meu peito aos pedaços. — Eu aceito.

— Vou te mandar o endereço e as informações que vai precisar por mensagem.

— Combinado.

Do outro lado da linha, Natalie solta um suspiro de alívio.

— Obrigada, Mel. Você não faz ideia do quanto sou grata.

Eu desligo e encosto o celular no balcão sujo do restaurante. A vida pode ser cruel, mas acabou de me dar uma chance. Só não sei ao certo o que me espera no caminho.

**

Minhas pernas tremem quando viro a esquina e a vejo. A academia. Um bloco imenso e negro que parece me observar de cima, com a cobra vermelha pintada na fachada mostrando as presas como se fosse me engolir inteira. Passo as mãos suadas pela calça branca, como se pudesse secar o nervosismo junto. Minha camisa azul está larga demais nos ombros, balançando quando o vento sopra, e até isso me faz sentir fora de lugar. Eu não tenho roupas que caibam direito, nem vida que caiba em lugares como esse.

O bairro todo é outro mundo. Carros importados, prédios de vidro, mansões cercadas por grades reluzentes. Eu me sinto um grão de poeira no meio de tudo. Uma fraude prestes a ser descoberta.

Respiro fundo, tentando não pensar na sensação incômoda que me dá imaginar que ele pode estar lá dentro. Li sobre Damon “Cobra” Ramirez na internet, vi vídeos das lutas, reportagens, fotos. Nunca perdeu. Nunca caiu. Um lutador feroz, tão forte que parece mais máquina do que homem. Mas não foi isso que me perturbou. Foi o olhar frio e insano. Olhar de quem não enxerga limites. E agora, esse olhar está a poucas paredes de distância.

Assim que digito a senha que Natalie me enviou na fechadura digital, o bip soa mais alto do que deveria. O clique do destrave ecoa na minha cabeça como um aviso. Ao entrar, o silêncio me envolve de imediato. O espaço é amplo e imponente, com preto e vermelho em cada canto. O logo da serpente se repete nas paredes, nos bancos, nas toalhas dobradas em prateleiras de vidro. O ringue no centro é um altar de violência, e os sacos de pancada balançam levemente como se ainda lembrassem dos golpes que receberam. Os aparelhos brilham, reluzentes, como armas afiadas prontas para uso. É bonito, sim, mas de um jeito brutal. Um templo erguido para um deus da guerra.

Dou alguns passos, com o som dos meus tênis ecoando. Olho ao redor e me sinto minúscula. Talvez tenha chegado cedo demais, ou errado o horário. Vasculho minha mochila à procura do celular para conferir as horas. Enquanto ando distraída, dou um passo para trás e esbarro em algo sólido. Ou melhor, em alguém.

Meu corpo se arrepia inteiro, então me viro rápido e o encontro ali.

A primeira coisa que me atinge é a presença. Um corpo imenso, 1,86 de altura, músculos desenhados em cada linha, como se tivesse sido esculpido para destruir. A regata preta se estica sobre o peito largo, os ombros tatuados descendo para braços cobertos de desenhos escuros que serpenteiam até o pulso. No pescoço, as tatuagens sobem como correntes, atravessando a pele clara até quase tocar a barba cheia e cerrada. O short vermelho marca as coxas grossas, e as luvas de UFC ainda envolvem as mãos, como se ele tivesse acabado de terminar um treino ou, pior, estivesse esperando por alguém para descarregar a violência.

Mas é o rosto que me prende. Seus traços são duros, a mandíbula é marcada, o cabelo escuro tem um corte rente, e os olhos castanhos são profundos e sombrios. Não há nada de calor ali. Só frieza. Fúria contida. Uma centelha de insanidade que arrepia cada pedaço do meu corpo.

E, ainda assim... ele é lindo. Brutalmente lindo. De um jeito perigoso, de um jeito que dói.

Ele me olha de cima a baixo lentamente, parecendo me despir com os olhos, como se pudesse ver cada osso meu.

— Quem é você? — A voz dele corta o silêncio, grave e áspera. — E por que diabos tá aqui?

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