O CHEIRO DO VÍNCULO

AMÁLIA

Amália caminhava pela viela estreita de terra batida, os passos rápidos levantando pequenas nuvens de poeira que grudavam na barra do vestido azul desbotado.

O frio da noite mordia sua pele. Ela apertou o casaco contra o corpo enquanto seguia pelo corredor escuro entre as casas antigas.

Embora conhecesse aquele caminho como conhecia a própria rotina, havia algo errado naquela noite.

Os cães estavam inquietos.

Correntes batiam com força contra o concreto, um som que vibrava nos dentes de quem ouvia.

Latidos ecoavam atrás dos portões. Que soavam mais como um pedido de socorro.

As sombras pareciam ter vida, e os animais das casas próximas a floresta estavam agitados, como se pressentissem algo.

O vento que vinha da floresta trazia um cheiro úmido e estranho.

O celular vibrou em sua mão lhe tirando daqueles pensamentos.

O nome do pai surgiu na tela.

Amália suspirou antes de atender.

— Oi, pai.

— Onde você está? — ele perguntou imediatamente. — Já saiu da lanchonete?

— Já. Estou indo pra casa.

— Pela rua principal?

Ela fechou os olhos por um instante.

— Sim, pai.

— Amália.

Ela sorriu de canto.

— Você pergunta isso toda noite.

— Porque toda noite você mente do mesmo jeito.

Ela soltou uma risada baixa.

— Eu só passei na cafeteria ontem.

— “Só passei”, ela diz… Você ficou até quase dez da noite lendo.

— O livro estava bom.

— Um dia eu vou começar a culpar esses livros pelas minhas noites sem dormir.

O tom dele arrancou um sorriso genuíno dela.

Então sua voz suavizou.

— Filha… eu não gosto de você andando sozinha tarde assim.

Amália ergueu os olhos para a viela vazia.

Silenciosa demais.

— Eu estou bem.

— Promete que vai direto pra casa hoje?

Ela hesitou.

E aquele pequeno silêncio bastou.

— Amália…

— Tá bom. Eu prometo.

O pai suspirou do outro lado da linha.

— Quando chegar em casa conversamos.

— Pode deixar.

— E anda pela rua principal.

Os olhos dela deslizaram pela viela estreita à frente.

— Claro.

Mentira.

Ela odiava a rua principal.

O excesso de pessoas. Os olhares demorados. Os sorrisos que precisava devolver apenas por educação.

O silêncio sempre lhe parecera mais gentil que os seres humanos.

— Eu te amo, filha.

O aperto no peito dela diminuiu por um instante.

— Também te amo.

A ligação encerrou.

Amália guardou o celular no bolso e voltou a caminhar.

Aquela não era uma noite comum. E ela sabia disso desde o instante em que saiu de casa.

A rua principal era a melhor escolha, estaria iluminada e movimentada, haveria segurança ali. Mas ela não suportava aquilo. Para Amália o silêncio e a escuridão sempre fizeram mais sentido.

Por isso escolhera a viela.

Naquele lugar ninguém exigiria nada dela, a não ser o enigma que envolvia aquela noite.

O vento atravessou a viela outra vez. Muito mais frio agora.

Então os cães começaram.

Eram latidos agressivos.

Violentos.

Havia uma sensação de desespero.

Primeiro um. Depois vários.

Os sons explodiram pela rua pequena como um aviso.

Amália parou lentamente.

Seu coração desacelerou por um segundo e em seguida disparou.

Os latidos cessaram de repente.

E o silêncio que veio depois foi pior.

Um choramingo baixo tomou conta da noite. Os animais estavam assustados.

Não.

Aterrorizados.

Como se algo estivesse passando entre as sombras.

Algo que eles reconheciam como predador.

Um arrepio percorreu sua espinha. O ar ficou pesado.

Quase sufocante.

Então veio o cheiro.

Amália parou instintivamente.

Seu corpo inteiro reagiu antes que sua mente entendesse.

Terra molhada.

Sândalo.

E algo mais. Algo quente e um tanto Selvagem.

Seu peito apertou violentamente.

Aquela fragrância não parecia nova.

Parecia… familiar.

Como uma memória enterrada em seu interior.

Como se alguma parte esquecida da sua alma tivesse esperado aquilo a vida inteira.

Ela respirou fundo outra vez.

E imediatamente desejou sentir de novo.

O cheiro invadiu seus pulmões como fogo.

Seu coração bateu mais forte.

Mais rápido.

Mais desesperado.

Meu Deus…

O que era aquilo?

Ela virou lentamente a cabeça para trás.

Nada. Ainda assim…Ela sentia.

