Mundo ficciónIniciar sesiónReuni toda a minha coragem, respirei fundo e circulei pelo salão em busca do comprador. Não demorei a encontrá-lo. Ele já tinha o porta-joias nas mãos e o entregava para a loira que arrematou quase todos os itens leiloados até o momento.
— Não acredito... — Bufei. — Só pode ser brincadeira.
Mas ainda assim não desisti. Pela minha mãe.
O homem se afastou antes que eu conseguisse me aproximar. Restou, então, tentar falar com a loira espalhafatosa. Iniciei a nossa conversa de modo educado, usando toda a minha paciência para explicá-la as minhas razões para querer tanto aquele porta-joias.
— Sinto muito, queridinha, mas não vai rolar — a sua voz era extremamente aguda, incômoda. — Eu gostei dele e vou ficar.
Queridinha... Péssima escolha de palavra.
— Além disso, cá entre nós, você não teria a menor condição de pagar os míseros vinte mil dólares que ofereceu — riu.
Olhávamos uma para a outra da cabeça aos pés em uma batalha não tão silenciosa.
— O que está insinuando? — Mantive o volume da voz, porém o meu tom se tornou menos amigável.
— Eu te conheço, Irina Collins.
Ela exibiu um sorriso carregado de deboche.
— Sei que a sua família está falida, que faz malabarismos para se manter de pé há pelo menos três anos, que o sobrenome de vocês já não tem tanto prestígio em Cliffston e que você anda procurando um emprego para não passar fome.
Enquanto falava, ela não parava de sorrir. Isso me irritou muito. Bastante. Me irritou tanto quanto as suas palavras maldosas.
— O que você quer em troca do porta-joias? — Perguntei.
Não vou sair da linha. A minha intenção aqui é tentar pegar o porta-joias da minha mãe de volta.
— Você já deve ter vendido todas as suas joias, então não há a necessidade de ter um objeto como esse.
— Eu te falei que existe um valor sent...
— Que se dane toda a droga dos seus sentimentos! — Interrompeu-me. — Você não tem nada para me oferecer, se toca! — Acariciou o seu colar com diamantes e sorriu largo. — Eu não uso bijuterias, Irina.
— Não é porque eu não saio de casa enfeitada como uma árvore de Natal e seus penduricalhos — apontei para as suas joias — que eu não tenho nada.
A loira cerrou os seus olhos flamejantes para mim e riu fraco, claramente nervosa.
É, eu peguei pesado.
Pode ter sido pesado demais e a minha última chance de conseguir o porta-joias foi para o ralo.
— Talvez eu use esta porcaria de porta-joias para guardar as coleiras da Brigitte, a minha cachorra — disse entredentes, furiosíssima.
Após respirar fundo, ela deu uma olhada ao nosso redor e fez algo absurdo.
Algo inimaginável, insano.
Aquela loira diabólica simplesmente pegou uma taça de vinho em algum lugar e jogou o líquido no próprio vestido, que, para piorar, era branco. A mancha bordô se espalhou rapidamente pelo tecido e o seu grito de surpresa atraiu a atenção de todos ali.
— O que você fez? — Ela disse alto, fingindo estar assustada comigo. — Por que me atacou? Por que jogou vinho em mim?
— O quê? — Espantei-me. — Eu não fiz nada!
— Fingida! — Acusou-me. — Você me atacou porque eu ganhei o que você queria arrematar!
— O que está acontecendo aqui?
Estremeci ao escutar aquela voz.
Era o homem com quem troquei olhares minutos atrás.
A sua postura era rígida e implacável e o seu par de olhos verdes estava direcionado para mim.
— Veja! — A loira apontou para o próprio corpo. — Foi ela! Essa mulher fez isso comigo só porque você arrematou o porta-joias e me deu! — O seu tom de voz havia mudado completamente, já não exalava a soberba de antes. — Eu disse que você desistiria da compra e que cederia o item para ela, mas de nada adiantou!
Eu estava em choque.
Como podia existir alguém assim? Quão alto deve ser o grau de psicopatia para se sujar e dizer que foi outra pessoa?
— Estou me sentindo tão humilhada... — Ela continuou.
O homem, que até então não sei sequer o nome, não desviou os seus olhos acusadores de mim. Ele ergueu uma das suas sobrancelhas e isso me incomodou muito. Estava me desafiando a falar?
— Eu não fiz nada disso! — Defendi-me. — Ela jogou vinho no próprio vestido e...
— Você não tem vergonha por brigar de uma maneira tão baixa? — A voz grossa daquele homem me fez calar a boca. — E por causa de um simples porta-joias?
— Eu estava justamente tentando explicar que...
— Não se faça de boazinha na frente dele! — A loira me acusou outra vez. — Você é má!
— Quem está fazendo isso é você! — Gritei, sentindo-me altamente injustiçada. — E eu não preciso fingir nada para ninguém! Sou o que sou e ponto final!
— Então você assume que é uma mal-educada e péssima perdedora? — Ele cruzou os braços, intransigente.
— Quem você pensa que é para falar assim comigo?
Ele inclinou a cabeça e arqueou as sobrancelhas, em uma aparente surpresa. Será que acreditou que eu ficaria calada? Ou que fugiria como uma menina assustada?
Por mais que ele seja extremamente lindo e que a sua beleza e a sua postura sejam intimidadoras, eu nunca vou permitir que ninguém me coloque em uma posição inferior à que mereço.
— Foi você que veio caçar confusão, senhorita — ele não alterou o volume da sua voz nem por um segundo.
— Eu pensei que a sua acompanhante fosse uma pessoa civilizada e tentei...
— Ainda continua me agredindo? — A loira choramingou. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. — O que eu te fiz?
— Peça desculpas a ela!
A exigência e o tom autoritário daquele homem me revoltaram de uma maneira que, naquele momento, eu seria capaz de pisoteá-lo.
— O que disse? — Afrontei-o.
Mantive a atenção total nele e nós travamos um embate de olhares.
Castanho versus verde.
Sem dúvidas, ele era um homem belíssimo; do tipo que te faz duvidar se é alguém real ou fruto dos seus desejos mais intensos.
Mas era um babaca.
— Você escutou muito bem.
— Não precisa — a loira manipuladora simulou uma bondade que definitivamente não combinava com ela. — Eu não faço questão de nada disso. Só quero ir embora.
— Mas eu faço.
— Pois vai ficar sem o que quer — sustentei o seu olhar, lutando pela minha dignidade. — Jamais pedirei desculpas por algo que não fiz.
Tentei sair dali, porém ele se colocou na minha frente. Poucos centímetros separavam o seu corpo do meu. Eu podia até sentir os jatos da sua respiração ofegante em meu rosto quente de ódio.
A minha respiração também estava acelerada, fora do ritmo. E para piorar, o seu cheiro varonil invadiu as minhas narinas e me entorpeceu. Tive uma sensação estranha. Assim como a respiração, o meu coração acelerou.
Estávamos muito perto um do outro e os nossos olhos sequer piscavam. Ele parecia tão imerso naquilo quanto eu. Era estranho e inadequado.
— Você é prepotente e grosseiro! — Falei alto, disposta a pôr um fim naquela situação. — E eu espero não ter o desprazer de te ver outra vez na minha frente! Nunca mais!







