Mundo ficciónIniciar sesiónTrês dias depois, o que aconteceu no leilão ainda rondava a minha mente. Sempre que eu lembrava daquele homem, a minha irritação atingia níveis estratosféricos. Ele é um babaca. Um ogro.
— Ainda não a encontraram? — A voz exasperada do meu pai ecoou por toda a casa e causou o meu estranhamento.
Hoje é o casamento de Beatrice e o dia deveria ser de alívio para ele. Encontrei-o na sala, andando de um lado para o outro com o celular no ouvido, enquanto a minha mãe tentava convencê-lo a pegar uma xícara – provavelmente com chá.
A tensão era evidente entre eles, que, assim como eu, já estavam vestidos para a cerimônia.
— O que houve? — Perguntei.
— Beatrice desapareceu — a minha mãe disse baixo, como se proferir tais palavras fosse um pecado. — Não atende as ligações, não está em casa, não está com as amigas... Sumiu completamente.
— O quê? — Arregalei os olhos, perplexa. — Mas... Caramba...
Nós duas não temos uma boa relação, mas eu fiquei extremamente preocupada com Beatrice. É a minha irmã, afinal. Será que ela está bem? Fisicamente bem?
Ela estava tão empolgada para se casar com um herdeiro tão rico... Por que sumiu?
— Sim, a polícia já está fazendo as buscas! — O meu pai disse alto, aflito. — Mas eu contratei vocês para intensificar a procura! Dei dez mil dólares para um grupo incompetente de investigadores particulares trazerem a minha filha para casa!
— Já são seis horas, Irina — a voz da minha mãe estava trêmula. — O casamento será às sete e a Beatrice não falou nem com a própria mãe.
— Mais importante do que pensar nesse casamento é encontrá-la o mais rápido possível! — Falei depressa, agitada. — Cada minuto pode ser crucial! Não sabemos o que aconteceu!
— Não é bem assim... Não podemos simplesmente abandonar o assunto do casamento, que deverá acontecer em uma hora.
— Como não, mãe? — A incredulidade me atingiu. — Beatrice está desaparecida, pode ter sido sequestrada, pode ter tido uma crise grave de ansiedade... — Disparei, nervosa. — O casamento que se dane!
A nossa conversa foi interrompida pelo meu pai, que finalmente pegou a xícara; mas para arremessá-la contra a parede mais próxima. Ele estava furioso e deixou a sala em passos barulhentos após atirar o seu celular no sofá. A minha mãe o seguiu.
— O que se... — Calei-me ao ver a tela do aparelho acesa.
A curiosidade me consumiu e eu fui até lá.
De novo bisbilhotando o celular alheio... Você não aprende, Irina.
Sentei-me no sofá e peguei o aparelho para ler a mensagem recém-chegada. Era de alguém chamado John Turner.
“Victor, você sabe exatamente o que fazer. Se não quiser perder a sua parte na construtora, esteja com a sua filha às sete horas na igreja. Lembre-se: uma Collins e um Turner. Somente isso.”
— Uma Collins e um Turner... — Sussurrei, tentando compreender o que aquilo significava.
— Irina, você viu o meu celular?
Assustei-me com o retorno do meu pai, que tinha a minha mãe em seu encalço. Os dois, apreensivos, vinham até mim.
— Nenhuma pista da Beatrice? — Questionei-o.
— Nada — ele suspirou. — Há muitas pessoas envolvidas na busca e, ainda assim, não tivemos notícias até o momento.
— Isso é mais sério do que parece — murmurei, cada minuto mais preocupada. — Temos que encontrá-la, temos que participar das buscas se for necessário e...
— Irina — o meu pai me calou ao segurar a minha mão. — Por favor, eu não quero que ninguém saia de casa. Se for um sequestro, todos nós podemos ser um segundo alvo.
— Que ideia mais absurda! — A minha mãe riu soprado. — Quem sequestraria um membro de uma família falida?
— Nós não estamos falidos — o meu pai rebateu.
— Ainda não, mas quase! — Ela prosseguiu. — Se Beatrice não aparecer em cinquenta minutos, nós ficaremos sem empresa e sem casa!
— O quê? — Espantei-me.
— Você sabe que a nossa construtora se uniu à construtora dos Turner e que agora nós formamos a T&C Construções repartida em partes igualitárias — encarei o meu pai, que explicava. — Se não cumprirmos o acordado, nós perderemos a nossa parte e seremos obrigados a pagar uma multa. Como não temos dinheiro o suficiente, teremos que vender esta casa para pagá-la.
— Que tipo de contrato foi esse? — Exaltei-me. — Você também prometeu a sua alma, pai?
— O retorno é fantástico! — Ele se defendeu. — Vale o risco!
— Valeria o risco se Beatrice estivesse aqui, vestida de noiva, pronta para entrar na igreja! — Olivia Collins estava uma fera. — Nós ficaremos sem teto para morar, Victor! Nós temos uma filha criança!
Os dois continuaram discutindo, intensificando o caos daquela terrível noite de domingo.
Pensar em Claire me deixou de coração partido. A minha irmãzinha, tão jovem, seria severamente prejudicada caso o acordo não fosse cumprido. Como explicar para uma garota de oito anos de idade que a sua família faliu completamente? Ela não merecia sofrer por uma decisão tomada pelo nosso pai.
