CAPÍTULO 4

NIKOLAI VOLKOV

AO AMANHECER…

A consciência voltou como um golpe, brutal e repentino. A minha cabeça latejando, enquanto o mundo girava ao meu redor.

Meus olhos se abriram para um quarto desconhecido. E então, senti — o calor de um corpo suave contra o meu. O peso de um braço alheio sobre o lençol.

O que vi fez o meu sangue gelar instantaneamente. Uma mulher. Ela estava de costas para mim e completamente despida, seus ombros eram finos, e a pele delicada e pálida. O cabelo escuro esparramava-se no travesseiro.

Meu instinto, ainda embotado pela droga, foi de alerta. “Quem diabos era aquela?” Como se sentisse o peso do meu olhar, ela se moveu. Um suspiro, um tremor. E então, ela se virou.

Naquele momento senti meu mundo parar, em seu rosto, uma enorme cicatriz.

Uma linha violenta que serpenteava da têmpora até a boca, uma marca de brutalidade eternizada em traços delicados. Era uma jovem. E eu não a conhecia. Não fazia ideia de quem era ela.

Nossos olhos se encontraram. Os dela, verdes, se arregalaram de horror. Ela abriu a boca para gritar.

— Cale-se maldita! — rosnei, minha voz um rugido áspero que ecoou no quarto silencioso.

O susto a fez emudecer, mas não a acalmou. Ela se encolheu, puxando os lençóis para cobrir o corpo nu, um tremor incontrolável percorrendo-a.

— Quem é você? — sussurrou, a voz um fio de horror. — O que está fazendo na minha cama? Nu?

Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com violência.

E lá estavam eles. Victoria na frente, com um sorriso vingativo. Atrás, os Harrington — Richard com seu olhar de falsa decepção, Elizabeth com a mão no peito, fingindo choque.

— Meu Deus! — Elizabeth exclamou, a sua voz era o puro teatro — Nikolai… você… você desonrou minha filha! E a minha pobre filha Angeline foi… criada em um internato!

O velho Richard avançou, seu olhar de aço perfurando-me. — Você corrompeu a pureza dela sob o meu teto! Na nossa tradição, você sabe o preço. Vai assumir e se casar com ela. Um homem do seu posto deve dar o exemplo!

E então, Victoria. Seus olhos azuis brilhavam com um ódio triunfante enquanto percorriam a cena: eu, ainda atordoado na cama, e a irmã, a "deformada", tremendo como uma folha.

Ela riu, um som gelado. — Quem diria, Nikolai? Resistiu a mim por ter gostos tão… peculiares. Gosta do circo dos horrores, é? — Seus olhos se voltaram para a irmã. — E você, irmãzinha? Criada como santa, e afinal… é uma vadia.

— Não! — a garota gritou, desesperada. — Isso não é verdade! Nunca dormi com ele, nem o conheço! Por que ele está no meu quarto?

Ela chorava, tremia, parecia à beira de um ataque. E eu… eu quase caí naquela atuação. Quase.

Mas não era tão idiota. O óbvio estava bem ali diante dos meus olhos. A peça final daquela maldita armadilha, era justamente, a falsa inocência, o desespero coreografado. Ela estava no jogo, assim como todos os Harrington. Foram cúmplices para me prender a essa… coisa.

Não era um erro. Era uma armadilha, perfeita e sádica.

O rugido do motor da limusine ao desligar me arranca do passado. Estou de volta. Diante da minha nova prisão. Com a mulher que foi o instrumento da minha queda.

Olho para Angeline, ainda encolhida em seu canto. O véu é um símbolo de tudo isso: uma cobertura para uma verdade nojenta. E eu fui o tolo que caiu no conto de fadas podre deles.

Mal cruzei a soleira do salão principal da mansão, puxando Angeline como um fardo ao meu lado, quando me deparei com aquela cena grotesca. Meu pai, Ivan Volkov, e os outros senhores do clã, assim como os Harrington, já nos esperavam.

Ao olhar para o rosto triunfante de Victoria e dos seus pais, meu sangue ferveu, mas me controlei.

O olhar gélido do meu pai ainda me lembrava da maldita vergonha que senti quando mais tarde, quando cheguei a mansão Volkov e tive que contar a meu pai na seu escritório.

— Foi uma armadilha, pai — expliquei, minha voz carregada de uma raiva contida. — Eles me drogaram. Puseram aquela mulher na minha cama.

Ivan Volkov, o Velho Urso, olhou para mim, seu rosto marcado por rugas e desconfiança. O silêncio dele era mais assustador que qualquer gritaria.

— E você caiu, filho — ele finalmente disse, sua voz um rosnado baixo. — Caiu como um novato. Agora está preso a essa maldita família está preso os… Harrington.

— Estou preso a nada — retruquei, meus olhos fixos nos dele. — O casamento é só um pedaço de papel. E vai ser a desculpa perfeita para acabar com eles.

Ele estudou meu rosto por um longo momento, a decepção nos seus olhos lentamente dando lugar a um brilho de resignação sombria.

— Espero que saiba o que está fazendo, Nikolai — ele resmungou, virando-se para a janela. — Você é o Pakhan agora. Suas decisões afetam a todos nós.

— Sei muito bem o que faço, pai — respondi, a imagem de Victoria sorrindo queimando na minha mente. — Sei perfeitamente.

E sabia. Organizei aquele casamento idiota eu mesmo. Para eles, era a minha rendição. Para mim, era a primeira pá cavando a cova deles, ninguém brinca com Nikolai Volkov.

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