CAP 7

Elisie Charpentier

Dois corpos mortos numa sala de jantar. Dois!

Eu vejo sangue, sinto o cheiro de sangue e o gosto também. É uma sensação horrenda que não dá para descrever. O meu corpo inteiro treme por ver isso tão de perto e também por pensar que posso ser a próxima a ser morta.

Acho que não pensei direito sobre revelar tudo.

Eu poderia ter mandado as fotos de outra forma. Enviado de forma anônima, pagado alguém para entregar ou qualquer outra coisa. Deixei a pressa me dominar e deu nisso.

E gora? O que será de mim nessa noite?

Lucien limpa a mão no lenço que pega da mesa, como se tivesse apenas derramado vinho. Depois guarda a arma dentro da roupa, ajeita o terno e vira o rosto para mim. Ele não pisca, não hesita e não demonstra nada. Ele é neutro demais, camuflado demais e por isso temo por tudo.

Eu sinto minha garganta fechar e nada no meu corpo obedece.

Ele dá dois passos na minha direção.

Meu corpo reage antes da minha mente, mas a reação é apenas a tremedeira. Eu tremo inteira. Da nuca aos pés.

E mesmo assim, tento ao menos falar para me defender.

— Eu nunca… nunca traí o meu marido com ninguém. — A minha voz falha, mas eu continuo. — Eu sempre fui fiel. Aguentei tudo. — Eu pigarreio e ele me continua me olhando firme. — As ameaças, as traições dele, a solidão, a humilhação… tudo. E-eu só queria que ele pagasse pelo que fez. Mas eu… eu nunca cometi erro algum. Nunca!

Lucien para na minha frente.

— Foram os... os meus pais que decidiram sobre o casamento. E-eu não pude decidir nada e me casei depois deles morrerem. Mas, mesmo assim, eu nunca feri à aliança. — Digo a ele. — Foram... cinco anos de luta silenciosa. Mas, q-quando eu vi que a esposa do Don estava no meio, eu não... podia ficar calada. Eu sempre fiz tudo certo.

Ele me observa por longos segundos. Além de me olhar nos olhos, ele me olha toda.

Então, ele abre a boca de forma quase imperceptível.

— Eu sei. — Ele diz.

Eu pisco.

Eu não entendo.

— Como…?

— Há dias eu observava sua casa... de fora e por dentro. — Ele diz como se fosse a coisa mais banal do mundo. — Quando vi as contas em vermelho do Henri, esbanjando nos meus bordéis, consumindo tudo e agindo como dono do mundo sem pagar, eu quis saber o que ele andava fazendo. — Ele fala numa enorme calmaria. — Uma das suas empregadas é minha informante. Ela me contou que você nunca saía. — Eu abro a boca em choque. — Que nunca recebia visitas masculinas ou... qualquer outra. Que cuidava da casa. Que era… humana demais para esse verme. Que ouvia humilhações, que jamais revidava... nem tinha voz na casa. — Eu ouço em choque total. — Que ele sempre estava fora, comendo qualquer uma por aí e sei que até o drogava para ele pensar que ia pra cama com você.

Eu sinto meu estômago afundar.

Eu estava sendo vigiada. Vigiada dentro da minha própria casa!

Eu não fazia ideia.

— Pelo menos… — Eu digo, sem ar. — Pelo menos nós dois nos livramos de pessoas rüins. Eu… eu já vivi dois infernos longos, então... e-eu só quero seguir minha vida agora. E-eu... eu preciso ir e...

E então…

Ele sorri.

O primeiro sorriso que eu vejo no rosto dele. E é pior do que a frieza. É um sorriso macabrö demais, um sorriso de poder que eu não conheço.

Quando acho que não tem mais nada, penso que é melhor eu ir. Não quero ficar vendo esses corpos no chão, mortos e com esse cheiro de sangue no ar.

Eu me viro para ir embora, mas ele pigarreia de uma forma tão forte que eu paro no mesmo segundo.

— Você não vai a lugar algum, Elisie.

Eu giro de volta, confusa.

— O que… o que quer dizer?

Lucien dá um passo, me dominando pela presença, pela altura, pela autoridade que vibra no ar. Ele é muito maior do que eu. É forte demais e aposto que ele pode me matar com apenas um golpe nada elaborado.

— Você pertence a mim, agora!

Meus lábios se abrem num choque seco.

Meu coração para.

— Nós vamos nos casar! — Ele diz, firme, sem espaço para discussão. — Em alguns dias. Eu não posso ficar sem esposa e você não pode ficar viúva sem filhos... são as leis!

Eu sinto minhas pernas esvaziarem.

Lucien inclina a cabeça, analisa minha reação e chega bem mais perto do meu rosto.

— Seja bem-vinda à sua nova casa. Será uma Bellamy em breve!

Ele passa por mim, como se tivesse decidido meu destino com a mesma facilidade com que decidiu duas mortes há pouco.

E eu fico ali, paralisada.

Tentando entender se realmente ouvi… aquilo. E se eu ainda tenho vida própria, ou se, a partir de agora, eu sou só uma propriedade do Don.

Isso não pode estar acontecendo!

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