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Capítulo 8: Ela Vai Chegar - Miguel Benites

O dia começou como todos os outros: com uma xícara de café amargo e uma pilha de relatórios que parecia nunca diminuir. A Benites Security não perdoava, e eu tampouco. Reuniões atrás de reuniões, clientes exigentes, funcionários que precisavam de orientação... às vezes, eu me perguntava se tudo aquilo valia a pena. Mas era minha responsabilidade, meu legado. E, no fim do dia, era tudo o que eu tinha.

— Senhor Benites, os representantes da GlobalTech estão na sala de conferências — minha secretária anunciou, interrompendo meus pensamentos. Ela era a única pessoa na empresa que ainda me tratava com um olhar carinhoso, como se soubesse que, por trás da fachada de CEO rabugento, havia um homem cansado.

— Obrigado — respondi, levantando-me da mesa. — Diga a eles que estarei lá em cinco minutos.

Ela acenou com a cabeça, mas antes de sair, lançou-me um olhar preocupado.

— Você já almoçou, senhor Benites?

— Não há tempo — respondi secamente, ajustando o nó da gravata.

As reuniões se arrastaram por horas. Negociações, números, projeções... tudo parecia se misturar em uma névoa de cansaço. Quando finalmente voltei para o meu escritório, o sol já começava a se pôr, lançando tons alaranjados sobre a cidade. Sentei-me à mesa, sentindo o peso do dia sobre os ombros. Meus olhos pousaram na foto emoldurada que eu mantinha em um canto discreto da mesa: era ela, minha esposa, sorrindo como só ela sabia fazer. A saudade apertou meu peito, como sempre fazia.

"Em que momento tudo deu errado?" pensei, olhando para a foto.

"Quando foi que eu me tornei essa sombra do homem que ela amava?"

A porta do escritório se abriu suavemente, e ela, carregando uma xícara de chá.

— Pensei que você poderia precisar disso — ela disse, colocando a xícara na minha frente. O cheiro de camomila era reconfortante, mas nem mesmo isso conseguia aliviar a dor que eu carregava.

— Obrigado — murmurei, segurando a xícara com as duas mãos.

— Senhor Benites, a nova babá chega amanhã. Gostaria que o carro da empresa a buscasse no aeroporto? — ela perguntou, com a voz suave que sempre usava quando sabia que eu estava no limite.

Eu olhei para a foto novamente, sentindo um aperto no peito. "Ela teria gostado de saber que estamos trazendo uma babá para cuidar da Giulia?" pensei, mas rapidamente afastei a ideia. Não havia espaço para sentimentalismos na minha vida.

— Sim, peça que o carro a busque — respondi, com um suspiro cansado.

— Talvez a Giulia queira ir ao aeroporto recebê-la — ela sugeriu, com um sorriso gentil. — É uma tradição do programa de au pair que a família receba a babá. Acho que seria bom para a pequena.

Eu hesitei por um momento, mas sabia que ela estava certa. Giulia merecia um pouco de normalidade, mesmo que eu não soubesse mais como proporcionar isso. E talvez ter esse primeiro contato em público facilitassem as coisas para nós.

— Está bem. Vou falar com ela hoje à noite — concordei, sentindo um peso ser tirado dos meus ombros. Dona Marta sempre sabia o que dizer.

Quando cheguei em casa, o cheiro de pão fresco enchia o ar. Giulia estava na cozinha, sentada à mesa com Maria, nossa funcionária que cuidava da casa. As duas estavam rindo de algo, e o som da risada da minha filha fez meu coração apertar de uma forma que eu não conseguia explicar.

— Pai! — Giulia gritou, correndo em minha direção. Ela me abraçou com toda a força que seus bracinhos pequenos conseguiam reunir, e eu me ajoelhei para ficar no nível dela.

— Oi, princesa. O que você está fazendo? — perguntei, tentando disfarçar o cansaço na voz.

— Estávamos fazendo um lanche! Maria me ensinou a fazer sanduíches de queijo derretido — ela respondeu, com um sorriso que iluminava o rosto.

— Que delícia — eu disse, levantando-me e caminhando até a mesa. Maria me cumprimentou com um aceno, e eu agradeci com um sorriso cansado.

— Pai, a nova babá chega amanhã? — Giulia perguntou, sentando-se novamente à mesa.

— Sim, princesa. Ela vem do Brasil — respondi, sentando-me ao lado dela. — Pensei que talvez você queira ir ao aeroporto recebê-la.

Os olhos dela brilharam de empolgação.

— Podemos fazer um cartaz de boas-vindas? — ela sugeriu, com um entusiasmo que eu não via há muito tempo.

Eu olhei para ela, sentindo um sorriso se formar nos meus lábios, apesar de mim mesmo.

— Claro que podemos. Vamos fazer o melhor cartaz de boas-vindas que já existiu.

Giulia sorriu, e por um momento, o peso do dia pareceu um pouco mais leve. Talvez, apenas talvez, eu ainda pudesse fazer algo certo.

Abandonar de uma vez o vício e me concentrar apenas em minha família. Apenas no que importa de verdade.

Estamos terminando de desenhar pizzas em uma cartolina rosa, quando meu telefone toca e o número da minha ex-sogra aparece.

Sinto meus dedos tremerem ao me lembrar das suas duras críticas, da forma como me ameaça e como fala sobre mim na frente de Giulia.

Como ela reagirá ao descobrir que estou colocando uma babá para me ajudar com a minha filha?

Sem dúvidas irá enlouquecer.

Olho mais uma vez para o visor e decido não enfrentar essa batalha hoje.

Desligo.

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