Mundo ficciónIniciar sesiónIRINA COLLINS
A exaustão me consumia quando coloquei os pés dentro de casa, já de volta à Cliffston. O cansaço era físico e psicológico. O que aconteceu naquela madrugada dominou os meus pensamentos durante todo o trajeto de retorno para a minha cidade e toda a semana que passou.
Eu não conseguia tirar aquele homem da minha cabeça. Ainda podia sentir o calor do seu corpo e a firmeza dos seus toques. Ele me marcou de muitas formas e agora eu simplesmente precisava lidar com o fato de que jamais o verei novamente.
— Ah, então você voltou mesmo? — A voz mais irritante que já ouvi em toda a minha vida entoou essas palavras carregadas de veneno para mim.
Beatrice é a minha irmã mais velha. Na verdade, a minha única meia-irmã. Ela é fruto do primeiro casamento do meu pai, ou seja, também é uma Collins e usufrui de todos os benefícios que o nosso sobrenome nos proporciona.
Bom... Infelizmente, isso não significa muita coisa hoje em dia. A nossa família é assombrada por uma crise nas finanças há pelo menos três anos.
— O seu relacionamento com o italiano perfeito deu errado, Irina? — Beatrice insistiu, determinada a me envergonhar na frente dos nossos familiares reunidos para o café da manhã.
Fechei as minhas mãos em punho ao lado do corpo, controlando-me para não jogar o seu prato na sua cabeça.
— E o seu noivo arranjado? — Rebati, jogando tão sujo quanto ela. — Você já o conheceu? Ou ele ainda é um fantasma entre nós?
O silêncio predominou no local. O clima era hostil.
— Vejo que você continua agradável como sempre — Beatrice sorriu minimamente.
— Repasso o elogio.
Entreolhamo-nos como verdadeiras rivais. Eu não queria que fosse assim, mas ela faz questão de me alfinetar quando me encontra e de manter essa atmosfera terrível entre nós duas.
Quando pensei nas vantagens de retornar para a minha casa, com certeza não incluí as visitas inconvenientes de Beatrice Collins nisso.
— Como se não bastasse todos os nossos problemas financeiros, vocês ainda preferem conviver como inimigas! — O nosso pai bateu na mesa e, irritado, saiu dali.
Há três anos esse tem sido o seu comportamento: estresse total, péssima alimentação e pouquíssima distração. O meu pai tentava de tudo para reverter a situação e impedir que entrássemos em processo de falência, até mesmo casar uma filha com um concorrente de longa data para tentar salvar o que sobrou da nossa construtora.
[...]
— Por que estamos em uma casa de leilões? — Direcionei a pergunta para a minha mãe.
O local ficava em Highpine, outra cidade vizinha de Cliffston.
— Você sabe que não podemos gastar um centavo sequer — sussurrei. — Estamos quebrados, ontem mesmo você vendeu mais joias.
O espaço estava preenchido por ricaços e nós já não fazíamos mais parte desse grupo há alguns anos.
— Viemos recuperar o porta-joias da mamãe, que eu vendi há dois meses para pagar os funcionários da nossa casa.
Ela revelou que o meu pai havia recebido um adiantamento de parte da quantia acordada com os Turner pelo casamento, que acontecerá em três dias. Desse valor, quinze mil dólares foram repassados para as suas mãos e, ao invés de guardá-los, a sua intenção era recuperar o objeto de valor sentimental.
E eu não a culpo, pois faria o mesmo se estivesse em seu lugar.
Dinheiro nenhum vale mais que uma recordação.
— Este porta-joias do século dezoito tem o lance inicial de cinco mil dólares — a fala do leiloeiro nos deixou ansiosas. — O incremento mínimo será de mil dólares.
Três pessoas fizeram os seus lances. Dentre elas, uma loira. Essa mulher simplesmente arrematou a maioria dos itens disponíveis de hoje. A sua quantidade excessiva de joias nos fazia pensar que era uma ricaça disposta a gastar muito dinheiro em futilidades.
— Quinze mil dólares — ela disse em alto e bom som, atraindo a atenção de todos nós para si.
O sorriso da minha mãe, que até então tinha o maior lance, desapareceu completamente. Os seus olhos foram tomados por lágrimas, e o meu peito doeu. Como qualquer filha, odeio ver a minha mãe desse jeito. É desolador.
Esse objeto é de família, é da nossa família, é importante para ela e por isso é importante para mim também. Decidi, então, colocar as minhas economias à disposição. São apenas cinco mil dólares, mas podem ser decisivos agora.
— Vinte mil dólares! — Anunciei a minha oferta, a última tentativa.
Um burburinho se formou na sala.
— Quem dá mais? — O leiloeiro sorria, contente com a disputa.
Engoli em seco, tensa.
Que ninguém se manifeste.
Que ninguém se manifeste.
— Cinquenta mil dólares!
A voz que ecoou pela sala foi masculina. Uma voz forte, grave, dominante e... Estranhamente familiar.
Em choque com o lance absurdo, olhei na direção do homem que o anunciou e o localizei com a plaquinha erguida. O impacto de vê-lo, mesmo que de perfil, me deixou desorientada.
Prendi a respiração.
As minhas mãos suaram e a placa que eu segurava caiu no chão.
— Cubro qualquer lance — ele reforçou falando devagar, saboreando cada letra das palavras proferidas.
Quando concluiu o que disse, encarou-me como quem tem a intenção de impor a sua superioridade.
Eu estava paralisada, sentia algo estranho, desconhecido... E com o poder dos seus olhos direcionados aos meus, não consegui recobrar a sobriedade.
— Vendido para o senhor!
Hipnotizada, capturei cada detalhe daquele homem que mais parecia uma escultura de bravo guerreiro. Os seus cabelos castanhos e ondulados roçavam no colarinho da sua camisa branca, a sua mandíbula era bem evidente, o seu rosto era livre de barba e de bigode, os seus lábios eram levemente carnudos e rosados, o seu nariz tinha o dorso reto digno de um deus grego, as sobrancelhas eram um pouco grossas e bem delineadas e os seus olhos verdes tiravam o fôlego de qualquer um.
— Faremos um intervalo de dez minutos — o leiloeiro anunciou.
A nossa troca de olhares foi interrompida pelas pessoas circulando entre nós.
Algo nele me intrigava, atraía a minha curiosidade, me levava ao seu encontro.
— Ainda há uma chance, mãe — eu disse, determinada a mudar aquele resultado. — Vou falar com o comprador.