Você sabe o que fazer para evitar que isso aconteça, Irina. Uma Collins e um Turner.
— Eu me caso com o Turner! — Decretei em um grito, ficando de pé entre os dois. — Eu vou honrar o acordo!
Eles se calaram e me olharam.
Silêncio absoluto.
A queda de uma agulha podia ser notada naquele momento.
— Irina... Filha... — A minha mãe tinha os olhos arregalados, tentava processar o que ouviu. — Você tem certeza disso? Tem certeza de que quer isso?
— Irina, nós não estamos brincando aqui — o meu pai disse, tão chocado quanto a sua esposa. — O que você está se dispondo a fazer é muito sério e...
— Eu estou convencida de que é isso que vou fazer — falei alto, com firmeza. — Se Beatrice não aparecer em trinta minutos, pai, você consegue evitar a perda das ações e a cobrança da multa?
Ele acenou negativamente com a cabeça.
— Então, se não há outra saída, eu vou — respirei fundo, nervosa. — Há décadas de esforços plantados naquela empresa e nós não podemos perdê-la assim tão fácil. Farei esse sacrifício por todos nós, pela nossa família.
Os meus pais, assustados, se entreolharam.
— Serão apenas dois anos, e eu consigo lidar com isso — afirmei. — Passará rápido.
— Bom... — O meu pai encolheu os ombros. — Sendo assim...
A minha mãe providenciou outro vestido e organizou uma força-tarefa para me arrumar a tempo. Quando me posicionei de frente para o espelho e me vi vestida de noiva, os meus olhos se encheram de lágrimas.
Tantas vezes me imaginei vestida desse jeito para me casar com Vittorio.
E agora eu vou me casar com um desconhecido qualquer, por um motivo seríssimo e em uma situação que não me favorece em nada.
Mas é apenas isso que me resta daqui para frente: encarar tudo como um negócio, já que o amor não faz parte do meu destino e nunca resultará em um casamento. Tentei uma vez, duas vezes, e me dediquei intensamente na terceira vez. Nada deu certo, o que significava que o amor não era para mim.
— Alguma notícia de Beatrice? — Essa foi a minha última pergunta antes de abrirem as portas da igreja.
Não me responderam.
Avancei em passos lentos na direção do noivo e quando os seus olhos verdes encontraram os meus, quase tropecei nos meus próprios pés.
Congelei.
Entreabri os lábios para tentar respirar melhor.
Estou zonza.
O homem que me aguardava no fim do trajeto era o grosseiro que me confrontou e me tirou totalmente do sério no leilão. Eu falei que não queria vê-lo nunca mais e agora, por uma trapaça do destino, estou prestes a me casar com ele.
Não consigo acreditar. A sensação que tenho é de estar presa em um sonho muito estranho, sem sentido. Em que momento eu vou acordar e descobrir que nada disso está acontecendo?
À medida que nos aproximávamos e os seus olhos verdes se tornavam mais brilhantes e inconfundíveis para mim, eu assimilava que aquilo era real e compreendia que não posso desistir. Não importa o que aconteça.
Por mais que esteja louca para sair correndo daqui e deixar esse ogro boçal plantado no altar, eu sei que tenho um objetivo muito maior para cumprir. A minha família depende de mim agora.
E eu vou seguir o roteiro do início ao fim.
— O que Deus uniu o homem não separa! — O padre disse após longos minutos de cerimônia. — Eu vos declaro marido e mulher! O noivo pode beijar a noiva e selar o pacto realizado!
Brent pousou as suas mãos grandes nos meus ombros e beijou a minha testa.
— Então você, a encrenqueira do leilão, é a senhorita Collins? — Ele sussurrou ainda tendo os lábios grudados na minha pele. — Quem poderia imaginar...
— E você, o ogro do leilão, é o fantasma Turner? — Também falei em um sussurro.
Brent riu fraco.
— Não espere nada de mim, eu nunca vou te amar — disse baixinho, como quem conta um segredo. — Você não passa de um acessório conveniente para me levar aonde quero chegar.
Senti-me profundamente desrespeitada e não vou ficar calada.
— Unir esse casamento ao seu amor seria um fardo pesado demais para carregar — sussurrei a minha resposta, disposta a não aceitar o seu atrevimento em um momento tão inadequado. — Eu o dispenso totalmente.
Identifiquei um burburinho entre os convidados e fiquei preocupada. Não estávamos convencendo o bastante e isso poderia afetar o fechamento do negócio.
— Me beije — ordenei. — Agora.
A surpresa de Brent ficou evidente em sua expressão ao se afastar. A impassividade, por um instante, deixou de existir.
— Me beije agora — insisti, sustentando a nossa troca de olhares.
Ele pareceu refletir.
Logo após, sem hesitar, abaixou a sua cabeça e capturou os meus lábios com os seus. O toque macio e ao mesmo tempo firme me arrepiou completamente. O seu cheiro, o calor do seu corpo, a maneira como me segurava entre os seus braços fortes... Tudo isso me perturbou e causou em mim um arrepio eletrizante.
O meu corpo vibrou, agitou-se.
Por que essa sensação me parece tão familiar?







