CAPÍTULO 02

Darya não respondeu ao elogio de Matteo. O brilho frio nos seus olhos foi suficiente para lhe dar a resposta que ele procurava. O jantar começou, mas ninguém tinha apetite.

O tilintar dos talheres contra a porcelana soava como um ruído áspero, desconfortável, diante do silêncio pesado que dominava a sala. Ricardo respirava fundo, e cada gole de vinho parecia um esforço para conter a fúria.

— Giovanni.

Começou finalmente, a voz grave, firme.

— Havíamos discutido a união entre a minha filha e o teu herdeiro. Era o caminho natural. E hoje, diante de todos, esse acordo foi rasgado sem aviso.

Virou-se para Matteo, os olhos estreitos de raiva contida.

— Quero ouvir de ti. Porquê?

Giovanni ergueu o olhar apenas por um instante, tranquilo demais para a tempestade que ardia diante de si.

— A escolha da esposa cabe ao herdeiro. Matteo decidiu.

Ricardo mordeu os lábios, como se segurasse palavras que não ousava dirigir directamente ao Don. Então encarou Matteo, implacável.

— Explica-me, então. Por que razão escolheste a minha enteada em vez da minha filha?

O silêncio que se seguiu foi frágil e denso. Todos à mesa esperavam as palavras de Matteo, como se delas dependesse o destino daquela aliança.

— Porque não escolho alianças frágeis.

Respondeu, frio.

— Preciso de uma esposa que saiba suportar o peso do que está por vir. Darya tem isso. Bianca… não.

Ricardo bateu o punho na mesa, o cristal a tremer com o impacto.

— Estás a insultar a minha filha diante de todos?

Matteo inclinou a cabeça, sereno, quase desafiador.

— Não é insulto quando é verdade.

— Achas que Darya tem mais valor do que Bianca?

Insistiu ele, a voz a tremer de raiva. Desta vez, Darya não se conteve. Endireitou-se na cadeira e respondeu, sem desviar o olhar:

— Não se trata de valor, Ricardo. Trata-se de sangue. Eu sou Vellano. E isso ninguém me pode tirar.

As palavras dela cortaram o ar como uma lâmina. Matteo conteve um sorriso, satisfeito. Era precisamente essa força que o levara a escolhê-la. Giovanni interveio, a voz firme como pedra:

— O noivado está decidido. A vontade do herdeiro é soberana.

Ricardo procurou recuperar terreno, desesperado.

— E a nossa aliança? Como esperas que eu continue aliado se não faço parte da família?

Matteo respondeu sem hesitar:

— Continuaremos nos negócios. Mas não confundas: negócios não significam família.

Inclinou-se para a frente, os olhos a faiscar.

— Todo o meu investimento, toda a minha lealdade… não passam de moeda de troca? — replicou Ricardo, a voz carregada de indignação.

— Exactamente. — Matteo cruzou os braços. — És útil. Mas não para ser um Mancini.

Giovanni completou, num tom glacial:

— A questão está encerrada. Aceite… ou lide com as consequências.

O silêncio que se seguiu era quase palpável. Ricardo respirou fundo, o orgulho ferido a latejar-lhe no olhar.

Ariella, até então calada, ergueu finalmente a voz, doce e cruel como veneno:

— Devias sentir-te grato, Ricardo. Muitos, no teu lugar, teriam perdido tudo esta noite.

Ricardo ergueu a taça, bebeu o vinho de um só trago, como se fosse feliz. Não disse mais nada. O jantar terminou num silêncio sufocante. Ele o primeiro a levantar-se.

— Aproveitem a noite — disse, frio. — Mas lembra-te, Giovanni: nenhuma humilhação fica sem resposta.

Saiu sem se despedir, os passos duros a ecoarem no mármore.

A sala pareceu subitamente maior, vazia. Ariella sorriu, satisfeita; Giovanni manteve-se imperturbável.

Darya permaneceu ereta, os olhos fixos à frente, sem mostrar nem medo, nem vitória. Pouco depois, os pais de Matteo recolheram-se, deixando-os a sós. Matteo aproximou-se dela, firme, até ficarem frente a frente.

— Mantiveste a postura — disse, avaliando-a. — Poucos suportariam o que aconteceu hoje.

— Não tenho escolha — respondeu ela, a voz firme, quase cortante.

Matteo avançou um passo, estudando-lhe cada traço.

— Achas que estás pronta para isto?

Ela ergueu o queixo, sem vacilar.

— Sim. Estou pronta.

Um sorriso discreto surgiu-lhe nos lábios, satisfeito com a resposta.

— Então lembra-te de uma coisa, Darya. — A voz dele desceu, grave. — Se alguma vez te sentires encurralada… se algo acontecer antes do casamento… telefona-me. Entendeste?

Ela piscou, surpreendida pela oferta. Depois assentiu, lenta, como quem guarda um segredo precioso.

— Entendi.

Matteo afastou-se, já de novo o homem frio e calculista que todos conheciam.

— Boa noite, Darya. Em breve falaremos da cerimónia.

Bianca não sabia como reagir aos acontecimentos daquela noite. O jantar, que deveria consagrar a sua vitória, transformara-se numa humilhação pública. Sentia-se como se uma parte de si tivesse sido arrancada à força, deixando-lhe apenas o vazio.

O coração latejava-lhe no peito, mas não era amor, era raiva, incredulidade, uma dor afiada que queimava por dentro.Como não percebera o que estava prestes a acontecer? Onde falhara? Desde quando Darya tivera ousadia para se colocar no seu caminho? A meia-irmã, sempre ela, como uma sombra inconveniente que a vida teimava em manter viva para lhe roubar tudo.

Bianca passeou os olhos pelo quarto, mas só conseguia fixar-se no espelho. Aproximou-se e encarou o reflexo. Aquele rosto, tão perfeito, tão simétrico, tão cuidadosamente construído, devolvia-lhe agora a imagem de alguém derrotada. Não suportava aquilo. Sempre ouvira que era a mais bonita, a mais desejada, a filha exemplar.

Não havia comparação possível entre ela e Darya. Como podia, então, ter sido ultrapassada? “Será que este é o meu castigo por ser perfeita?”, pensou, com um sorriso amargo.

Desde criança vivera nesse pedestal. O pai, a mãe, todos à sua volta exigiam perfeição e ela dera-lha. Tornara-se a filha modelo, a jóia da família Rossi. O mundo girava em torno dela, e parte desse mundo incluía, inevitavelmente, Matteo. O noivado estava decidido desde sempre; crescera com a certeza de que aquele homem viria a ser seu marido.

Bianca recordou as memórias de infância: as visitas às casas dos Mancini, os olhares furtivos que lançava a Matteo, os pequenos gestos que imaginava significar algo mais.

Crescera a sonhar com ele. Nunca se importou com o seu silêncio ou a frieza das suas recusas, porque sabia, ou convencera-se, de que era apenas uma questão de tempo. Matteo não era como os outros homens. Não precisava de mulheres baratas nem de elogios forçados.

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