Capítulo 5

Melinda

Empurro a porta devagar, tentando não fazer barulho, roubando alguns segundos antes de encarar a realidade. Mas ele percebe, como sempre.

— Vai ficar aí parada, me espionando, ou vai entrar de uma vez? — A voz do meu avô sai rouca e fraca, mas ainda carregada daquela rabugice que só ele tem.

Sorrio, apesar do nó na garganta.

— Achei que estava dormindo... não queria te acordar.

Ele revira os olhos, o corpo magro afundado nos lençóis.

— Dormir nesse lugar é impossível. Toda hora alguém vem me cutucar, me virar, me espetar. Eu não sou frango de padaria.

Solto uma risada curta e caminho até a cama, largando a bolsa na cadeira ao lado.

— Eu trouxe biscoitos. Daqueles que você gosta, com cobertura de açúcar.

— E você acha que eles vão me deixar comer isso aqui? — Ele arqueia a sobrancelha. — Esses médicos querem me matar antes do câncer.

— Vô! — Dou uma risada nervosa, apertando a mão dele. — Não fala assim.

Ele aperta de volta, surpreendendo-me com a força que ainda tem.

— Eu falo do jeito que quiser, menina. Você não sabe como é ficar preso aqui. Quero ir pra casa.

— Em casa não tem enfermeiras nem equipamentos — digo baixo, engolindo em seco. — Aqui, você está sendo cuidado.

— Sendo cuidado? — ele resmunga, mas os olhos brilham com um humor teimoso. — Eu sou velho, não inútil.

Rio, deixando a tensão escapar um pouco.

— Você sempre foi difícil, sabia?

Ele sorri de canto, cansado, mas sincero.

— E você sempre foi a única que aguentou essa minha rabugice.

— Alguém tinha que te amar, né? — Meus olhos ardem, mas tento disfarçar.

Ele passa o polegar áspero no dorso da minha mão, um gesto pequeno, mas cheio de significado.

— Você sempre foi a melhor parte da minha vida, Meli. Não se esqueça disso.

Meu coração aperta, e tudo que consigo fazer é balançar a cabeça.

— Então fica aqui. Luta comigo, tá? Eu não posso fazer isso sozinha.

Ele respira fundo, fecha os olhos por um instante e depois volta a me encarar com aquele olhar que mistura doçura e teimosia.

— Eu vou lutar, mas você promete não deixar essa carinha triste estragar meu humor? Quero ver você sorrindo, igual agora.

Forço o sorriso, mesmo com as lágrimas ameaçando cair.

— Prometo.

— Ótimo. — Ele dá um leve aceno, satisfeito. — Agora, abre a bolsa e me mostra esses biscoitos, antes que alguma enfermeira chata apareça.

Solto uma gargalhada de verdade dessa vez. E nesse momento, mesmo com toda dor, ainda temos um ao outro. E isso vale mais do que tudo.

**

A porta range e a doutora Silvia Steveson aparece, com aquele ar profissional, mas o olhar que me lança não é bom. Meu coração já se aperta antes mesmo de ela abrir a boca.

— Melinda, podemos conversar um instante? — diz, com a voz calma demais.

Meu avô ergue as sobrancelhas e cruza os braços ossudos.

— Conversar sobre o quê, doutora? Eu tô aqui, não sou criança. Se for pra falar da minha vida, eu quero ouvir também.

Ela dá uma risadinha curta, balançando a cabeça.

— Prometo que já volto pra falar com o senhor. É rapidinho.

Ele resmunga, bufando, mas se cala. Eu respiro fundo e sigo a médica até o corredor, com meus pés parecendo chumbo.

Assim que a porta se fecha atrás de nós, o sorriso educado dela se desfaz. É a seriedade que me mata, porque sei que não vem coisa boa.

— Melinda, eu não tenho boas notícias. — Ela prende a respiração, escolhendo as palavras. — O câncer do seu avô evoluiu para o estágio dois. Agora, o tratamento precisará ser mais agressivo.

Minha garganta trava e meus olhos queimam.

— O que isso significa? Ele vai piorar? — Minha voz sai falhada, pequena.

— Vai ser mais difícil, sim. Os efeitos colaterais serão mais fortes. — Ela suspira. — Mas ainda há chances de melhora se iniciarmos o tratamento certo.

Meu coração dispara, minha boca se adianta antes mesmo da razão.

— Então façam. Façam tudo. Eu não me importo, só quero que ele melhore.

É aí que ela hesita, e essa pausa me corrói.

— Melinda. .. o início desse novo tratamento custa em torno de dez mil dólares.

Sinto o sangue sumir do meu rosto. Dez mil. É como se ela tivesse enfiado a mão no meu peito e arrancado meu coração. Mas não acaba por aí, porque cada palavra dela a seguir é como uma lâmina nova.

— E além disso, o setor financeiro entrou em contato comigo. — Seus olhos baixam, quase como se sentisse vergonha. — As últimas despesas não foram pagas. Se o valor não for quitado em até uma semana, não poderemos manter seu avô aqui.

Ela estende uma folha, que eu pego com as mãos trêmulas. Meus olhos batem nos números e eu quase não consigo respirar. Cinco mil dólares.

Meu mundo despenca de uma vez só. Não tenho como pagar isso, nem agora e nem depois. Muito menos somado aos dez mil a mais de tratamento. É cruel, desumano, devastador. Quero gritar, quebrar essa parede fria do hospital e chorar até não restar nada de mim. Mas não posso, não na frente dela. Engulo o choro, mordo a língua e me seguro como quem se agarra a uma corda podre prestes a arrebentar.

Ele é tudo o que eu tenho. Meu avô é minha única família, minha razão para não ter desistido do mundo. Eu vou dar um jeito, nem que eu precise trabalhar dobrado, pegar todos os turnos, vender o que ainda sobrou dentro de casa. Nem que eu tenha que sangrar até os ossos.

Eu não vou desistir dele. Nunca.

**

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