Capitulo 13

Aiden

O vento cortava a floresta como lâminas enquanto Aiden seguia pela trilha que levava ao hospital da alcateia.

O céu continuava encoberto, pesado, e o cheiro de tempestade pairava no ar.

Ao seu lado, Victor caminhava em silêncio, atento a qualquer movimento ao redor.

— Ele já acordou? — perguntou Aiden, sem diminuir o ritmo.

— Sim, Alfa. Damon despertou logo cedo. Ainda está fraco, mas consegue conversar.

— Ótimo. Preciso confirmar o que já sei.

Victor lançou um olhar discreto para ele.

— Ainda espera que não seja ele?

Aiden travou o maxilar.

Seus olhos permaneceram fixos no caminho à frente.

— Eu o vi, Victor. Com meus próprios olhos. Nós lutamos há alguns dias, perto da base do Vale Esquecido. Ele está diferente... muito mais cruel. E deixou isso bem claro: vai voltar para tomar o título de Alfa Supremo.

Victor engoliu em seco.

— E o senhor o deixou viver?

Aiden soltou uma respiração pesada.

— Por causa do meu pai. Uma parte de mim ainda acreditava que Kalel pudesse voltar sem derramar sangue.

Sua expressão endureceu.

— Eu estava errado.

---

O hospital era simples, mas fortemente protegido.

As paredes de pedra escura guardavam histórias de batalhas, curas... e despedidas.

Assim que entrou, o cheiro intenso de ervas medicinais misturado ao de sangue atingiu Aiden em cheio.

Damon estava deitado em um dos quartos reservados.

O ombro enfaixado.

O peito coberto por ferimentos recentes.

Assim que viu Aiden, tentou se levantar.

— Alfa...

— Fique deitado. — A voz de Aiden saiu firme. — Quero que me conte exatamente o que aconteceu. Confirme tudo.

Damon fez um leve aceno.

— Sofremos uma emboscada na zona leste. Era uma patrulha de rotina. O lugar deveria estar seguro... mas eles já estavam nos esperando.

Ele respirou fundo antes de continuar.

— Lobos negros. Rápidos. Silenciosos. Muito bem preparados. Um deles me derrubou... e falou comigo.

Aiden cruzou os braços.

— O que ele disse?

— Disse que o senhor era fraco. Que a alcateia estava seguindo o líder errado. Que o verdadeiro Alfa Supremo estava voltando.

Damon afastou o lençol que cobria seu corpo.

No ombro, havia uma marca que parecia ter sido queimada na pele.

A letra K.

Nítida.

Inconfundível.

Aiden se aproximou lentamente.

Seu olhar ficou preso naquela cicatriz.

Era exatamente a mesma marca que havia visto nas costas de Kalel durante a luta entre os dois.

Seu irmão.

O homem que fingiu a própria morte para fugir das responsabilidades.

E que agora havia retornado.

Não como aliado.

Mas como inimigo.

Na porta do quarto, uma presença chamou a atenção de todos.

Leonel.

Pai de Aiden e Kalel.

O antigo Alfa Supremo.

Ele permaneceu imóvel por alguns segundos.

Em silêncio.

Seu olhar caiu sobre a marca no ombro de Damon.

E permaneceu ali.

— Kalel... — murmurou, como se pronunciar aquele nome lhe causasse dor física.

Aiden virou-se para o pai.

Havia tristeza em seus olhos.

Mas também determinação.

— Ele voltou, pai. Está atacando nosso povo. Marcando nossos lobos como se fossem propriedade dele.

Leonel ergueu os olhos lentamente.

— E você já sabia?

— Eu lutei contra ele há alguns dias. — Aiden não desviou o olhar. — Foi ele mesmo quem disse que voltaria para tomar o posto de Alfa Supremo.

Ele respirou fundo.

— E eu...

Fez uma pausa.

— ...eu o deixei viver. Por sua causa.

Leonel fechou os olhos por um instante.

Parecia carregar o peso do mundo inteiro sobre os ombros.

Quando tornou a abri-los, seu rosto já não demonstrava emoção alguma.

Era pura pedra.

— O monstro que está destruindo a Alcateia Marca de Sangue é meu próprio filho.

Sua voz saiu amarga.

Carregada de arrependimento.

— Mas ele morreu no dia em que escolheu o poder em vez da família... e da alcateia.

Leonel aproximou-se de Aiden.

Sua voz ficou baixa.

Mas firme.

— Você precisa acabar com isso.

Acabe com ele.

Aiden assentiu.

— Eu sei.

Leonel lançou mais um olhar para Damon antes de voltar a encarar o filho.

— Nenhum filho meu... nenhum descendente verdadeiro dos Alfas... faria isso com o próprio povo.

Ele respirou fundo.

— Kalel está morto.

E é assim que deve permanecer.

---

Quando Aiden chegou à cabana da curandeira, a lua já brilhava no céu.

As pedras claras refletiam a luz prateada, enquanto uma névoa fina rastejava pelo chão como um mau presságio.

A porta rangeu quando ele entrou.

Maelis, a curandeira e vidente da alcateia, permanecia diante da lareira.

Mesmo cega, mantinha os olhos voltados para as chamas, como se enxergasse através delas.

— Você não veio atrás de remédios.

Ela falou antes mesmo que Aiden abrisse a boca.

— Preciso descobrir onde Kalel está escondido. — Sua voz carregava tensão. — Tenho que encontrá-lo antes que ele destrua mais vidas.

Maelis virou-se lentamente.

Os longos cabelos brancos estavam presos em um coque frouxo.

As mãos enrugadas seguravam um cajado de madeira.

— Todas as noites eu tento encontrá-lo... — murmurou. — Mas ele está envolto por sombras. A escuridão que existe dentro dele o esconde até de mim.

Ela balançou a cabeça.

— Não há nenhuma luz que eu possa seguir.

Aiden deu mais um passo.

— Nada?

— Nada.

Ela respirou profundamente.

— Ele não está apenas escondido em algum lugar. Está escondido de si mesmo. Da pessoa que um dia foi.

Sua voz ficou ainda mais séria.

— É isso que o torna tão perigoso. Um lobo que esquece quem realmente é... passa a agir apenas por instinto.

Ela apertou o cajado contra o chão.

— E o instinto puro destrói tudo o que encontra pela frente.

Aiden permaneceu em silêncio.

Nenhuma resposta.

Apenas a confirmação do que já temia.

Kalel havia ultrapassado o ponto de retorno.

Se ninguém o impedisse...

A alcateia inteira cairia.

Ele caminhou até a porta.

Antes de sair, fez uma última pergunta.

— Então me diga, Maelis... se meus olhos não conseguem encontrá-lo... como vou caçá-lo?

A vidente não respondeu imediatamente.

Voltou a encarar o fogo.

E falou quase num sussurro.

— A única luz capaz de alcançá-lo...

Ela fez uma breve pausa.

— ...é justamente aquela que ele mais teme.

Na mesma hora, Aiden entendeu.

Aurora...

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