Mundo ficciónIniciar sesiónAiden
O vento cortava a floresta como lâminas enquanto Aiden seguia pela trilha que levava ao hospital da alcateia. O céu continuava encoberto, pesado, e o cheiro de tempestade pairava no ar. Ao seu lado, Victor caminhava em silêncio, atento a qualquer movimento ao redor. — Ele já acordou? — perguntou Aiden, sem diminuir o ritmo. — Sim, Alfa. Damon despertou logo cedo. Ainda está fraco, mas consegue conversar. — Ótimo. Preciso confirmar o que já sei. Victor lançou um olhar discreto para ele. — Ainda espera que não seja ele? Aiden travou o maxilar. Seus olhos permaneceram fixos no caminho à frente. — Eu o vi, Victor. Com meus próprios olhos. Nós lutamos há alguns dias, perto da base do Vale Esquecido. Ele está diferente... muito mais cruel. E deixou isso bem claro: vai voltar para tomar o título de Alfa Supremo. Victor engoliu em seco. — E o senhor o deixou viver? Aiden soltou uma respiração pesada. — Por causa do meu pai. Uma parte de mim ainda acreditava que Kalel pudesse voltar sem derramar sangue. Sua expressão endureceu. — Eu estava errado. --- O hospital era simples, mas fortemente protegido. As paredes de pedra escura guardavam histórias de batalhas, curas... e despedidas. Assim que entrou, o cheiro intenso de ervas medicinais misturado ao de sangue atingiu Aiden em cheio. Damon estava deitado em um dos quartos reservados. O ombro enfaixado. O peito coberto por ferimentos recentes. Assim que viu Aiden, tentou se levantar. — Alfa... — Fique deitado. — A voz de Aiden saiu firme. — Quero que me conte exatamente o que aconteceu. Confirme tudo. Damon fez um leve aceno. — Sofremos uma emboscada na zona leste. Era uma patrulha de rotina. O lugar deveria estar seguro... mas eles já estavam nos esperando. Ele respirou fundo antes de continuar. — Lobos negros. Rápidos. Silenciosos. Muito bem preparados. Um deles me derrubou... e falou comigo. Aiden cruzou os braços. — O que ele disse? — Disse que o senhor era fraco. Que a alcateia estava seguindo o líder errado. Que o verdadeiro Alfa Supremo estava voltando. Damon afastou o lençol que cobria seu corpo. No ombro, havia uma marca que parecia ter sido queimada na pele. A letra K. Nítida. Inconfundível. Aiden se aproximou lentamente. Seu olhar ficou preso naquela cicatriz. Era exatamente a mesma marca que havia visto nas costas de Kalel durante a luta entre os dois. Seu irmão. O homem que fingiu a própria morte para fugir das responsabilidades. E que agora havia retornado. Não como aliado. Mas como inimigo. Na porta do quarto, uma presença chamou a atenção de todos. Leonel. Pai de Aiden e Kalel. O antigo Alfa Supremo. Ele permaneceu imóvel por alguns segundos. Em silêncio. Seu olhar caiu sobre a marca no ombro de Damon. E permaneceu ali. — Kalel... — murmurou, como se pronunciar aquele nome lhe causasse dor física. Aiden virou-se para o pai. Havia tristeza em seus olhos. Mas também determinação. — Ele voltou, pai. Está atacando nosso povo. Marcando nossos lobos como se fossem propriedade dele. Leonel ergueu os olhos lentamente. — E você já sabia? — Eu lutei contra ele há alguns dias. — Aiden não desviou o olhar. — Foi ele mesmo quem disse que voltaria para tomar o posto de Alfa Supremo. Ele respirou fundo. — E eu... Fez uma pausa. — ...eu o deixei viver. Por sua causa. Leonel fechou os olhos por um instante. Parecia carregar o peso do mundo inteiro sobre os ombros. Quando tornou a abri-los, seu rosto já não demonstrava emoção alguma. Era pura pedra. — O monstro que está destruindo a Alcateia Marca de Sangue é meu próprio filho. Sua voz saiu amarga. Carregada de arrependimento. — Mas ele morreu no dia em que escolheu o poder em vez da família... e da alcateia. Leonel aproximou-se de Aiden. Sua voz ficou baixa. Mas firme. — Você precisa acabar com isso. Acabe com ele. Aiden assentiu. — Eu sei. Leonel lançou mais um olhar para Damon antes de voltar a encarar o filho. — Nenhum filho meu... nenhum descendente verdadeiro dos Alfas... faria isso com o próprio povo. Ele respirou fundo. — Kalel está morto. E é assim que deve permanecer. --- Quando Aiden chegou à cabana da curandeira, a lua já brilhava no céu. As pedras claras refletiam a luz prateada, enquanto uma névoa fina rastejava pelo chão como um mau presságio. A porta rangeu quando ele entrou. Maelis, a curandeira e vidente da alcateia, permanecia diante da lareira. Mesmo cega, mantinha os olhos voltados para as chamas, como se enxergasse através delas. — Você não veio atrás de remédios. Ela falou antes mesmo que Aiden abrisse a boca. — Preciso descobrir onde Kalel está escondido. — Sua voz carregava tensão. — Tenho que encontrá-lo antes que ele destrua mais vidas. Maelis virou-se lentamente. Os longos cabelos brancos estavam presos em um coque frouxo. As mãos enrugadas seguravam um cajado de madeira. — Todas as noites eu tento encontrá-lo... — murmurou. — Mas ele está envolto por sombras. A escuridão que existe dentro dele o esconde até de mim. Ela balançou a cabeça. — Não há nenhuma luz que eu possa seguir. Aiden deu mais um passo. — Nada? — Nada. Ela respirou profundamente. — Ele não está apenas escondido em algum lugar. Está escondido de si mesmo. Da pessoa que um dia foi. Sua voz ficou ainda mais séria. — É isso que o torna tão perigoso. Um lobo que esquece quem realmente é... passa a agir apenas por instinto. Ela apertou o cajado contra o chão. — E o instinto puro destrói tudo o que encontra pela frente. Aiden permaneceu em silêncio. Nenhuma resposta. Apenas a confirmação do que já temia. Kalel havia ultrapassado o ponto de retorno. Se ninguém o impedisse... A alcateia inteira cairia. Ele caminhou até a porta. Antes de sair, fez uma última pergunta. — Então me diga, Maelis... se meus olhos não conseguem encontrá-lo... como vou caçá-lo? A vidente não respondeu imediatamente. Voltou a encarar o fogo. E falou quase num sussurro. — A única luz capaz de alcançá-lo... Ela fez uma breve pausa. — ...é justamente aquela que ele mais teme. Na mesma hora, Aiden entendeu. Aurora...






