Capítulo 6 — Prepotente e grosseiro

Reuni toda a minha coragem, respirei fundo e circulei pelo salão em busca do comprador. Não demorei a encontrá-lo. Ele já tinha o porta-joias nas mãos e o entregava para a loira que arrematou quase todos os itens leiloados até o momento.

— Não acredito... — Bufei. — Só pode ser brincadeira.

Mas ainda assim não desisti. Pela minha mãe.

O homem se afastou antes que eu conseguisse me aproximar. Restou, então, tentar falar com a loira espalhafatosa. Iniciei a nossa conversa de modo educado, usando toda a minha paciência para explicá-la as minhas razões para querer tanto aquele porta-joias.

— Sinto muito, queridinha, mas não vai rolar — a sua voz era extremamente aguda, incômoda. — Eu gostei dele e vou ficar.

Queridinha... Péssima escolha de palavra.

— Além disso, cá entre nós, você não teria a menor condição de pagar os míseros vinte mil dólares que ofereceu — riu.

Olhávamos uma para a outra da cabeça aos pés em uma batalha não tão silenciosa.

— O que está insinuando? — Mantive o volume da voz, porém o meu tom se tornou menos amigável.

— Eu te conheço, Irina Collins.

Ela exibiu um sorriso carregado de deboche.

— Sei que a sua família está falida, que faz malabarismos para se manter de pé há pelo menos três anos, que o sobrenome de vocês já não tem tanto prestígio em Cliffston e que você anda procurando um emprego para não passar fome.

Enquanto falava, ela não parava de sorrir. Isso me irritou muito. Bastante. Me irritou tanto quanto as suas palavras maldosas.

— O que você quer em troca do porta-joias? — Perguntei.

Não vou sair da linha. A minha intenção aqui é tentar pegar o porta-joias da minha mãe de volta.

— Você já deve ter vendido todas as suas joias, então não há a necessidade de ter um objeto como esse.

— Eu te falei que existe um valor sent...

— Que se dane toda a droga dos seus sentimentos! — Interrompeu-me. — Você não tem nada para me oferecer, se toca! — Acariciou o seu colar com diamantes e sorriu largo. — Eu não uso bijuterias, Irina.

— Não é porque eu não saio de casa enfeitada como uma árvore de Natal e seus penduricalhos — apontei para as suas joias — que eu não tenho nada.

A loira cerrou os seus olhos flamejantes para mim e riu fraco, claramente nervosa.

É, eu peguei pesado.

Pode ter sido pesado demais e a minha última chance de conseguir o porta-joias foi para o ralo.

— Talvez eu use esta porcaria de porta-joias para guardar as coleiras da Brigitte, a minha cachorra — disse entredentes, furiosíssima.

Após respirar fundo, ela deu uma olhada ao nosso redor e fez algo absurdo.

Algo inimaginável, insano.

Aquela loira diabólica simplesmente pegou uma taça de vinho em algum lugar e jogou o líquido no próprio vestido, que, para piorar, era branco. A mancha bordô se espalhou rapidamente pelo tecido e o seu grito de surpresa atraiu a atenção de todos ali.

— O que você fez? — Ela disse alto, fingindo estar assustada comigo. — Por que me atacou? Por que jogou vinho em mim?

— O quê? — Espantei-me. — Eu não fiz nada!

— Fingida! — Acusou-me. — Você me atacou porque eu ganhei o que você queria arrematar!

— O que está acontecendo aqui?

Estremeci ao escutar aquela voz.

Era o homem com quem troquei olhares minutos atrás.

A sua postura era rígida e implacável e o seu par de olhos verdes estava direcionado para mim.

— Veja! — A loira apontou para o próprio corpo. — Foi ela! Essa mulher fez isso comigo só porque você arrematou o porta-joias e me deu! — O seu tom de voz havia mudado completamente, já não exalava a soberba de antes. — Eu disse que você desistiria da compra e que cederia o item para ela, mas de nada adiantou!

Eu estava em choque.

Como podia existir alguém assim? Quão alto deve ser o grau de psicopatia para se sujar e dizer que foi outra pessoa?

— Estou me sentindo tão humilhada... — Ela continuou.

O homem, que até então não sei sequer o nome, não desviou os seus olhos acusadores de mim. Ele ergueu uma das suas sobrancelhas e isso me incomodou muito. Estava me desafiando a falar?

— Eu não fiz nada disso! — Defendi-me. — Ela jogou vinho no próprio vestido e...

— Você não tem vergonha por brigar de uma maneira tão baixa? — A voz grossa daquele homem me fez calar a boca. — E por causa de um simples porta-joias?

— Eu estava justamente tentando explicar que...

— Não se faça de boazinha na frente dele! — A loira me acusou outra vez. — Você é má!

— Quem está fazendo isso é você! — Gritei, sentindo-me altamente injustiçada. — E eu não preciso fingir nada para ninguém! Sou o que sou e ponto final!

— Então você assume que é uma mal-educada e péssima perdedora? — Ele cruzou os braços, intransigente.

— Quem você pensa que é para falar assim comigo?

Ele inclinou a cabeça e arqueou as sobrancelhas, em uma aparente surpresa. Será que acreditou que eu ficaria calada? Ou que fugiria como uma menina assustada?

Por mais que ele seja extremamente lindo e que a sua beleza e a sua postura sejam intimidadoras, eu nunca vou permitir que ninguém me coloque em uma posição inferior à que mereço.

— Foi você que veio caçar confusão, senhorita — ele não alterou o volume da sua voz nem por um segundo.

— Eu pensei que a sua acompanhante fosse uma pessoa civilizada e tentei...

— Ainda continua me agredindo? — A loira choramingou. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. — O que eu te fiz?

— Peça desculpas a ela!

A exigência e o tom autoritário daquele homem me revoltaram de uma maneira que, naquele momento, eu seria capaz de pisoteá-lo.

— O que disse? — Afrontei-o.

Mantive a atenção total nele e nós travamos um embate de olhares.

Castanho versus verde.

Sem dúvidas, ele era um homem belíssimo; do tipo que te faz duvidar se é alguém real ou fruto dos seus desejos mais intensos.

Mas era um babaca.

— Você escutou muito bem.

— Não precisa — a loira manipuladora simulou uma bondade que definitivamente não combinava com ela. — Eu não faço questão de nada disso. Só quero ir embora.

— Mas eu faço.

— Pois vai ficar sem o que quer — sustentei o seu olhar, lutando pela minha dignidade. — Jamais pedirei desculpas por algo que não fiz.

Tentei sair dali, porém ele se colocou na minha frente. Poucos centímetros separavam o seu corpo do meu. Eu podia até sentir os jatos da sua respiração ofegante em meu rosto quente de ódio.

A minha respiração também estava acelerada, fora do ritmo. E para piorar, o seu cheiro varonil invadiu as minhas narinas e me entorpeceu. Tive uma sensação estranha. Assim como a respiração, o meu coração acelerou.

Estávamos muito perto um do outro e os nossos olhos sequer piscavam. Ele parecia tão imerso naquilo quanto eu. Era estranho e inadequado.

— Você é prepotente e grosseiro! — Falei alto, disposta a pôr um fim naquela situação. — E eu espero não ter o desprazer de te ver outra vez na minha frente! Nunca mais!

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP