Mundo ficciónIniciar sesiónNIKOLAI VOLKOV
Mal cruzei a soleira do salão principal da mansão, arrastando Angeline como um fardo ao meu lado, quando me deparei com aquela cena grotesca. Meu pai, Ivan Volkov, e os outros senhores do clã, assim como os Harrington, já nos esperavam. Ao olhar para o rosto triunfante de Victoria, novas memórias me assombraram — os fragmentos enevoados do que havia acontecido apenas algumas horas antes, ao amanhecer. AMANHECER NA MANSÃO HARRINGTON… A consciência voltou como um golpe, brutal e repentino. A minha cabeça latejando, enquanto o mundo girava ao meu redor. Meus olhos se abriram para um quarto desconhecido. E então, senti — o calor de um corpo suave contra o meu. O peso de um braço alheio sobre o lençol. O que vi fez o meu sangue gelar instantaneamente. Uma mulher. Ela estava de costas para mim e completamente despida, seus ombros eram finos, e a pele delicada e pálida. O cabelo escuro esparramava-se no travesseiro. Meu instinto, ainda embotado pela droga, foi de alerta. “Quem diabos era aquela?” Como se sentisse o peso do meu olhar, ela se moveu. Um suspiro, um tremor. E então, ela se virou. Naquele momento senti meu mundo parar, em seu rosto, uma enorme cicatriz. Uma linha violenta que serpenteava da têmpora até a boca, uma marca de brutalidade eternizada em traços delicados. Era uma jovem. E eu não a conhecia. Não fazia ideia de quem era ela. Nossos olhos se encontraram. Os dela, verdes, se arregalaram de horror. Ela abriu a boca para gritar. — Cale-se maldita! — rosnei, minha voz um rugido áspero que ecoou no quarto silencioso. O susto a fez emudecer, mas não a acalmou. Ela se encolheu, puxando os lençóis para cobrir o corpo nu, um tremor incontrolável percorrendo-a. — Quem é você? — sussurrou, a voz um fio de horror. — O que está fazendo na minha cama? Nu? Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com violência. E lá estavam eles. Victoria na frente, com um sorriso vingativo. Atrás, os Harrington — Richard com seu olhar de falsa decepção, Elizabeth com a mão no peito, fingindo choque. — Meu Deus! — Elizabeth exclamou, a sua voz rra i puro teatro — Nikolai… você… você desonrou minha filha! E a minha pobre filha Angeline foi… criada em um internato! O velho Richard avançou, seu olhar de aço perfurando-me. — Você corrompeu a pureza dela sob o meu teto! Na nossa tradição, você sabe o preço. Vai assumir e se casar com ela. Um homem do seu posto deve dar o exemplo! E então, Victoria. Seus olhos azuis brilhavam com um ódio triunfante enquanto percorriam a cena: eu, ainda atordoado na cama, e a irmã, a "deformada", tremendo como uma folha. Ela riu, um som gelado. — Quem diria, Nikolai? Resistiu a mim por ter gostos tão… peculiares. Gosta do circo dos horrores, é? — Seus olhos se voltaram para a irmã. — E você, irmãzinha? Criada como santa, e afinal… é uma vadia. — Não! — a garota gritou, desesperada. — Isso não é verdade! Nunca dormi com ele, nem o conheço! Por que ele está no meu quarto? Ela chorava, tremia, parecia à beira de um ataque. E eu… eu quase caí naquela atuação. Quase. Mas não era tão idiota. O óbvio estava bem ali diante dos meus olhos. A peça final daquela maldita armadilha, era justamente, a falsa inocência, o desespero coreografado. Ela estava no jogo, assim como todos os Harrington. Foram cúmplices para me prender a essa… coisa. Não era um erro. Era uma armadilha, perfeita e sádica. Eles não só estavam me forçando a casar. Estavam me dando a mulher que consideravam um lixo. Usaram a própria filha que desprezavam como isca e eu, o homem que quebrava impérios, tinha caído no jogo de uns vermes ambiciosos. — Nikolai — a voz de Richard ainda ecoava em minha mente . — Você desonrou minha família. Manchou a pureza da minha filha sob meu teto. Pela honra da Bratva, pelas tradições que seu próprio pai e eu juramos defender, você não pode se negar a reparar isso, afinal ela teria um casamento vantajoso, se você não a tivesse arruinado. Cada palavra dele era um veneno, mas eu as deixei escorrer por mim sem reagir. Por dentro, minha mente trabalhava a uma velocidade cortante. Foi quando de repente ouviu quase em sussurro estrangulado por falsos soluços a voz dela: — Por favor… não aceite isso. Diga que não foi isso que aconteceu. Eles estão mentindo. Nem sequer olhei para ela. Na verdade, seu teatrinho me deu mais incentivo de fazer todos pagarem por sua afronta. Eles queriam um casamento? Eles teriam um casamento. Queriam me prender a essa mulher? Eu aceitaria. Deixei um silêncio pesado cair sobre o quarto enquanto observava a garota fingindo choro e negando com a cabeça, suspirei antes de responder. Sabia que eles esperavam uma recusa, uma explosão. Mas dei a eles o oposto. — Sim, Richard — minha voz saiu calma, clara e mortalmente controlada. — Você tem toda a razão. Um momento de surpresa percorreu a todos, inclusive Victoria. O sorriso de Richard congelou por uma fração de segundo, como se não acreditasse no que ouvia. Victoria franziu a testa, desconfiada. Apenas sua mãe Elizabeth manteve a expressão inalterada, seus olhos verdes perfurando os meus, tentando decifrar o meu jogo. — Jamais deveria ter feito isso com sua filha — continuei, mentindo com uma convicção que doía nos meus próprio ser. — E sim, vou honrar as tradições. Vou me casar com sua filha. O sorriso que se estampou no rosto de Richard foi tão amplo e triunfante que quase me fez vomitar. Era a expressão de um homem que acreditava ter vencido. A expressão de um tolo, acabaria com aquele sorriso em breve. Mais tarde, quando cheguei a mansão Volkov tive que contar a meu pai na seu escritório. — Foi uma armadilha, pai — expliquei, minha voz carregada de uma raiva contida. — Eles me drogaram. Puseram aquela mulher na minha cama. Ivan Volkov, o Velho Urso, olhou para mim, seu rosto marcado por rugas e desconfiança. O silêncio dele era mais assustador que qualquer gritaria. — E você caiu, filho — ele finalmente disse, sua voz um rosnado baixo. — Caiu como um novato. Agora está preso a essa maldita família está preso os… Harrington. — Estou preso a nada — retruquei, meus olhos fixos nos dele. — O casamento é só um pedaço de papel. E vai ser a desculpa perfeita para acabar com eles. Ele estudou meu rosto por um longo momento, a decepção nos seus olhos lentamente dando lugar a um brilho de resignação sombria. — Espero que saiba o que está fazendo, Nikolai — ele resmungou, virando-se para a janela. — Você é o Pakhan agora. Suas decisões afetam a todos nós. — Sei muito bem o que faço, pai — respondi, a imagem de Victoria sorrindo queimando na minha mente. — Sei perfeitamente. E sabia. Organizei aquele casamento idiota eu mesmo. Para eles, era a minha rendição. Para mim, era a primeira pá cavando a cova deles, ninguém brinca com Nikolai Volkov.