Não estava sozinha.

O vento soprou forte, bagunçando seus cabelos escuros.

Então vieram os passos pesados e pecisos.

Não havia pressa neles.

Porque aquilo que vinha das sombras sabia exatamente o efeito que causava.

Amália virou-se devagar.

E então o viu.

Uma silhueta masculina emergia da escuridão.

Alta. Imponente.

Grande demais para aquele espaço estreito.

A presença dele parecia esmagar o ar ao redor.

Os ombros largos bloqueavam parcialmente a luz da lua, que era a única coisa que os tiravam da penumbra.

Mas não foi aquilo que fez o coração dela falhar.

Foi a sensação absurda de reconhecimento, de reencontro.

Como se o corpo dela o conhecesse de longa data.

Como se cada instinto dentro dela estivesse despertando ao mesmo tempo.

Corra.

Aproxime-se.

Fuja. Fique.

Ela deveria estar apavorada.

Mas o medo vinha misturado com algo muito pior.

Desejo.

O homem deu um passo à frente.

A terra rangeu sob a bota pesada.

O cheiro ficou ainda mais intenso.

Mais viciante.

Amália engoliu seco.

Ela precisava perguntar quem ele era.

Precisava gritar. Precisava correr.

Mas seu corpo não obedecia.

A lua escapou entre as nuvens por um breve instante.

E iluminou parte do rosto dele.

Perfeitamente brutal.

Traços duros.

Mandíbula marcada.

Embora não conseguisse vê-lo por completo.

Entendi que ele era dono de uma beleza perigosa.

Mas foram os olhos que fizeram Amália perder o ar.

Dourados.

Não castanhos.

Não mel.

Dourados.

Brilhando na escuridão como os olhos de uma fera.

Ela recuou meio passo involuntariamente.

O homem inclinou levemente a cabeça enquanto a observava.

Então inspirou profundamente.

E algo nele mudou.

Os músculos da mandíbula ficaram tensos.

Os olhos dourados queimaram ainda mais intensamente.

Um rosnado baixo escapou de sua garganta.

Não parecia humano.

Parecia contido.

Como se alguma coisa dentro dele estivesse tentando sair.

Algo violento.

Algo faminto.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando tornou a abri-los, havia irritação neles.

Raiva.

Amália odiou perceber sua repulsa

E o desconhecido odiava o efeito que ela causava nele.

— Quem é você? — ela perguntou, tentando sustentar firmeza na voz.

Ele a encarou em silêncio por longos segundos.

Longos demais.

Então respondeu:

— Você não deveria estar aqui, humana.

A voz dele era grave, rude.

Cada palavra atravessou sua pele como um arrepio.

Amália franziu a testa.

— Humana?

Um sorriso cruel surgiu no canto da boca dele.

Pequeno porém predatório.

— Foi exatamente o que ouviu. Uma humana fraca.

Ela ergueu o queixo, irritada.

— Quem diabos fala desse jeito? E como ousa me chamar de fraca?

Os olhos dourados desceram lentamente pelo corpo dela antes de voltarem ao seu rosto.

Aquilo fez seu estômago revirar.

— Alguém que consegue sentir o seu medo.

O coração dela disparou.

Mas Amália não recuou.

— Então está sentindo errado.

Outro passo. Lento.

Caçador.

Ele agora estava perto o suficiente para que ela percebesse a respiração pesada.

O calor absurdo vindo dele.

A força brutal escondida sob as roupas escuras.

— Você deveria correr — ele murmurou.

A voz saiu mais rouca dessa vez.

Mais perigosa.

— E por que eu faria isso?

Os olhos dele pareceram se incendiar.

— Porque eu estou tentando não destruir essa viela inteira procurando o motivo de você ter esse cheiro.

O ar fugiu dos pulmões dela.

O homem passou a mão pela própria nuca como se estivesse irritado consigo mesmo.

Então rosnou baixo outra vez.

— Droga…

Amália sentiu um arrepio violento percorrer seu corpo.

— Você é louco.

O sorriso dele aumentou.

Mas não havia humor algum nele.

Só ameaça.

— Você ainda não faz ideia do que eu sou.

O vento soprou violentamente naquele instante.

Os cães voltaram a choramingar ao longe.

E então ele deu mais um passo.

Muito perto agora.

Perto o suficiente para destruí-la.

Ou beijá-la.

— Última chance, humana — ele disse encarando sua boca por um breve segundo. — Vai embora antes que eu esqueça completamente o meu controle.

Mas Amália não saiu.

Porque, apesar do medo…

Uma parte dela queria exatamente isso. vê-lo perder o controle.

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