CAPÍTULO 5

ANGELINE HARRINGTON

Eu não conseguia acreditar que aquilo realmente estava acontecendo comigo. E o pior: que fosse a minha própria família a me castigar assim…

Quando entrei em minha casa, vi meus pais, o pai do homem que agora era meu marido, aquelas pessoas praticamente desconhecidas e ela — Victoria, minha irmã. Aquela que sempre me demonstrou o quanto me odiava.

Eles nos encaravam como se tivessem assistido a uma peça de teatro. Antes daquele terror, tudo o que consegui lembrar foi o momento em que minha consciência voltou, como se eu estivesse afogando. Um peso imenso sobre as pálpebras, a língua grossa e seca, e uma dor de cabeça latejante que parecia querer rachar meu crânio. O mundo regressou em fragmentos: o cheiro amadeirado de um perfume masculino completamente estranho… e o calor de outro corpo na cama.

Quando consegui forçar meus olhos a se abrirem, o ar parou em meus pulmões.

Mesmo deitado, sua presença dominava o espaço. E seus olhos… olhos cinza e gélidos que já me fitavam, não com desejo, mas com um desprezo tão profundo que pareceu me esfaquear. Eu estava de costas para ele, mas me virei instintivamente, e seu rosto se tornou nítido. Duro. Esculpido em granito e ódio.

O pânico, despertou dentro de mim. Um grito se formou na minha garganta, um som rouco e quebrado de terror.

— Cale-se, maldita — ele rosnou, sua voz um trovão baixo e ameaçador que ecoou no quarto silencioso.

Mas já era tarde. A porta do quarto se abriu com um estrondo, e a luz do corredor invadiu o espaço, iluminando o rosto da única pessoa que poderia tornar aquela situação ainda pior: Victoria.

Ela estava lá, parada na moldura da porta. E sorria. Não um sorriso de preocupação, mas um sorriso largo, satisfeito, de triunfo absoluto. Seus olhos azuis brilhavam com uma luz que eu conhecia bem — a luz da crueldade atingindo seu objetivo. Atrás dela, meus pais. Richard e Elizabeth Harrington. Meu sangue. E eles não pareciam chocados. Pareciam… expectantes.

Foi então, naquele exato instante, que o véu não só caiu dos meus olhos, mas foi arrancado com violência.

Era uma peça. Eu era a peça no jogo sujo deles.

Os eventos da noite anterior começaram a voltar, dolorosamente claros, como cenas de um filme de terror.

— Sua irmã está dando uma festa, Angeline. Você entende que, com esse rosto, é melhor ficar em seus aposentos — A voz gelada da minha mãe, Elizabeth. Era a mesma de sempre. Desde os dez anos, desde o acidente de carro que levou meu irmão e me deixou com esta cicatriz serpenteando no rosto, eu era uma vergonha a ser escondida. Eles nunca me perdoaram por ter sobrevivido no lugar dele.

Fazia sete meses que eu havia voltado do internato na Suíça, e desde então, Victoria fizera da minha vida um inferno particular. Apesar de termos o mesmo sangue, éramos como o dia e noite. Enquanto ela era o sol dourado dos Harrington, eu era a sombra, a mancha. E ela adorava me lembrar disso.

— Angeline, venha aqui! Preciso que você arrume minha roupa para a festa e engraxe meus sapatos. Nada de deixar marcas, sua inútil.

Eu fui. Como sempre. A governanta Serafina — a única alma neste lugar que sempre me tratou com uma centelha de bondade, desde pequena — assistia com olhos tristes, mas era impotente contra a vontade da "jovem senhora".

Naquela noite, porém, Victoria estava estranhamente… animada.

— Hoje é o grande dia, irmãzinha — ela disse, enquanto eu a ajudava a se vestir —O homem que eu amo vai me pedir em casamento nesta festa. Finalmente."Seus olhos brilhavam, mas havia algo de falso naquela alegria, uma centelha de cálculo que eu só percebo agora.

Foi então que ela fez o pedido que mudou tudo.

— Angeline, desça e pegue uma garrafa de champanhe para nós. Vamos celebrar.

Hesitei totalmente apreensiva.

— Eu… não bebo, Victoria.

— Não seja chata! É uma ordem. E depois, dê uma última olhada no meu closet, quero ter certeza de que meus sapatos estão perfeitos.

Inocente. Tão estúpida e inocente. Desci, peguei a champanhe. Quando voltei, duas taças estavam na mesa. Ela serviu, insistiu. Para não causar mais conflito, eu peguei a minha. Mal molhei os lábios, mas foi o suficiente. Acreditava que ela deve ter colocado algo na taça quando eu virei as costas para verificar o closet antes de me servir.

Assim que terminei de beber a champanhe meu mundo começou a girar. Minhas pernas amoleceram, a visão escureceu. A última coisa que lembro é do olhar frio e triunfante dela...

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